Dia de Campo mostra potencial da agroecologia e produção orgânica em Pelotas e região

Evento foi uma oportunidade para obter conhecimentos sobre o setor. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Palestras e difusão de conhecimento divididas em quatro estações temáticas, discussões, homenagens, aproximação entre pesquisadores, produtores, técnicos extensionistas, professores e estudantes da área de agrárias, além de uma extensa feira agroecológica, com direito à produção hortifrutigranjeira, de bebidas (sucos e vinhos), panificação, floricultura, plantas medicinais, artesanato e empreendimentos na área de turismo rural.

Pelotas e região tiveram direito na quinta-feira (1º) a um verdadeiro festival de agroecologia e produção orgânica na Estação Experimental Cascata (EEC), da Embrapa Clima Temperado. O Dia de Campo sobre Agroecologia e Produção Orgânica celebrou sua 18ª edição com a retomada do formato presencial e, pela primeira vez, com uma Feira de Agroecologia que reuniu dezenas de produtores.

Anfitrião, Luis Fernando Wolff, coordenador da ECC, chamou atenção para a importância do que ocorreu desde o início da manhã e se estendeu até o fim da tarde na sede da Embrapa na Cascata (zona rural de Pelotas). Além de reunir dois eventos em um – o Dia de Campo e a Feira da Agroecologia – a iniciativa proporcionou que pesquisadores falassem diretamente sobre diferentes temas a agricultores e extensionistas.

“Não tem igual no Brasil, inovador e vanguardista – aqui se encontra uma série de colaboradores e parceiros externos, além de muitas outras organizações, como Fepam, Sema [Secretaria Estadual do Meio Ambiente], Secretaria de Agricultura, universidades, com trabalhos focados em agroecologia e produção orgânica, uma vitrine para servir de modelo e exemplo”, afirmou.

O pesquisador da Embrapa Luiz Fernando Wolff, coordenador da EEC e anfitrião do evento. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Wolff também lembrou da existência da lei municipal para fortalecimento da agroecologia, cujo comitê executor se reuniu com produtores durante o evento, e reforçou o quanto a região oferece um espaço “barbaramente possível” para ampliação da agroecologia e produção orgânica. Citou organizações já estabelecidas como Capa e Emater e o papel da Embrapa Clima Temperado no papel do desenvolvimento eco regional. “Diferentemente de outras unidades da Embrapa, que trabalham com produtos, nosso compromisso é com o desenvolvimento eco regional, o potencial daqui da região é bárbaro”, enfatizou.

As discussões, divididas em quatro estações temáticas (Pagamento por Serviços Ambientais, Agrosociobiodiversidade, Sistemas de Produção Biodiversos e Bioinsumos), também mereceram elogios. Além de qualificar o debate acerca dos temas em destaque, a programação trouxe à tona questões ainda pouco exploradas, como a Lei de Pagamentos por Serviços Ambientais, que segundo Wolff, doutor em Recursos Naturais e Gestão Sustentável, é assunto absolutamente novo, no qual estados e municípios ainda demonstram dificuldades para implementar.

“É um pagamento que pode não ser pecuniário, pode não ser em espécie, mas na forma de redução de impostos ou de programas que estimulem a melhoria ambiental. Qual o valor de uma floresta protegida em uma propriedade rural? O que significa para a proteção da água, em captação de gás carbônico, em melhoria de qualidade de vida e proteção do solo? Governo e produtores precisam começar a conversar.”

Iniciativa de realizar o Dia de Campo simultaneamente à Feira é inédita. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Interesse do agricultor

Engenheiro agrônomo e funcionário da Emater, Luiz Fernando Horn concorda com Wolff. Pelotas e região têm potencialidade para ampliar a produção orgânica e agroecológica. Hoje, nos dez Organismos de Controle Social (OCSs) da região do Corede Sul, são contabilizados 380 produtores certificados por atenderem todos os normativos da produção orgânica.

“A demanda é crescente, os produtores não conseguem atender. Este evento, Dia de Campo e Feira, mostra que é um segmento econômico forte, consolidado, tem cadeia produtiva, com fornecedores de insumos, de produtos, de sementes, prestadores de serviços. Não é mais agricultor isolado produzindo de forma orgânica, tem estrutura e cultura de suporte para potencializar o desenvolvimento desse trabalho”, afirma.

De acordo com ele, o aumento da produção orgânica passa por um conjunto de fatores. O principal, para Horn, reside na questão de formação e conhecimento do produtor. “Nosso produtor ainda não sabe o que é produção orgânica agroecológica, ainda acha que é poesia”, critica. “E não é, é concreta, tem muitas ciências por trás e muita tecnologia”, disse.

Uma adesão maior a esse tipo de produção, diz o engenheiro agrônomo, é capaz inclusive de baratear o produto. “Não tem muita oferta no mercado, mais produtores significam mais troca de experiência, mais troca de conhecimento, e com isso também haverá redução de custo, de trabalho e de mão de obra – tudo isso contribui para reduzir o custo produtivo desse sistema”, afirma.

A Emater, no caso, está pronta para apoiar o produtor que tiver interesse em migrar para a produção orgânica e para a agroecologia. É o que garante o chefe do escritório da Empresa em Pelotas, Francisco Arduim de Arruda, ele também agrônomo de formação.

Feira da agroecologia uniu produtores e consumidores, promovendo a troca de conhecimentos e experiências. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

“O produtor tem a escolha, se optar por esse jeito de produzir vamos dar toda orientação, a Emater tem técnicos especializados para dar esse apoio, o produtor vai ser atendido.”

Para ele, é fundamental produzir alimentos sem produtos sintetizados, “que a gente sabe o que causa quando mal utilizado”, completa. E lembra que Pelotas e região são muito bem servidos na produção de conhecimento para amparar o produtor. “Temos a Embrapa, as universidades, tem feiras ecológicas na cidade – o mundo caminha para isso”, projeta.

30 anos de agroecologia

O agricultor familiar Cléo de Aquino Ferreira completou recentemente nada menos que 30 anos de produção agroecológica na área da fruticultura. Natural de Canguçu, onde tem a propriedade de 15 hectares no 1º distrito, Coxilha dos Silveiras, ele se apresenta, ao lado da esposa, Rosimar, também como ecologista.

O casal de produtores orgânicos da área de fruticultura, Cléo e Rosimar Ferreira, de Canguçu, estiveram no 18º Dia de Campo sobre Agroecologia na Estação Experimental Cascata (EEC), da Embrapa Clima Temperado. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

“Acredito no princípio da vida em harmonia com o meio ambiente, esta é a principal vantagem da agroecologia”, disse Ferreira durante visita ao Dia de Campo. Ele prossegue: “Vejo o agricultor o tempo todo em batalha com o meio ambiente, precisa derrubar o mato, precisa botar muito veneno, e não resolve, só interessa ao mercado, e vive neste constante conflito”, lamenta.

Além disso, o produtor garante: do ponto de vista econômico, não tem do que se queixar. Além de trabalhar com 24 espécies manejadas, ele e a esposa administram uma agroindústria de sucos orgânicos cujo principal mercado é a alimentação escolar. Da sua agroindústria são fornecidos sucos de uva, pêssego e goiaba para dezenas de escolas, que vão de Aceguá a São José do Norte. “Economicamente é muito interessante”, aponta.

O agricultor adquiriu a propriedade em 1991 já com o intuito de trabalhar com agroecologia na área de fruticultura. Nos dois anos anteriores fez cursos de formação no Centro Ecológico de Ipê, na Serra Gaúcha, então um distrito cujo território se dividia entre os municípios de Antônio Prado e Vacaria.

Junto a colegas de várias regiões do estado, do Uruguai, Paraná, Santa Catarina e até do Rio de Janeiro, com o conhecimento apreendido foi à luta. Problemas não faltaram. A começar pela qualidade do solo da propriedade adquirida. “No início não produzia nada, os manejos tinham sido muito agressivos, o solo estava exaurido”, recorda ele, que precisou produzir leite para ter renda mensal.

Já no primeiro ano, porém, diminuiu o plantel de vacas e aumentou os pomares. No segundo, toda a propriedade já era agroecológica. Sonho realizado.

De São Paulo para Cerrito

De Suzano (SP), região conhecida como Alto Tietê (SP), para uma pequena propriedade rural em Alto Alegre, com entrada pelo km 49,5 da BR 293, interior de Cerrito. Esta foi a escolha do casal Ademir e Nelma Parisoto, da Vinícola Parisoto. Produtores de vinho orgânico, não dispensaram a oportunidade de expor o produto na Feira da Agroecologia realizada simultaneamente ao Dia de Campo na ECC.

O casal Ademir e Nelma Parisoto, que trocou a capital São Paulo por Alto Alegre, interior de Cerrito, onde abriram a Vinícola Parisoto. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

A produção foi a alternativa encontrada para acompanhar o casal de filhos, os primeiros na família a trocar São Paulo pelo Rio Grande do Sul; um veio estudar Enologia em Dom Pedrito, na região da Campanha; a outra, Veterinária na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), de onde saiu para trabalhar com gado leiteiro justamente em Cerrito – município reconhecido por esse tipo de produção. “Está valendo muito a pena”, afirma Ademir.

A propriedade oferece espaço para festas de aniversário, formatura, eventos empresariais, cozinha, churrasqueira, forno e fogão à lenha colonial e até um hostel com quatro acomodações, com direito a café da manhã e jantas com tábuas de frios e “Noite da Pizza”, reforçando, pela via da gastronomia, o apelo ao turismo rural na região.

O setor também se fez presente na Feira, por meio do trabalho de assessoramento que a Emater disponibiliza aos empreendedores tanto em Pelotas como na região. “Nosso interior é maravilhoso”, reforça a extensionista do escritório municipal de Pelotas, Joana Souza Caetano da Silva.

Agora, com a proximidade do verão, a técnica responsável pelo setor sugere roteiros pelo interior do município. São vários empreendimentos que oferecem banho de cachoeira, trilhas, entre outras belezas naturais, além de empreendimentos “bem avançados” em termos de infraestrutura para receber os visitantes.

1 comentário

  1. Impressionante a qualidade, conteúdo e profundidade de sua reportagem sobre o Dia de Campo da Embrapa, Ribeiro.
    Parabéns!
    Mais uma vez, está de parabéns o Jornal Tradição!
    Muito bom.

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