
Excesso de chuva, granizo e poucas horas de radiação solar. Todas as condições desfavoráveis marcaram a produção de uva em Pelotas na safra 2023/24. O resultado é uma colheita menor que a do ano passado. Se em 2023 foram produzidas em torno de 1,3 mil toneladas, neste ano a estimativa é pouco superior a 800 mil quilos nos 35,4 hectares plantados pelos 51 produtores contabilizados pelo escritório municipal da Emater/RS-Ascar.
A queda, no entanto, não é prenúncio de uma fruta de qualidade duvidosa. O consumidor pelotense irá se deparar a partir de fevereiro com uma uva madura e doce, garante o engenheiro agrônomo e assistente técnico da Emater na área de fruticultura, Rodrigo Prestes. “Este é o nosso diferencial”, diz. “Em Pelotas o produtor colhe de manhã e entrega à tarde”, explica.
Para manter essa excelência mesmo em um período de El Niño, o que representa um desafio e tanto a produtores e técnicos agrícolas, trabalho não faltou. Que o diga Eduardo Scheutzow, de 41 anos, três como produtor de uva das variedades Niágara (mesa) e bordô (para fins industriais, na produção de sucos e vinho). O anfitrião da vez da Abertura da Colheita da Uva, que este ano chega em sua 14ª edição, precisou dedicar mais tempo e energia ao seu parreiral de meio hectare nesta safra do que em relação à anterior.
A ausência do sol produziu mais folhagens, o que impede a incidência de radiação. Isso exigiu várias vezes a poda desta cobertura para o cacho desenvolver e atingir tamanho compatível com a exigência do mercado consumidor. É também uma fruta delicada, independentemente das condições climáticas. Requer na colheita cuidado especial, sobretudo a de mesa, o que impede maior mecanização, e intensa mão de obra – dificuldade extra na zona rural. Tanto que a própria esposa, Núbia, pediu férias no posto de saúde da Ponte Cordeiro de Farias, 5º Distrito, próximo à propriedade, para se juntar ao marido e às duas funcionárias contratadas pela família para reforçar a equipe. O excesso de chuvas a partir do segundo semestre foi outro obstáculo: aumentou o custo de produção e obrigou o produtor a um manejo mais intenso para combater doenças fúngicas.

Trabalhoso, oneroso, mas compensador. Mesmo sob El Niño, Scheutzow confia em uma produção maior que a do ano passado, considerado excelente para a fruticultura em termos climáticos. Em 2023 colheu 15 toneladas. Neste ano, mesmo em condição climática adversa, deve chegar a 20. “Vale a pena, tivesse mais braço ampliava a produção, não falta espaço nem vontade, mas não dá, não tem mão de obra no meio rural”, aponta.
História
Scheutzow começou na fruticultura pelo morango, em 2017. Até então, havia “tirado leite a vida inteira”. Migrou da pecuária leiteira para a agricultura comercial com a quebra da cooperativa de laticínios Cosulati, episódio que ainda provoca lembranças amargas: “A gente ficou bem mal na época, foi feio até para comer”, recorda. Mas a produção de morango vingou e em 2020, já refeito da grave situação financeira a que se viu submetido, nem o auge da pandemia de Covid-19 e nem o alto custo de implantação do parreiral (avaliado hoje em R$ 120 mil por hectare) o impediram de ampliar o portfólio da propriedade.
Motivado pelo que acompanhou em uma edição da Abertura da Colheita na propriedade do produtor Dirceu Kurz, na Colônia Santa Helena, se decidiu: recorreu novamente à Emater, instalou a lavoura com 1.070 plantas e passou a produzir. “Era pandemia, fiz tudo [a assistência técnica] por WhatsApp, não sabia nada”, lembra.
Não foi empecilho. Já na primeira safra (2021) o parreiral rendeu pouco mais de sete toneladas. A produção desde então aumentou, já garantiu clientes reconhecidos no varejo pelotense, como macro atacados e estabelecimentos tradicionais no mercado de hortifrutigranjeiros da área central, e assim vai seguindo, “pagando contas”, “Vida de colono é isso”, ri. No momento, só torce para que os efeitos do El Niño deem uma trégua. “O que eu e os produtores queremos até o fim da colheita é sol, luz e vento para secar as folhas – o resto é com a gente”.
Festa de Abertura
A festa da 14ª Abertura da Colheita da Uva de Pelotas será realizada dia 7 de fevereiro na propriedade de cinco hectares dos agricultores familiares Eduardo e Núbia Scheutzow. São aguardadas entre 300 a 400 pessoas.
De acordo com Prestes, a importância do evento na agricultura familiar não é pequena. A partir de edições anteriores e graças ao trabalho, de profissionais como o professor César Rombaldi, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e o assistente técnico Luís Carlos Migiorini, da Emater, se retoma em Pelotas e região uma cultura que se reduziu à subsistência e afazer doméstico nos anos 1980 e 1990 – exatamente o período em que passou a prevalecer na Zona Sul a ideia de que uva de qualidade era exclusividade da Serra Gaúcha.
“Na primeira Abertura da Colheita da Uva que participei em Pelotas, em 2011, não havia mais que cinco produtores”, lembra o agrônomo. Hoje, segundo ele, Pelotas já está no radar da produção da fruta no estado, reforçada pela presença e fomento de agroindústrias familiares.
A 14ª Abertura da Colheita da Uva é uma realização da Emater, com apoio da prefeitura, Sicredi, Embrapa, UFPel e Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Pelotas.
Serviço
O quê? 14ª Abertura da Colheita da Uva de Pelotas – degustação, apresentações musicais, expositores, estações técnicas com mostra de cultivares e técnicos à disposição de produtores, ato de abertura, comercialização de uvas, doces, sucos, vinhos e gastronomia colonial
Onde? Propriedade de Eduardo e Núbia Scheutzow (Ponte Cordeiro de Farias, 5º Distrito, zona rural de Pelotas)
Quando? Dia 7 de fevereiro (quarta-feira), a partir das 14h
Quanto? Entrada franca



