A situação da Cooperativa Sul-Riograndense de Laticínios (Cosulati) voltou a gerar apreensão entre produtores da Zona Sul do Rio Grande do Sul após a Justiça de São Paulo determinar a penhora do parque fabril arrematado em leilão destinado ao pagamento de dívidas trabalhistas. A nova decisão judicial levanta dúvidas sobre a empresa vencedora do certame e reacende questionamentos quanto à legalidade e à transparência do processo.
Ao todo, cerca de 2,6 mil famílias de cooperativados acompanham o caso com preocupação e muitos dos produtores que afirmam ter realizado investimentos significativos para atender à cooperativa, como instalação de aviários, ampliação de estruturas produtivas e aquisição de gado leiteiro, relatam prejuízos após a liquidação da Cosulati e a perda de patrimônio.
Em dezembro de 2025, mais de 200 produtores participaram de audiência pública na Assembleia Legislativa, convocada pelo deputado estadual dr. Thiago Duarte (UB). Prefeitos de municípios como Morro Redondo e Capão do Leão também estiveram presentes e relataram impactos econômicos locais, incluindo queda na arrecadação.
“A venda foi feita por preço vil, bem abaixo do mercado. Esse é um dos motivos pelo qual a Assembleia Legislativa colocou em suspeição o leilão executado em Pelotas. O objetivo é reverter essa situação e ajudar os produtores prejudicados”, afirma o deputado.
Agora, o movimento organizado pelos produtores pretende encaminhar a ata da audiência e os depoimentos colhidos ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), ao Tribunal de Justiça, ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério Público Estadual (MPE), na tentativa de reverter a arrematação realizada por uma empresa de São Paulo.
Questionamentos
“Desde o começo eu questiono a maneira como foi feito o leilão. Já no primeiro, houve redução para 50% do valor, o que não é normal. No segundo, foram derrubadas as exigências de garantias bancárias para fundos de investimento e donos”, declarou o produtor de leite e coordenador da comissão de produtores eleita em assembleia geral da Cosulati, Leonel Fonseca.
Segundo ele, a empresa vencedora teria assumido posse da fábrica sem ter efetuado pagamento integral: “A empresa assumiu a posse sem pagar um único centavo. A informação que deixaram escapar é de que pagaram com pós-data. Se não cumprir a data, está fora do prazo”, afirma.
Um dos questionamentos de Fonseca é a decisão que permitiu à empresa utilizar o parque fabril como garantia em outro processo judicial, em São Paulo.
“Eles deram como garantia um patrimônio que ainda não é deles. Estão na posse, mas não quitaram a compra. Como alguém pode usar como garantia algo que não pagou?”, indaga.
De acordo com o produtor, o processo em São Paulo tramita sob segredo de Justiça. Ele afirma ainda que a empresa teria aumentado o capital social às vésperas do leilão. “No dia do leilão tinham capital de pouco mais de R$ 96 mil e depois apareceu um capital social de R$ 51 milhões. Como isso foi aceito?”, questiona.
Impacto sobre produtores e trabalhadores
Além das incertezas quanto ao pagamento das dívidas trabalhistas, prioridade no processo de liquidação, os produtores temem perdas adicionais. Segundo Fonseca, entre 2 mil e 3 mil cooperativados têm valores retidos referentes ao capital social. Ele destaca ainda que cerca de 230 produtores que aderiram a operações como o Programa de Capitalização de Cooperativas Agropecuárias (Procap-Agro Giro) podem ser diretamente afetados. “A cooperativa é uma sociedade. Na hora de pagar a conta, todo mundo é dono. Alguns podem acabar arcando com patrimônio próprio”, afirmou.
Fonseca defende a anulação do leilão e maior transparência no processo.
A controvérsia em torno da Cosulati segue em aberto e deve ter novos capítulos nas próximas semanas, à medida que os órgãos acionados analisarem os documentos encaminhados pelo movimento.




