
A Prefeitura, via secretaria de Urbanismo (Seurb) e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), por meio do curso de Arqueologia, deram início, na terça-feira (28), às escavações arqueológicas junto à obra de reforma dos banheiros da praça Coronel Pedro Osório, Centro Histórico de Pelotas.
O projeto, autorizado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), contará com exposição a partir de quarta-feira (29). Serão expostas peças e objetos coletados em outras três prospecções realizadas no local, em 2002, 2004 e 2006. Também estão previstas atividades de educação patrimonial, com visitas de escolas da rede municipal nos dias 4, 6 e 7 de novembro, durante a Feira do Livro, com apoio logístico da secretaria municipal de Educação (SME). Outras datas estão disponíveis para visitação da rede pública e particular. As ações do projeto também poderão ser acompanhadas pela comunidade em geral. O tapume que cerca a obra ficará aberto durante a Feira do Livro.
O trabalho de campo será feito em duas etapas. O atual já abriu 26 quadrículas de 50×50 centímetros com 1,30 metro de profundidade em uma área de 70 metros quadrados para que a equipe formada por cerca de 20 pessoas coordenadas por cinco arqueólogos, todos ligados à UFPel, possa ter uma ideia da existência de um contexto de deposição de materiais arqueológicos no terreno.
Esta fase deve levar de sete a dez dias ou por tempo indefinido. “Nesta etapa de sondagens a gente escava e não sabe o que encontra embaixo da terra, e quem vai decidir é o próprio contexto”, explica o professor Rafael Milheira, do Laboratório de Antropologia e Arqueologia (Lepaarq/UFPel). Em um segundo momento, a equipe de arqueólogos fará o monitoramento da obra de engenharia pesada, com utilização de maquinário, que promove um impacto de solo maior.
Século 19 sob a terra
Com experiência prévia de outras três intervenções arqueológicas na praça Coronel Pedro Osório, duas delas pelo programa Monumenta, em 2002 e 2004, é possível ter uma noção do que se pode encontrar em termos de registros arqueológicos do local. Milheira explica que a praça, há 200 anos, era terreno baldio (começou a receber as primeiras operações de paisagismo e urbanização na década de 30 do século 19) e, como tal, era depósito de lixo e entulhos do núcleo urbano do entorno. Foram encontradas louças provenientes da Inglaterra, peças em cerâmica feitas em Pelotas e região manufaturadas em argila e barro, utensílios de metal, material de construção e “muita alimentação”, como ossos de reses, galinhas, porcos e cabras.
“Pode-se contar uma história da Pelotas do século 19 a partir desses contextos arqueológicos. O nível econômico da elite pelotense da época se replica nos materiais arqueológicos, com muita peça importada da Inglaterra a partir das três primeiras décadas do século 19, que não era de fácil acesso do ponto de vista econômico e ainda assim se comprava como se compra Avon hoje em dia”, assegurou Milheira.
Conforme o professor, o nível de fragmentação dos objetos coletados na praça indica que o pelotense endinheirado da primeira metade do século 19 era exigente em relação à integridade do material. Há pouca fragmentação nas peças descartadas, o que demonstra também a facilidade com que os utensílios chegavam ao porto da cidade. “Este acesso mais fácil indica o caráter cosmopolita para os padrões da época da cidade, o que se vê em registros de viajantes e naturalistas, isso se reflete na materialidade dos objetos encontrados nas escavações”, afirmou.



