Políticas públicas buscam alternativas para redução de pessoas em situação de rua em Pelotas

Pelotas registra 876 pessoas em situação de rua inseridas no Cadastro Único, mas número pode ser maior (Foto: Lylian Santos/JTR)

Com o aumento do número de pessoas vivendo nas ruas em Pelotas, cresce a necessidade de articulação entre diferentes setores da assistência social, bem como o desenvolvimento de projetos em Organizações Não-governamentais (ONGs) e igrejas. A gestão do atendimento à população em situação de vulnerabilidade se torna ainda mais complexa, marcada por histórias que envolvem perdas, rupturas e buscas diárias por superação e reconstrução.

Segundo Raquel Nebel, secretária de Assistência Social, os desafios para atender os desabrigados são múltiplos, pois envolvem o uso de substâncias psicoativas, transtornos de saúde mental, rompimento de vínculos familiares e comunitários, ausência ou perda de documentação, baixa adesão de parte da população aos serviços ofertados pela Secretaria, limitação de recursos humanos para acompanhamento individualizado e dificuldades de acesso à moradia e ao mercado de trabalho.

Ainda de acordo com a secretária, Pelotas registra 876 pessoas em situação de rua inseridas no Cadastro Único (CadÚnico). Estima-se que o número real, seja ainda maior, já que diversas pessoas não conseguem se cadastrar devido à falta da documentação necessária ou por estarem em situação de extrema vulnerabilidade. Só no período de junho a novembro de 2025, a média foi de 300 pessoas atendidas por mês no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (POP), mas por se tratar de uma população flutuante, esses dados variam de forma constante.

As prioridades da Secretaria são, atualmente, o atendimento qualificado à população em situação de rua por meio da ampliação do acolhimento e fortalecimento da abordagem social, além do acesso à saúde, alimentação, abrigo e reinserção social. Ademais, a atuação permanente em situações de emergência – como os frequentes eventos climáticos no estado – também se tornou uma necessidade.

Entre as políticas voltadas a essa população, algumas iniciativas estão sendo expandidas, conforme Raquel. “O crescimento das equipes de abordagem social, melhorias estruturais no Centro POP e na Casa de Passagem, reestruturação e fortalecimento do Comitê Intersetorial de Acompanhamento da População em Situação de Rua (CIAMP RUA), articulações para agilizar documentação, atendimentos jurídicos, tratamentos de saúde e reinserção social. Também estão em estudo projetos de moradia inovadores, como a “Moradia Cidadã”, voltados à saída qualificada das ruas”, assegurou a secretária.

Raquel reforça que a história de cada pessoa é única e repleta de desafios individuais, os quais precisam ser levados em consideração para que novas chances de reestruturação de vida sejam garantidas. “É importante reforçar que estamos tratando de pessoas, cada uma com uma história e um conjunto próprio de desafios. O enfrentamento à situação de rua exige políticas públicas contínuas, integradas e humanizadas, envolvendo saúde, habitação, documentação, geração de renda, reinserção social e acolhimento. Fortalecer as abordagens sociais, ampliar o acesso à moradia e garantir oportunidades reais de reconstrução de vidas são passos essenciais para assegurar dignidade e cidadania”, disse.

Luta por recomeços

A Casa de Passagem atende, em sua maioria, pessoas em situação de rua sem vínculos familiares. Diariamente, entre 80 e 120 pessoas são recebidas na casa, as quais têm a oportunidade de vivenciar atividades de lazer e contam com a opção para lavarem suas roupas, além do pernoite. No local, destacam-se entre as dificuldades encontradas o despertar do sentimento de autonomia e de superação da condição de rua, bem como o uso abusivo de álcool e substâncias psicoativas.

No Centro POP e Casa de Passagem, os atendidos tem a oportunidade de fazer uma refeição e cuidar de sua higiene pessoal (Foto: Michel Corvello)

Todo mundo tem a sua história

Cadastrado há mais de cinco anos no Centro POP e usuário há dois meses da Casa de Passagem, Carlos Alexandre Teixeira, de 42 anos, conta que ao se ver sozinho após perder a mãe e ter sua casa queimada, busca uma oportunidade de recomeçar. “Quando a minha mãe faleceu, acabei ficando desemparado, e botaram fogo na minha casa há uns meses. Agora estou em busca de oportunidade de novo, tentando retomar a minha vida. Eu estou procurando me manter e dar um passo a cada dia. É complicado? É. Mas se a gente parar, piora”, contou.

Vivian de Moraes, de 47 anos, passou a se alimentar no Centro POP depois de ter sido expulsa de casa pelo marido. Além disso, ela dorme na Casa de Passagem até se estabelecer novamente.

O Albergue Noturno Pelotense também recepciona e acolhe desabrigados. Segundo Sônia Monteiro, presidente da ONG, no verão – estação em que a procura é maior – em média 30 pessoas são recebidas por noite, as quais chegam às 19h e saem 7h, sendo que também contam com a possibilidade de fazer sua higiene pessoal e se alimentar no local.

Caminhos para ajudar

Em meio à pandemia do Covid-19, dois projetos movidos pela solidariedade nasceram em Pelotas. A ONG Amigos do Coração e o projeto “Dá-lhes vós mesmos de comer”, da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, atuam em prol da população como uma rede de apoio e ponte de acesso à cidadania.

De acordo com Flávia Pereira, coordenadora da ONG, um pequeno grupo de voluntários se uniu em uma garagem em julho de 2020 para levar refeições preparadas por eles, itens de higiene e apoio emocional. Desde então, o projeto conta com dezenas de voluntários e atende em média 200 pessoas por semana, além de servir 250 refeições.

Por meio do trabalho dos voluntários e arrecadações de doações, como alimentos, roupas e itens de higiene são organizados em kits e distribuídos às famílias cadastradas. A iniciativa também realiza brechós solidários e promove, todas as quintas-feiras, um jantar preparado aos que mais necessitam. “O projeto busca reduzir os impactos da fome e da pobreza por meio da entrega de alimentos, roupas e ações solidárias, ao mesmo tempo em que promove dignidade, esperança e fortalecimento dessas comunidades que ficam a margem do alcance do poder público”, explicou Flávia.

Em maio de 2021, inspirado no Evangelho de Mateus e, a partir da percepção da pandemia ter elevado o número de pessoas nas ruas devido ao desemprego, o projeto “Dá-lhes vós mesmos de comer” foi criado pela Paróquia Sagrado Coração de Jesus. A iniciativa reúne membros de diversas paróquias e movimentos divididos por grupos nos domingos à tarde, quando kits com comida, sobremesa e bebida são produzidos para o jantar de desabrigados. Além disso, durante o inverno, agasalhos e cobertores são entregues a quem for preciso.

A auxiliar da paróquia, Rosana Bittencourt, ressalta que ações como estas compõem a caridade para com o próximo – um dos principais pilares da igreja. “A caridade é pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Então, esse é um projeto que nos inspira a sair do nosso mundo confortável e ir em busca do irmão que precisa. Isso realmente, pra nós, é gratificante demais, nos emociona. A gente sai com o coração bem quente desse amor que recebemos”, explica.

Para ajudar a ONG Amigos do Coração ou o projeto “Dá-lhes vós mesmos de comer”, entre em contato com Flávia pelo WhatsApp (53) 98409-8243 e com Rosana pelo número (53) 98111-0346, respectivamente, a fim de obter mais informações.