Pelotas vive o luto da perda dos atletas do remo

Equipe do projeto Remar para o Futuro voltava de uma competição em São Paulo com sete medalhas quando se envolveu em uma colisão com outros dois veículos no Paraná. (Foto: Edu Rickes/JTR)

Por: Daniela Alves, Julia Barcelos e Matheus Garcia

Uma viagem que tinha tudo para acabar em final feliz, mas que se tornou mais uma tragédia no cenário esportivo pelotense. Nove pessoas morreram em um acidente, na noite de domingo (20), na BR-376, em Guaratuba, interior do Paraná. Um dos veículos envolvidos era a van fretada que trazia a delegação do projeto Remar para o Futuro, de Pelotas, após participação no Campeonato Brasileiro Unificado na raia olímpica da Universidade de São Paulo (USP). O fato aconteceu por volta das 21h30, no quilômetro 665 da rodovia, sentido Sul. Entre as vítimas fatais, sete atletas com idades entre 15 e 20 anos, o coordenador do projeto e o motorista da van.

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) do Paraná, uma carreta teria perdido os freios, colidindo na traseira da van que transportava os atletas. Com o impacto, o veículo foi projetado para a frente e colidiu na traseira de um automóvel. Em seguida, a van rodou e a carreta a arrastou para fora da pista, tombando sobre ela.

Todas as vítimas fatais estavam na van. São elas: Angel Souto Vidal, de 16 anos (atleta); Helen Belony, de 20 (atleta); Henry Fontoura Guimarães, de 15 (atleta); João Pedro Kerchiner, de 17 (atleta); Nicole da Cruz, de 15 (atleta); Oguener Tissot, de 43 (coordenador); Ricardo Leal da Cunha, de 52 (motorista); Samuel Benites Lopes, de 15 (atleta); e Vitor Fernandes Camargo, de 17 (atleta). Os atletas participaram por uma semana na competição e haviam conquistado sete medalhas, ficando em 6º lugar geral do campeonato.

O décimo ocupante da van e único sobrevivente, João Milgarejo, de 17 anos, foi resgatado com ferimentos leves e encaminhado para atendimento no Hospital São José, em Joinville (SC). O condutor da carreta, de 39 anos, também se feriu sem gravidade. Já o motorista do carro, que viajava sozinho, saiu ileso.

A fatalidade gerou comoção nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou em sua conta no X (antigo Twitter) uma nota lamentando as mortes. “Com tristeza e pesar, soube da morte de nove pessoas, sendo sete adolescentes, de uma equipe de remo de Pelotas. Não há palavras que possam descrever a dor de perder um filho ou neto. A dor é irreparável. Meus sentimentos e solidariedade aos familiares e amigos das vítimas”, escreveu o presidente.

A prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) decretou luto oficial de sete dias no município. “Com uma dor profunda, recebi a notícia da perda de parte da delegação do Projeto Remar para o Futuro, que havia participado de um campeonato em São Paulo. Eles partiram de forma inesperada, deixando uma dor imensa em todos nós. Que possamos encontrar consolo nas lembranças que eles nos deixaram, e na esperança de que seu legado de amor, determinação e companheirismo continue vivo em cada um de nós, inspirando nossas ações e nossas vidas”, escreveu Paula. Já a Câmara de Vereadores decretou três dias de luto. O governador Eduardo Leite (PSDB) também utilizou as redes sociais para lamentar o acidente. O projeto que as vítimas participavam foi criado durante a gestão de Leite à frente da Prefeitura. “Recebo com imensa tristeza a notícia do trágico acidente no Paraná, que tirou a vida de nove pessoas, entre elas, sete jovens de Pelotas, atletas do projeto Remar para o Futuro, criado durante a minha gestão como prefeito. Eles estavam representando nosso Estado com muita honra e talento. Esses jovens eram exemplos de dedicação, superação e orgulho para todos nós. Estavam no auge de suas carreiras, conquistando medalhas e levando o nome do nosso Rio Grande ao topo em uma competição de grande relevância nacional, o Campeonato Brasileiro Unificado, disputado em São Paulo”, escreveu o gestor. “Minhas orações estão com as famílias e amigos. Que encontrem forças para enfrentar essa perda. O Rio Grande do Sul está de luto”, completou.

O projeto

O projeto Remar para o Futuro, idealizado por Oguener Tissot, acontece desde 2015 no município por meio de uma parceria da Escola Superior de Educação Física (ESEF) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Prefeitura de Pelotas e Clube Centro Português 1º de Dezembro com o objetivo de promover a socialização de alunos da Rede Pública Municipal através do esporte, estimulando o desenvolvimento social e a formação de atletas.

A iniciativa promove, ao longo do período, a fim de apresentar sua proposta a adolescentes de 13 a 15 anos de idade, palestras, mostra de materiais utilizados na prática do esporte e relatos de alunos participantes, com dois processos seletivos anuais, abrindo 15 vagas por semestre. Conta com equipe multidisciplinar, envolvendo profissionais de nutrição, fisioterapia, odontologia e educação física. Até o ano passado, a iniciativa já havia emplacado 12 atletas nas categorias de base da Seleção da modalidade.

A UFPel decretou três dias de luto oficial e emitiu uma nota lamentando o ocorrido. “Neste momento de dor, a UFPel se solidariza com as famílias e amigos das vítimas, prestando toda a assistência necessária. A Universidade está acompanhando de perto o caso e, junto aos parceiros do projeto, busca prestar apoio aos envolvidos e esclarecer as circunstâncias do acidente”, diz parte do texto.

Vítimas

Angel Souto Vidal

(Foto: Divulgação)

Angel Souto Vidal era bastante ativa nas redes sociais e publicava frequentemente sobre as competições que participava. Como de costume, a atleta havia publicado uma série de fotos tiradas após a competição em São Paulo nas suas redes sociais, no domingo. Em um post, a mãe de Angel, Chris Gotuzzo, contou um pouco sobre a dor da perda de sua filha. “A maneira como você partiu foi avassaladora, mas o que me tira sorrisos do rosto é escutar de todos que conviveram um pouco contigo tua pureza de coração e cheia de doçura com todos. Brilha aí pertinho de Deus, anjo meu!”, escreveu.

Helen Belony

(Foto: Divulgação)

Helen Belony era considerada uma “promessa no remo brasileiro”, tendo sido personagem de uma reportagem do Globo Espetacular, em 2023. Era a filha mais nova de cinco irmãos. A jovem entrou para o projeto aos 14 anos, quando ainda não sabia nadar. Os obstáculos foram superados e Helen se revelou uma das grandes promessas do remo nacional, com expectativas de conseguir uma classificação para a Olimpíada de 2028, em Los Angeles. A atleta havia conquistado duas medalhas de bronze e uma de ouro durante o Campeonato Brasileiro Unificado, no sábado (19).

Henry da Fontoura Guimarães

(Foto: Divulgação)

Henry da Fontoura Guimarães cursava o técnico de Edificações, no campus Pelotas do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul). Ele era namorado de Brenda Madruga Freitas, de 18 anos. A jovem também participa do projeto e foi até São Paulo com a equipe na van, porém, acabou retornando dois dias mais cedo com sua mãe, devido a problemas com ansiedade. Henry e Brenda se conheciam há três anos e namoravam há pouco mais de um ano. “Eu sinto que foi injusto, a gente pensa: por que Deus faz isso com a gente? Por que Deus tirou essas pessoas? Mas, ao mesmo tempo, eu penso também que Deus deu um milagre para mim e minha mãe, imagina se nós estivéssemos naquela van?”, relatou a jovem em uma entrevista ao portal de notícias G1. “Eu sei que ele foi o meu primeiro namorado, mas ele foi o amor da minha vida. […] A nossa relação era só brincadeira e risadas. Quando precisava, ele me ajudava, porque sou uma pessoa muito chorona, e ele me abraçava, me dava os melhores conselhos. Ele passou por muita coisa também, com a perda da mãe. Ele era uma pessoa extremamente forte, porque ele guardava tudo pra si e ficava com um sorriso no rosto”, completou.

João Pedro Kerchiner da Silva

(Foto: Divulgação)

João Pedro Kerchiner da Silva, assim como seus colegas, mostrava sua rotina de treinos e competições ao lado dos amigos do esporte. Era aluno do Instituto Estadual de Educação Aimone Soares Carriconde e participava do projeto desde os 11 anos. As competições levaram o jovem atleta para várias cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Branco, no Uruguai. Na última competição, no sábado, João Pedro conquistou a medalha de ouro na modalidade four skiff masculino sub-19, ao lado de seus colegas.

Nicole da Cruz Colella

(Foto: Divulgação)

Nicole da Cruz Colella era uma das atletas mais jovens que viajou para o campeonato. A adolescente, como outras vítimas, estudava no Colégio Municipal Pelotense. A atleta fez parte da equipe do grupo que havia sido convocada para participar de um treinamento de uma semana no Rio de Janeiro com a seleção brasileira sub-19 pela Confederação Brasileira de Remo.

Samuel Benites Lopes

(Foto: Divulgação)

Samuel Benites Lopes também é uma das vítimas mais jovens do acidente. Mais reservado em suas redes sociais, o adolescente tinha o esporte em todas as suas publicações no Instagram. “O remo é mais que apenas um passatempo na nossa vida, é um esporte que se não tiver disciplina, dedicação, perseverança não se chega ao nível que esperamos. Por isso, mesmo que em feriados, faça sol ou faça chuva, estamos treinando para poder alcançar os limites e buscarmos evolução nesse esporte incrível”, escreveu ele em uma das legendas. Ele foi um dos integrantes da equipe vencedora da medalha de ouro ao lado de João Pedro.

Vitor Fernandes Camargo

(Foto: Divulgação)

Vitor Fernandes Camargo, também pouco frequente nas redes sociais, destacou em uma de suas poucas publicações o seu amor pelo esporte. “O remo é algo que me mudou pouco a pouco e me fez pensar de forma totalmente diferente, me levou a encarar desafios físicos mentais. E me dá motivação para acordar cedo todos os dias e fazer o que tem que ser feito para alcançar o meu melhor. Alguns treinos são péssimos, são neles que tento aprender e ver nos meus erros uma razão pra treinar mais e corrigi-los, pois sei que cada dia de treino vai me levar mais perto dos meus objetivos, pois competir é só a cereja do bolo”, declarou ele na legenda. Também nas redes sociais, o irmão mais velho de Vitor, Matheus Cardoso, deixou uma despedida para o caçula. “Eu só tenho a te agradecer por tudo, cara. Pelas nossas risadas, pelas nossas brigas, pelos nossos desenhos… Enfim, cara, eu sei que tu tá bem, eu sei que tu cumpriu com êxito tua jornada com a gente. […] Eu vou te honrar pro resto da minha vida. Eu vou cuidar da mana, da vó e principalmente da mãe. Eu te amo fedorento e sempre, mas sempre mesmo eu vou lembrar do teu sorriso lindo. Teu sobrinho vai sempre saber que o tio foi um grande homem, um grande herói. Muito obrigado Vitão, o mano sempre vai te amar”, declarou.

Oguener Tissot

(Foto: Divulgação)

Oguener Tissot era o coordenador técnico do Remar para o Futuro e se dedicava ao projeto desde 2015. Começou a praticar o esporte aos 12 anos e tornou-se técnico com o objetivo de fortalecer este esporte e descobrir novos talentos. “Uma figura admirável, um exemplo de determinação, de vontade de fazer a diferença na vida das pessoas”, declarou o governador Eduardo Leite durante o velório na terça-feira (22). O Remo Brasileiro também lamentou a morte de Tissot e dos atletas.

Ricardo Leal da Cunha

(Foto: Divulgação)

Ricardo Leal da Cunha dirigia a van de turismo que levava os atletas e o coordenador. Não tinha ligação com o projeto. Trabalhava como motorista para a empresa Gaúcho Transporte e havia sido contratado de última hora para substituir um amigo, que faria a viagem para a equipe de remo. Esta versão foi confirmada pela filha mais velha de Cunha, Francielly Tavares, durante uma entrevista ao G1. Trabalhando pela empresa, o motorista prestava serviço para o time do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), para o qual era responsável pelo transporte dos entrevistadores. Durante a pandemia, cuidou pessoalmente da logística de transporte da pesquisa EPICOVID, da UFPel. Deixou esposa e dois filhos.

Sobrevivente

(Foto: Edu Rickes/JTR)

João Milgarejo participa do projeto desde seus 14 anos e foi o único sobrevivente deste trágico acidente. Em um relato emocionante horas antes do velório de seus colegas, já em Pelotas, o jovem relembrou um pouco sobre a fatídica noite. Segundo o jovem, ele estava dormindo no fundo da van no momento do acidente. “Quando acordei, nem sabia o que estava acontecendo. Depois que eu fui ver que tava tudo desmoronado. Tava tudo escuro, meu pé tava preso e comecei a ter uma crise de pânico”, detalha.

Com ferimentos leves, como machucados no rosto e torção em um dos pés, o adolescente recebeu alta na segunda-feira (21) e retornou ao RS com sua mãe e padrasto, em um avião disponibilizado pelo governo do Estado. “Quando minha mãe chegou lá no hospital em Joinville, eu não consegui ver muito bem ela. Quando ela chegou, eu ainda tava dormindo. Eu não tava muito consciente e, agora mesmo, não ando muito consciente. Ando muito cansado, dormindo muito”, conta.

Quanto ao futuro do projeto e ao seu próprio destino no esporte, o adolescente deixa um exemplo de força e esperança. “Eu espero agora, neste momento, que me apoiem e que não me apressem para mim voltar a remar. E eu sei que eles vão me apoiar, quando eu quiser voltar, eu sei que eles vão me acolher e vão me ajudar a treinar de volta para ir para os campeonatos brasileiros e voltar pro alto nível”, garante.

Velório coletivo no Centro Português 1º de Dezembro

A terça-feira (22) foi de mobilização entre a comunidade pelotense com o anúncio de que o cortejo para as vítimas do acidente aconteceria a partir das 13h30, momento em que os corpos dos atletas, do coordenador do projeto e também do motorista chegariam ao Aeroporto Internacional João Simões Lopes Neto. A previsão era para que, após a chegada, com apoio das forças de segurança, os caixões seguissem pela avenida Zeferino Costa em direção à Salgado Filho, realizando um curto trajeto pela avenida República do Líbano, então passando pelas avenidas São Francisco de Paula, Ferreira Viana, Adolfo Fetter e Portugal até chegar à sede campestre do Centro Português 1º de Dezembro.

Mesmo com um cronograma estipulado, atrasos aconteceram ao que dizia respeito ao transporte dos corpos, de forma que apenas às 17h05 a aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) pousou no aeroporto do município. Transportados por caminhões do Exército pelos caminhos sinalizados para o cortejo, foi por volta das 18h30 que os corpos chegaram ao local do velório.

Marcando a entrada do centro de eventos, participantes do projeto e colegas em formação ergueram seus remos, uma estrutura que refletia um corredor para a recepção das vítimas, ressaltando a paixão em comum mantida pelo grupo.

A prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) e o governador Eduardo Leite (PSDB) participaram do velório. (Foto: Julia Barcelos/JTR)

Uma tragédia de comoção nacional, entre familiares, colegas e amigos, a comunidade pelotense manifestou-se em sinal de solidariedade, comparecendo com flores e entoando canções que desejam paz em apoio às famílias. Dentre as autoridades que se fizeram presentes para prestar suas condolências estavam o governador Eduardo Leite, a prefeita Paula Mascarenhas e o ministro do Esporte, André Fufuca.

“Quando a gente vibra com cada uma das conquistas e se depara com uma tristeza imensa como essa, é uma força inversa do que a gente buscou com esse projeto. Porque é para fazer as pessoas sorrirem e se alegrarem e, hoje, infelizmente, as pessoas estão chorando. As famílias estão chorando, a cidade está chorando”, destacou Leite.

Na história esportiva do município, permanecem os sorrisos de cada um dos adolescentes durante as vitórias obtidas em vida, como um lembrete de que, na brevidade de anos, as marcas deixadas pelo que entregavam ao mundo e faziam com paixão ecoam em cada vida tocada.

Depoimento do motorista da carreta

O motorista da carreta que tombou sobre a van prestou depoimento à polícia na terça-feira. Nicollas Otilio de Lima Pinto, de 39 anos, também é natural de Pelotas e mostra-se abalado com o acidente, conforme o delegado responsável pelo caso, Edgar Santana. O condutor contou que o veículo vinha apresentando problemas ao longo da viagem, tendo passado por consertos duas vezes no dia do acidente.

De acordo com o depoimento do motorista à polícia, divulgado pelo G1, o motorista havia saído de Santos, em São Paulo, e carregava a carga de 30 toneladas de peças de ferro com destino à Argentina. Os problemas de funcionamento da carreta começaram a aparecer no sábado, quando o condutor contatou o dono do veículo. Já no domingo, um mecânico realizou os consertos novamente e o motorista seguiu viagem. No entanto, o problema teria voltado a aparecer depois de cerca de um quilômetro rodado. Dessa forma, o veículo foi mexido novamente pelo mesmo mecânico e a viagem prosseguiu. A falha teria reaparecido pela terceira vez, quando o condutor se aproximava do trecho da serra, momento em que perdeu o controle de direção e colidiu na van.

Segundo Santana, responsável pelas investigações, o dono da carreta também foi ouvido. Em sua entrevista ao G1, o policial conta que o proprietário do veículo afirma ter contratado o motorista informalmente, sendo esta sua primeira viagem. Pinto esclareceu que havia tirado sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) da categoria E, que capacita o motorista a dirigir todos os tipos de veículos, em março deste ano. Também explicou que já havia trabalhado com veículos de carga em outras empresas. O mecânico que consertou o veículo deve ser intimado a prestar depoimentos e a polícia ainda aguarda o resultado de laudos da perícia para atestar a causa do acidente.