Paratleta pelotense recebe homenagem da Câmara Municipal de Vereadores

Na quinta-feira (2), Janise recebeu homenagem da Câmara Municipal de Vereadores de Pelotas, proposta pelo vereador Paulo Coitinho (Cidadania), ao centro, e esteve acompanhada pelo especialista em Hipnose Clínica, Otávio Avendano, à esquerda, e o treinador Huibner Machado da Silva, à direita. (Foto: Stéfane Costa)

Mulher é força, é luta, garra e resistência. Também é motorista, advogada, empresária, empreendedora, professora e atleta. Mulher é o que ela quiser. Um exemplo é Janise da Silva, que foi professora, e é dona de uma resistência invejável. Mas acima de tudo, Janise é superação e carrega o atletismo no coração. A paratleta de 53 anos, que possui deficiência visual, recebeu, na manhã de quinta-feira (2), uma homenagem da Câmara Municipal de Vereadores de Pelotas por seu desempenho no esporte.

Janise deu aulas por mais de 15 anos. O cansaço causado pela rotina da profissão somado a escolha por não revelar a sua deficiência culminaram em um quadro de depressão que abalou a então professora. “Eu chegava em casa e ao invés de fazer as coisas, fazer a minha rotina eu chegava, largava a bolsa, sentava e dormia. Onde eu caía eu dormia”, conta.

O remédio, como ela cita carinhosamente hoje em dia, foi o esporte, em específico a corrida, que lhe devolveu o ânimo e a vontade de viver aos 46 anos. “Eu entrei de férias, era dezembro, e pensei ‘Não, eu não sou assim. Que isso? Eu tenho que mudar, fazer alguma coisa por mim’. O que que eu fiz? Botei um tênis, um short, uma camiseta e fui caminhar”, lembra.

Aos 53 anos, Janise da Silva conquistou o primeiro lugar na 97ª Corrida Internacional
de São Silvestre, , em São Paulo, na categoria para deficientes visuais. (Foto: Stéfane Costa/JTR)

Após vários dias de caminhada, Janise sentiu uma melhora no seu bem-estar e disposição. “Dali comecei caminhando, aí comecei uma corridinha, fui trotando uma quadra, duas quadras e caminhando outras. E assim foi deslanchando e eu fui melhorando, cada vez melhor e aquela sonolência, aquele cansaço e a vontade de sumir, de entrar em um buraco e se esconder passou totalmente”, relata.

Do trote à corrida, em apenas seis meses de treino Janise resolveu participar de uma prova em Pelotas, e conquistou o primeiro lugar no pódio na categoria que competiu.
Após um tempo treinando por conta própria, a atleta conheceu o professor de Educação Física, técnico de paratletismo credenciado no Comitê Paralímpico Brasileiro e coordenador do Projeto de Paradesporto da Prefeitura de Pelotas, Huibner Machado da Silva, que hoje atua como seu treinador.

“A Janise é uma grande guerreira, um grande exemplo. [..] Esses resultados vêm mostrando pra ela e pra todo mundo que uma pessoa pode ter uma certa limitação mas não precisa ficar parado dentro de casa, a Janise é um grande exemplo disso. Ela é uma multiatleta, ela não fica só na corrida, ela dança, ela anda de bike se precisar”, disse. Silva ainda destaca que se sente orgulhoso de poder trabalhar com a paratleta. “Eu tenho muito orgulho mesmo de trabalhar junto com ela, de estar junto com ela nesse desenvolvimento, de poder ajudar pelo menos um pouquinho em ela mostrar realmente o que ela é. Uma grande pessoa, que não para devido a uma deficiência, pelo contrário, ela mostra para todos nós que qualquer pessoa é capaz”, completa.

Com baixa visão, a paratleta começou a atividade física para superar a depressão e hoje
participa de diversas competições. (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Dali para frente a carreira deslanchou. Janise passou a correr nas mais variadas provas e circuitos e chegou a vencer uma das corridas mais famosas do Brasil, a 97ª Corrida Internacional de São Silvestre, em São Paulo, na categoria feminina para deficientes visuais. “Eu não esperava ganhar na primeira categoria, de deficiente visual, tinha bastante gente lá com deficiência, várias deficiências, tanto visual como qualquer outra. Eu não esperava chegar no primeiro lugar na categoria […] me apaixonei por aquela prova e se der eu quero voltar”, comenta.

Se adaptando a qualquer competição, Janise costuma correr qualquer prova que apareça, independente da categoria. “Nas competições que eu fazia, ninguém sabia que eu não enxergava, que eu era baixa visão, ninguém. Eu corria normal com eles”, afirma.
Sempre focada, a atleta agora visa novos desafios, e o principal dentre eles é a Maratona internacional de Porto Alegre, que deve ser realizada no mês de junho. A competição ocorre ao longo de um circuito com mais de 42 km em cerca de quatro horas de prova, a depender do corredor.

Trabalho do corpo é trabalho da mente
Em sua rotina de treinamentos, Janise também conta com o apoio de Otávio Avendano, especialista em Hipnose Clínica e pós-graduado em Neurociências e Comportamento. “A gente está trabalhando também, junto com o Huibner, a questão do foco, da motivação e da disposição mental porque 80% de uma maratona, que ela vai ocorrer em torno de quatro horas, é exercício psicológico muito forte, porque ficar correndo por muito tempo exige muito do teu psicológico. O cérebro humano é programado para perceber o cansaço antes dele ocorrer de fato, por isso esse trabalho mental é bastante importante”, detalha Avendano.

Segundo ele, todo o exercício psicológico feito com a atleta busca garantir ainda mais resistência para enfrentar os desafios. “O trabalho consiste em perceber e fazer o atleta identificar, ter um conhecimento das zonas do cérebro responsáveis pela motivação e pelo foco, então [são] exercícios específicos que trabalham coisas do dia a dia do atleta, como o sono, uma rotina, fazer o básico bem feito, que é a base da excelência. […] O que torna o atleta bom é ter uma rotina”, completa.

Por fim, ele comenta com satisfação o trabalho que desenvolve com a paratleta. “Pra gente é uma alegria poder acompanhar ela, ver que ela tá evoluindo, que ela é boa no que ela faz, que ela faz um monte de coisa, é muito legal”.

Homenagem
Na quinta-feira (2), Janise foi homenageada pela Câmara de Pelotas, proposta pelo vereador Paulo Coitinho (Cidadania), que afirma ser um reconhecimento aos feitos conquistados pela paratleta. “A ideia surgiu quando eu fiquei sabendo que ela foi a primeira pelotense a ganhar uma São Silvestre”, explica. “Conheço a história de vida dela, de luta, do que ela passa pra poder correr, treinar, porque é uma luta diária e, tendo esse resultado pra Pelotas é muito bom, mostra que a gente é capaz sim, quando a gente quer, quando a gente tem foco. Com todas as dificuldades da vida, ela é uma vencedora. É muito justa a homenagem que estamos realizando pra ela”, conclui.

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