Jorginho Feio, o mecânico que virou piloto

Jorginho Feio ainda trabalha como mecânico em sua oficina em Pelotas. (Foto: Lylian Santos/JTR)

No Dia do Motorista, a história de Jorge Maurício Ribeiro, mais conhecido como Jorginho Feio, representa uma paixão por caminhões, que vai além do trabalho e acelera até as pistas de competição. Aos 17 anos, começou como auxiliar em uma oficina do bairro Santa Terezinha. Ali, além de aprender a mexer nos motores, ganhou o apelido que o acompanha até hoje.

O apelido surgiu com o costume de cumprimentar colegas e clientes com um característico “e aí feio”. Então, com esse apelido ele ficou conhecido na cidade, por sua oficina, e agora pelo país, através dos campeonatos.

Antes de sonhar em competir, Jorginho Feio passou anos trabalhando como mecânico, até que, em 2012, abriu sua própria oficina e a fama cresceu junto com a perícia. “Eu não tinha influência da família na mecânica, nem nas pistas. Tudo que aprendi foi na prática”, contou. Algum tempo depois o que parecia uma carreira consolidada na mecânica ganharia uma nova peça.

Ainda nos primeiros anos como mecânico ele acompanhava competições como espectador. O contato direto com caminhões de corrida aconteceu por acaso, quando engenheiros da Scania deixavam veículos estacionados em frente à oficina onde trabalhava. “A gente ficava babando. Comecei a ir para as corridas com meu patrão e foi aí que o gosto cresceu”, explicou.

O salto para as pistas
A virada veio anos depois quando surgiu a oportunidade de comprar parte de uma equipe da Fórmula Truck. A experiência inicial como dono de equipe não deu certo, mas o envolvimento no meio competitivo semeou o desejo de pilotar. Com o apoio de amigos e contatos, montou seu caminhão, um Scania semi-pronto, com recursos próprios e ajuda da equipe da oficina. A transição não foi simples, sem experiência prévia em competições, teve de aprender tudo do zero.

A estreia oficial como piloto aconteceu em 2022, depois de um início frustrado em que o caminhão quebrou antes mesmo da largada. A verdadeira primeira corrida veio logo depois, em Interlagos, debaixo de chuva, quando foi atingido por outro caminhão. “Ali eu entendi que na pista, como na estrada, o medo precisa estar presente. Se tu perde o medo, tu perde o cuidado.”

O piloto pelotense participa da Fórmula Truck pilotando o Scania 023. (Foto: TS Fotografias)

A alma de mecânico nunca saiu
Jorginho Feio se destaca por um diferencial raro no grid. Além de pilotar, o olhar atento ainda “enxerga” cada ruído, vibração ou falha e ele mesmo participa da montagem, da programação eletrônica e dos ajustes de pista. “O piloto precisa conhecer o chão que pisa e o motor que acelera”, afirmou.

Além da rotina pesada de administrar a oficina, atender clientes e preparar o caminhão para as corridas, ele ainda lidera uma equipe dedicada. Boa parte dos mecânicos que viajam com ele também trabalham na oficina. “O chefe de equipe tá comigo há 12 anos. Tudo que sei, eu passo. Meu objetivo é formar profissionais bons, que não passem pelos perrengues que eu passei”. Já a logística das competições é complicada, carretas com dormitório, peças reservas e ferramentas seguem com a equipe por diversas cidades do Brasil.

Aprendizados, legado e futuro
Entre as histórias marcantes, o piloto lembra do início difícil, das críticas que o motivaram a ser melhor e da evolução que conquistou com esforço. Hoje, a dica para jovens curiosos que se aproximam nas pistas é o início pelo kart, base do automobilismo.

Com esposa e dois filhos, Jorginho equilibra o tempo entre a família, a empresa e os campeonatos. “É puxado. A gente treina depois do expediente, corre no fim de semana e ainda tem que manter a oficina girando. Mas tem uma equipe boa, competente, isso ajuda muito.” Quando perguntado sobre o futuro, é direto. “Estamos montando um caminhão reserva. Mais leve, mais competitivo. Meu sonho agora é ganhar um campeonato”, declarou.

No mundo da Fórmula Truck, Jorginho Feio já virou marca. Nas pistas, seu Scania 023 carrega não apenas sua história, mas a representação de muitos que fazem o Brasil andar sobre rodas. “Eu sou piloto, mas acima de tudo sou mecânico. E motorista também, porque o caminhão tá no meu sangue”, concluiu.

Fórmula truck
A temporada de 2025 da Fórmula Truck está em andamento e é possível acompanhar o piloto nas próximas rodadas. Confira as datas:
6ª Etapa (17/8): Londrina (PR)
7ª Etapa (14/9): Santa Cruz do Sul (RS)
8ª Etapa (9/11): a confirmar
9ª Etapa (7/12): Cascavel (PR)