A maternidade como uma escolha que foge do instinto absoluto

O JTR traz dois depoimentos de mães adotivas que descrevem o que é a maternidade na adoção e suas jornadas de coragem, ansiedade pela espera, dedicação e amor intenso, além de detalhar o cenário da adoção no país, bem como a ação de um grupo de apoio a pessoas que têm o desejo de adotar em Pelotas. (Fotos: Arquivo Pessoal)

Por Daniela Alves e Lylian Santos

Historicamente relacionada à criação, não se pode falar sobre mulher ou vida sem atribuí-las a essência do sacrifício. Mesmo em dizeres populares, quando contada como o espelho mais próximo à imagem de Cristo por sua capacidade gestacional, essa figura permanece vinculada à necessidade de dar para outra vida mais valor do que a sua própria. Presente nos maiores contos e mitos, antes mesmo de que Ifigênia entregasse a própria vida para reparar os erros do pai, Agamenon, e bons ventos soprassem em auxílio dos exércitos gregos até Tróia, este é o tipo de sacrifício que coloca à prova a laicidade do Estado, quando todos crescemos sabendo qual o peso de uma vida – ou de uma miríade delas.

Atualmente, mesmo que o espaço para discussões sobre a maternidade seja maior e mais abrangente do que em qualquer outro período da história, perguntas relacionadas ao senso de justiça da sociedade em colocar o peso de vidas em cima de uma única ainda são um tabu a ser comentado. No entanto, reconhecendo a figura da mãe como ser sacrificial, que por vezes abdica de rotina, sonhos, cuidado consigo mesma e ambições que ocupam carga horária que vai além do aceitável (aos olhos da sociedade) para uma mãe, é necessário que questionemos sobre a escolha de ser mãe. Afinal, o cuidado de uma vida não deve ser tratado como algo puramente instintivo, mas como uma escolha àquelas que desejam vivê-la.

Considerando períodos nos quais as emoções se mostram mais fortes do que o controle e o instinto faz com que o corpo, ao deitar, encolha de forma fetal, podemos dizer que a mãe é buscada mesmo que não tenhamos consciência dela, vez que essa posição é a tentativa inconsciente de reproduzir o mesmo sentimento de segurança e aconchego sentidos ainda no útero, nos momentos que precediam a vida fora dele, e o mundo era apenas um som externo.

Conforme dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), somam-se 23.687 crianças e jovens adotados no Brasil desde 2020, enquanto 64.757 foram reintegrados aos genitores neste mesmo período. Os dados que correspondem apenas às reintegrações equivalem a 273,3% do número de adoções, o que significa que para cada criança ou jovem adotado houve quase três reintegrações. Isso significa uma média de cerca de 12.951 crianças retornando aos genitores a cada ano, desde 2020. Ainda, conforme o CNJ, o número de pretendentes ativos para adoção destas crianças e jovens é de 33.366.

Ainda assim, de cada 100 crianças adotadas no Brasil, aproximadamente nove têm o processo de adoção desfeito. O CNJ aponta ainda que as devoluções mais comuns ocorrem ainda no estágio da guarda provisória e estão associadas a fatores etários, comportamentais e de preparação das famílias, com a proporção de casos sendo maior na medida em que se aumenta a faixa etária do adotado, com destaque para o retorno de adolescentes com até 15 anos de idade. O uso de medicação, o diagnóstico de deficiência mental ou de qualquer outro problema de saúde tratável são aspectos também associados a maiores taxas de devolução.

Para as mulheres que escolhem ser mães, as possibilidades da maternidade são diversas, não importa a idade ou o estado civil. A adoção é um caminho possível e muito bonito de se tornar mãe. Em homenagem ao Dia das Mães, que é comemorado neste domingo (11), o JTR traz dois depoimentos de mães adotivas que descrevem o que é a maternidade na adoção e suas jornadas de coragem, ansiedade pela espera, dedicação e amor intenso.

Laços invisíveis que guiam ao amor

Neste novo Dia das Mães, Pamela vive a data com outro olhar depois da chegada inesperada de Theylor. (Foto: Arquivo pessoal)

Desde os 14 anos, Pamela Gomes tinha o desejo de adotar. Na adolescência, pesquisava escondida grupos e pessoas que explicassem mais sobre o processo além de assistir vídeos que abordasse o assunto. Com o passar do tempo, esse desejo ficou adormecido. Ao descobrir uma doença autoimune, a estudante de Engenharia Hídrica começou um tratamento intenso, que não era compatível com uma gestação por conta da medição necessária para controlar a doença.

Esse processo de adoção começou diferente e, em um dia comum, Pamela se oferece para pagar as compras da irmã de Theylor no supermercado. Na saída, conheceu a mãe biológica do seu filho. Com o tempo, Pamela foi entrando na vida dos pequenos, levando para passear, fazendo doações, ajudando quando ficavam doentes e, assim, virou madrinha das crianças.

Após uma denúncia do Concelho Tutelar, a mãe biológica das crianças ficou assustada com o fato de perder a guarda dos filhos e Pamela foi cadastrada como família extensiva, buscando Theylor rotineiramente. A relação se fortaleceu a ponto de o menino não querer mais voltar para casa.

Durante a Covid-19, a mãe biológica foi levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) por falta de ar e morreu de parada cardíaca, deixando quatro filhos. “Os 3 primeiros filhos eram do primeiro casamento e o pai logo veio de SC e buscou, já o meu menino é de um caso que ela teve. Então, não tinha ‘um pai’, logo o Conselho [Tutelar] queria levar ele para o abrigo e eu não permiti”, explica a estudante. Ela procurou a Defensoria Pública, obteve a guarda provisória e, depois de um ano, concluiu o processo legal de adoção.

Atualmente com 31 anos, Pamela tinha 25 na época e era solteira quando decidiu enfrentar os desafios da maternidade. “Minha família sempre me apoiou, mas muita gente se perguntava por que eu tomei essa atitude. Muitas pessoas ficam admiradas, afinal, não é comum ver uma mulher jovem, sozinha, adotando uma criança […] nossa sociedade ainda não está preparada para o que foge do padrão”, comenta.

Agora, Pamela vive a data com outro olhar. “Antes, era um dia para celebrar minha mãe e outras mulheres importantes na minha vida. Agora, é uma celebração da minha própria jornada, do amor que descobri e da família que construí. Cada sorriso dele vale a pena, sentir o amor que não é planejado que não é automático e sim algo que os dois escolheram, é diferente de tudo que é comum”, afirma.

Sobre a experiência, ela afirma que tem sido intensa, desafiadora e profundamente recompensadora. “Descobri uma força em mim que eu não conhecia. Uma capacidade de me doar e de me reinventar todos os dias. A adoção me ensinou sobre entrega, paciência e, acima de tudo, sobre o poder do amor construído. Aprendi que família é laço, não apenas sangue.”

Quando a ausência é preenchida

Hoje, o lar de Jossane e do marido Vagner é barulhento, cheio de desafios, tarefas, carinho e afeto após adotarem quatro irmãos. (Foto: Arquivo pessoal)

O desejo de ser mãe sempre fez parte da vida de Jossane Rodrigues. Professora e pedagoga, ela e o marido Vagner tinham o sonho de formar uma família. Depois de uma gestação interrompida precocemente e mais de uma década tentando engravidar novamente, o casal encontrou na adoção um novo caminho para o amor.

A decisão de adotar permeia a vida do casal desde os tempos de namoro, quando conversavam sobre o tema, já que em ambas as famílias havia exemplos de adoção. Em 2019, iniciaram oficialmente o processo, que foi atrasado pela pandemia. Foram meses de reuniões, cursos, entrevistas com psicóloga e assistente social até a habilitação para adoção. Nesse meio tempo, veio o convite inesperado para participar do “Dia do Encontro”, em Porto Alegre. Foi nesse evento voltado a crianças fora do perfil mais procurado por adotantes que a vida do casal mudou. “Estávamos prestes a ir embora, achando que não era o nosso momento, quando os quatro chegaram”, lembra Jossane. Miguel, Gabriel, Nathan e Bruna se aproximaram, primeiro falando sobre os lanches servidos, depois dividindo histórias e sonhos. Eram irmãos e queriam continuar juntos.

Segundo Jossane, o marido chegou a sair do local emocionado, sentindo o peso da responsabilidade. Mas algo já estava decidido no coração do casal. “O que mais me marcou foi a maneira como se apresentavam, como vendiam sua própria imagem, numa tentativa de nos conquistar. Eles queriam, acima de tudo, ter uma família”, relembra.

A notícia de que seriam quatro crianças ao invés de duas causou surpresa à família e amigos, contudo, o apoio não faltou. Com o suporte do Grupo de Apoio à Adoção (GAA) de Pelotas e das profissionais que acompanharam o processo, a aproximação se deu de forma segura.

Com o tempo, o amor foi se fortalecendo. Os pequenos começaram a trazer flores, fazer desenhos, dizer “eu te amo” com naturalidade. O Dia das Mães, que por anos foi marcado pela ausência, hoje é cheio de significado para a família. Atualmente, o lar de Jossane é barulhento, cheio de desafios, tarefas, carinho e afeto. A experiência, para ela, é uma prova viva de que ser mãe vai muito além de gerar.

GAA oferece escuta, acolhimento e preparação para novas famílias
Criado em 2016, o GAA Pelotas surgiu da necessidade de proporcionar acolhimento e orientação a pessoas em processo de adoção. A iniciativa nasceu após uma Audiência Pública com famílias interessadas no tema, promovendo um espaço de escuta mútua e troca de experiências em um momento que costuma ser marcado pela ansiedade e solidão.

À frente do grupo desde sua fundação, Liana Xavier destaca que, na época, o município não contava com nenhuma estrutura semelhante. “A gente estava vivendo uma gestação do coração, mas sem rede de apoio, esperando uma ligação que mudaria tudo, sozinhos”, lembra.

O GAA promove encontros mensais abertos à comunidade para discutir as particularidades da responsabilidade parental adotiva como a importância de respeitar e preservar a história da criança, independentemente da idade com que ela chega à família. Além do acolhimento emocional, o grupo atua na conscientização sobre o direito das crianças à verdade sobre suas origens, combatendo a cultura do silêncio ainda comum nas adoções brasileiras.

O trabalho desenvolvido ao longo dos anos passou a ser reconhecido pela Comarca de Pelotas e, hoje, faz parte do processo oficial de habilitação para a adoção. A pluralidade também é uma marca do grupo, que reúne diferentes configurações familiares, desde casais heterossexuais, mães e pais solos até casais homoafetivos. Muitas famílias, ao ingressarem com preferência por crianças de zero a três anos, acabam ampliando esse perfil com o tempo a partir das vivências compartilhadas nas reuniões.

Além dos encontros prévios à adoção, o grupo também mantém o pós-adoção para acompanhar as famílias no processo de vinculação com a criança. Os dois primeiros anos após a chegada do filho são, segundo Liana, os mais desafiadores. “Essa criança muitas vezes nunca foi cuidada, nunca foi amada, nunca teve limites. A família precisa estar preparada para lidar com essas lacunas, para ser apoio e não repetir um abandono”, explica.

O GAA Pelotas é aberto à comunidade. Interessados podem acompanhar as atividades pelo grupo no Facebook ou entrar em contato diretamente com Liana Xavier pelo número (53) 8146-1036.

Adoção no Brasil
Gratuito e acessível a maiores de 18 anos (com pelo menos 16 anos de diferença em relação à criança), o processo de adoção deve ser iniciado na Vara da Infância e Juventude da cidade do(s) interessado(s). A primeira etapa envolve a entrega de documentos pessoais e certidões, seguida pela análise do Ministério Público. Os pretendentes passam por entrevistas e avaliações com uma equipe técnica do Judiciário, além de participarem de um curso obrigatório de preparação. Se considerados aptos, são incluídos no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento. Quando há compatibilidade com o perfil de uma criança ou adolescente disponível, inicia-se o período de aproximação e, posteriormente, o estágio de convivência, que pode durar até 90 dias. Concluída essa fase, o processo culmina na ação de adoção e na sentença judicial que garante à criança todos os direitos de um filho, incluindo novo registro civil.