
No domingo (6), o treinador da equipe sub-20 do Grêmio Atlético Farroupilha, Marchel Brum Rollo, o Fuca, foi vítima de racismo no estádio Nicolau Fico. Os insultos aconteceram nas partidas contra o Clube de Regatas Flamenguinho, no segundo torneio intermunicipal da categoria.
Rollo relata que passou a ouvir os insultos vindos de torcedoras do Flamenguinho ainda nas primeiras rodadas do campeonato, que foram intensificados na final. Segundo ele, as falas vieram da mãe e da namorada de um ex-atleta da sua equipe. “Ele estava conosco até semana passada e ela [a mãe], me relatou que ele não estava se sentindo à vontade e no mesmo dia ele acabou pedindo para não fazer mais parte do grupo”, conta o treinador.
No domingo, o atleta voltou ao estádio do Farroupilha em uma das equipes adversárias e com isso Fuca passou a ouvir os insultos. “Nego sujo”, “Nego chinelo” e “Nego macaco” foram algumas das expressões proferidas pelas duas mulheres ouvidas por ele e por, pelo menos, outras 10 pessoas que se prontificaram a ser testemunhas legais do caso.

No mesmo dia, o técnico prestou queixa e garantiu que levará a denúncia até o fim. “Meu objetivo não é humilhar elas, meu objetivo é que elas paguem pelo o ato que cometeram, que é o justo. Da forma que for, eu acho que elas tem que pagar, até pra servir de aprendizado, para não voltar a se repetir comigo nem com outras pessoas”.
Rollo é pai de um menino de dois anos e foi pensando nele e na família que as primeiras decisões sobre se posicionar em relação ao caso foram tomadas. “Imagina se [ele] está aqui, ouvindo o pai dele ser chamado por aquelas coisas. Até eu explicar pra ele, até ele ter consciência do que é o racismo vai demorar e ele ia ficar com aquela imagem na cabeça”, explicou o educador físico, que acredita que racismo não pode mais ser “coisa de torcida”, e que precisa haver punição.
A direção do Farrapo se pronunciou sobre o caso e garantiu dar todo o suporte necessário ao funcionário. O técnico do time principal, Gregory Macedo, lamentou o ocorrido e lembrou a importância de realizar denúncia e noticiar casos como esses. “Infelizmente é comum no futebol do interior e muitas pessoas não levam adiante, coisa que teria que acontecer porque tanto o racismo como a homofobia, a intolerância religiosa são inadmissíveis”, pontuou. Na segunda-feira (7), o Flamenguinho publicou uma nota sobre as denúncias e disse estar aguardando o posicionamento das autoridades sobre o assunto.

A partir do pronunciamento do Farroupilha, Marchel passou a receber inúmeras mensagens de apoio. O caso ganhou repercussão nacional e chegou a ser compartilhado nas redes sociais do Observatório Racial do Futebol, criado em 2014 para monitorar casos de racismo no esporte brasileiro, e pelo ex-árbitro Márcio Chagas, vítima de racismo em 2014, que se tornou ativista da causa antirracista. Nos últimos anos, as denúncias de casos de racismo no futebol brasileiro vêm se intensificando. De acordo com o Observatório, de janeiro a dezembro de 2021, 53 casos foram registrados, um dos números mais altos do levantamento.
No Brasil, o crime de racismo têm sua publicação na Lei nº 7.716 desde 5 de Janeiro de 1989 e a injúria racial está expressa no artigo 140, no terceiro parágrafo do Código Penal, ambos crimes inafiançáveis, com pena de reclusão de um a três anos, além de multa.
A reportagem tentou contato com o Flamenguinho e a mãe do atleta, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.



