UFPel testa soro de equinos contra a Covid-19

A pesquisa teve início no mês de abril (Foto: Anarelli Martinez/JTR)

Um grupo multidisciplinar de pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), engajado em contribuir para a ciência nacional, está realizando uma pesquisa a partir do soro produzido por cavalos em resposta ao vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19.

A pesquisa, que teve início no mês de abril, reúne doutores, mestrandos, residentes, técnicos, graduandos, veterinários, biotecnólogos e microbiólogos, liderados pelo professor de medicina veterinária, Carlos Eduardo Nogueira, com o objetivo de gerar uma resposta positiva frente ao coronavírus.

Para isso, o sistema imunológico de 24 animais foi preparado para receber o vírus inativado da Covid-19, recebido da Universidade Feevale, em uma fase chamada de pré-simulação. A partir disso, os cavalos foram acompanhados semanalmente para que fosse possível realizar a primeira coleta do material. Porém, nessa primeira instância, o resultado obtido não foi o esperado.

Assim, a segunda fase da pesquisa aconteceu com a proteína do vírus, na qual se observou que uma partícula de anticorpo (resposta do cavalo) poderia neutralizar grandes quantidades de vírus. Isso se dá porque ao entrar na célula do paciente, o vírus modifica o RNA ou DNA existente nela, causando diversas reações e os sintomas da Covid-19, como febre, tosse seca, dor de garganta, diarreia, perda do paladar e olfato, entre outros. No entanto, a resposta do sistema imunológico do cavalo é atacar o microrganismo invasor, impedindo essa modificação e neutralizando a ação do vírus. Essa técnica, chamada de profilaxia, pretende impedir e/ou diminuir os efeitos da Covid-19 nos humanos.

O soro é purificado para que os anticorpos, também chamados de imunoglobulinas, estejam com a fração necessária para combater o vírus. Esse soro heterólogo, ou seja, produzido em outra espécie, já foi aplicado em ovelhas e rendeu o resultado esperado. Agora, a pesquisa será encaminhada à Plataforma Brasil, Comitê de Ética e Pesquisa em Humanos.

Se aprovada, serão convocados 20 voluntários saudáveis para receberem o soro, que passarão por entrevista clínica e avaliação de hemograma por enfermeiros antes de serem divididos em dois grupos de dez pessoas. Os participantes da primeira turma receberão 250ml cada de uma solução fisiológica. E a outra metade receberá 230ml dessa solução, acrescido de 20ml do soro anti-covid.

A partir disso, os envolvidos no experimento serão acompanhados de hora em hora, para que sejam analisadas possíveis reações ao soro e após, serão contatadas diariamente até o sétimo dia, para que se realize um acompanhamento. Entretanto, esses pacientes deverão retornar ao local estabelecido entre o 14º dia e o 21º para avaliar uma possível resposta tardia ao vírus.

Após essa etapa, o soro será testado em pacientes na fase 2 de Covid-19 do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel) e do Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr. (HU-Furg). Para isso, o paciente ou a família deverão assinar um termo de aceitação para o tratamento experimental. “Nós não temos a menor pretensão comercial, o que queremos é que funcione e que a gente consiga dar a nossa contribuição enquanto universidade pública”, diz o coordenador do estudo.

Professor Carlos Eduardo Nogueira
coordena a equipe de pesquisa (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

O professor Nogueira, há 22 anos atuando na universidade pública, reflete sobre o papel dessas instituições como agentes formadores da identidade dos envolvidos ao permitir o livre crescimento das pessoas, sem coerção e condução de uma ideologia. Para ele, a equipe que está sendo coordenada tem extrema competência e capacidade.

“Tenho muito orgulho de fazer parte dessa equipe. A grande maioria de nós é veterinário e quando se fala em saúde pública, a veterinária tem papel fundamental, porque boa parte das doenças nos humanos são zoonoses, ou seja, vem dos animais. Assim, somos nós quem fazemos os diagnósticos, realizamos o controle e produzimos vacinas”, explicou.

Porém, o professor analisa a importância de uma maior aplicação de verbas para a ciência. “As universidades públicas têm muita capacidade de conhecimento, pecando apenas na estrutura de prestação de serviço por falta de incentivo”, refletiu.

Diferença entre soro e vacina
O soro é uma resposta do sistema imunológico que age quando o vírus adentra a célula do paciente, neutralizando a ação do mesmo. Já a vacina serve para preparar as defesas do paciente para que ele não seja infectado pela doença, ou seja, atua como um bloqueio para o vírus.

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