Pesquisas da UFPel destacam memórias e apontam desafios vividos no Passo dos Negros

Local é considerado histórico pela população negra da cidade ao resgatarem suas raízes. (Foto: Divulgação)

Localizado às margens do Canal São Gonçalo, em Pelotas, o Passo dos Negros é um território composto por diferentes narrativas, memórias e histórias. Antigo ponto de travessia do gado e de fiscalizações durante a época das charqueadas, o local tem sido, nos últimos tempos, berço de pesquisas acadêmicas e descobertas conduzidas por alunas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que buscam não só a reconexão com suas origens, mas também compreender os desafios enfrentados pelas comunidades tradicionais na atualidade.

A antropóloga Simone Fernandes, que acompanha a comunidade e seus obstáculos até hoje, explica que chegou no lugar histórico por meio de um projeto de extensão, onde iniciou a pesquisa que deu origem à sua dissertação de mestrado, concluída em 2020. De acordo com ela, o vínculo com o território nasceu também de uma vocação. “A escolha nasce de um chamado ancestral. Minha bisavó paterna, benzedeira, já me dizia da importância daquele lugar para nós, pessoas negras e, ao chegar ali, compreendi que não era apenas uma pesquisa, era um reencontro”, conta.

Simone ressalta que há uma relação direta e fundamental entre o Passo dos Negros e a formação histórica da cidade. “As pesquisas do professor Claudio Carle, na UFPel, evidenciam que o Passo dos Negros é um sítio arqueológico e um dos primeiros núcleos de ocupação da região, com uma extensão territorial que, no passado, era muito maior do que a atual. Esse dado não é apenas técnico, ele reafirma que estamos falando de um território fundador, atravessado por fluxos, trabalhos, saberes e pela presença negra que sustentou e moldou essa cidade”, reforça. Para ela, reconhecê-lo é valorizar a memória viva de uma população que ajudou a formar a Terra do Doce.

Conhecer e valorizar
A museóloga e mestre em antropologia, Patrícia Mathias, desenvolve sua tese de doutorado no mesmo local. Ela conta que sua trajetória iniciou ainda na graduação em Museologia, quando investigou como a população negra era representada nos espaços museológicos de Pelotas. A partir disso, Patrícia percebeu a ausência de valorização das contribuições negras e indígenas na construção da história oficial do município.

O processo a conduziu ao Passo dos Negros, local atravessado pelas memórias transmitidas pelos mais velhos, que se configuram como guardiões das narrativas. “Minha tese propõe pensar o Passo dos Negros como um museu a céu aberto e vivo, na perspectiva da museologia social, reconhecendo o território como espaço de memória, pertencimento, resistência e produção de saberes comunitários”, afirma.

Nesse sentido, Simone explana que a força das memórias vivas e das relações de pertencimento despertaram sua atenção durante a pesquisa, pois a história “não está apenas nos registros, mas nas falas, nos gestos, nas práticas cotidianas e nos vínculos entre os moradores. São saberes que resistem, mesmo diante de processos históricos de apagamento”. Cada relato ganha continuidade, já que a comunidade segue revisitando e reconstruindo sua memória.

Durante sua trajetória, a antropóloga, assim como Patrícia, também percebeu que as narrativas da comunidade, muitas vezes ausente dos registros oficiais, são fundamentais para entender a história local – revelando a centralidade da presença negra na construção do espaço. Ao mesmo tempo, a pesquisa evidenciou tensões e riscos, como o avanço imobiliário, foco de sua dissertação, que tem provocado pressões sobre o território e mudanças na paisagem, ameaçando as memórias e os patrimônios materiais e imateriais, que, por estarem em risco, passam a exigir ações de preservação.

Antigo ponto de travessia do gado e de fiscalizações durante a época das charqueadas, o local tem sido berço de pesquisas acadêmicas. (Foto: divulgação)

Dificuldades cotidianas
Entre os desafios identificados por Simone, destacam-se, além da pouca valorização dos saberes da comunidade devido à invisibilização da presença negra em Pelotas, a falta e o acesso desigual dessas pessoas às políticas públicas. “Há uma ausência de reconhecimento institucional dos patrimônios locais, além de desigualdade no acesso às políticas públicas, infraestrutura e serviços, que impactam diretamente a rotina dos moradores”, diz.

Ademais, segundo Patrícia, houve dificuldade de construir vínculos de confiança com a população, considerando que a comunidade foi, por muito tempo, alvo de estudos acadêmicos sem nenhum retorno para apresentar resultados de suas pesquisas ou simplesmente se despedir dos moradores após o tempo de estudo. Junto a isso, os obstáculos vividos pelas pessoas que ali residem são potencializados em dias de chuva, por exemplo, quando o acesso ao território se torna mais precário. Esses aspectos são somados, ainda, a carências de acesso básico à saúde, escola, transporte público e demais direitos.

Comunidade como protagonista
Na construção da dissertação de Simone, os moradores foram fundamentais, atuando como coautores de um processo que não é individual, mas sim coletivo. “A pesquisa se fez a partir da escuta sensível, das conversas, das caminhadas pelo território e da confiança construída no dia a dia. Foram eles que compartilharam suas memórias, abriram as portas de suas casas, mostraram fotografias, histórias de vida, saberes e percepções sobre o Passo dos Negros, dando corpo e sentido à pesquisa”, conta.

A participação das pessoas também foi observada por Patrícia, sendo, conforme ela, essencial no processo de investigação. “A população local participa ativamente da construção do conhecimento acadêmico por meio de relatos orais, partilha de memórias, indicação de lugares simbólicos e participação no projeto Caminhadas Ancestrais no Passo dos Negros, vinculado à ONG Cuidando de Nós, por meio de visitas guiadas e ações comunitárias. O estudo compreende os moradores não apenas como interlocutores, mas como protagonistas”, enfatiza.

Para ela, durante a pesquisa, um dos principais marcos tem sido o sentimento existente entre os moradores, além da maior visibilidade obtida a partir da investigação. “Foi possível observar transformações importantes, como o fortalecimento do sentimento de pertencimento entre a comunidade, além de maior visibilidade externa do território e o surgimento de ações coletivas voltadas à preservação da memória local. Também se percebeu maior diálogo entre a UFPel e a Prefeitura de Pelotas com eles”, relata.

Reconhecimento e futuro
Simone explica que o local tem recebido atenção nos últimos tempos. Esse cuidado, no entanto, precisa ser redobrado e acompanhado de diálogos com a comunidade. “A partir de 2024, ele passou a ser reconhecido como Comunidade Tradicional, em 2025 o território passou a receber maior atenção por parte dos órgãos públicos, o que indica um movimento importante de reconhecimento. Ainda assim, esse olhar chega em meio a tensões e exige cuidado, para que as ações não se sobreponham às dinâmicas da comunidade, mas dialoguem com ela, garantindo a preservação do modo de vida”.

Ela ainda destaca que evidenciar esses processos é um ato político e de denúncia, mas também de afirmação da importância de proteger e reconhecer um território tão rico de saberes, vivências e histórias protagonistas na composição do município.