
O desemprego assombra cerca de 7,5 milhões de brasileiros neste segundo trimestre de 2024, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A procura por emprego é uma realidade árdua de muito esforço e negativas, principalmente quando o preconceito está inserido no contexto. Em 2022, o projeto TransVida, do Grupo pela Vidda, realizou uma pesquisa com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos por meio de um questionário on-line e entrevistas presenciais, foram obtidas 147 respostas. Como resultado, apenas 15% têm trabalho com carteira assinada, 15,6% são autônomos formalizados e 27% são autônomos informais.
Com o intuito de proporcionar mais oportunidades de trabalho para pessoas transexuais, a Associação Otroporto e o Ministério Público do Trabalho lançaram o projeto “Doceria e Emancipação” com um curso de gastronomia ministrado pela Escola Senac Pelotas.
A primeira turma do projeto iniciou as aulas no dia 2 de setembro e completou o curso nesta sexta-feira (27). Ao todo, 18 alunos aprenderam sobre a arte doceira do município e também sobre a confeitaria. “Pelotas é a Capital Nacional do Doce, então, fazer uma formação que gerasse emprego e renda na área de doçaria, na área de confeitaria, para que um público que, muitas vezes, é segregado, fica à margem da sociedade, pudesse ter minimamente igualdade de condições para poder entrar no mercado formal, nas doçarias, nas confeitarias da cidade, ou empreender nessa área também”, afirmou o diretor da Escola Senac Pelotas, Tiago Radmann, sobre os objetivos por trás da escolha desse tema para o projeto piloto. Radmann explicou também que o curso começou com a fase de sensibilização também ministrada pela Otroporto e pela TransPoética, já as aulas práticas e de empreendedorismo acontecem no Senac Pelotas.
O diretor salientou que o projeto cumpriu com as expectativas. “É um projeto piloto, que a gente está fazendo um experimento, mas eu posso afirmar que ele já deu certo e seguramente a gente vai ter outras iniciativas para isso e para outros públicos e que a gente possa cumprir essa missão de incluir pessoas de uma maneira inovadora”. Os interessados podem acompanhar o Senac Pelotas, a Unicenac Pelotas e a Otroporto nas redes sociais onde serão divulgadas novas ações como esta.
Diego Hartwig é um dos alunos da turma de gastronomia e conta que sua realidade foi um pouco diferente da maioria dos colegas. Isso porque conseguiu completar os estudos no ensino superior, entretanto o diploma não foi o suficiente para conseguir um emprego sendo um homem trans. Atualmente, Hartwig está desempregado e faz freelancer para garantir o sustento. Por já ter contato com a gastronomia, se interessou pelo curso devido aos doces de Pelotas. “É muito única a experiência porque a gente se sente acolhido, a gente não está num lugar que vai ser excludente para nós. A gente consegue ter aquela coisa de saber que estamos aqui e que estamos com nossos irmãos, com pessoas que passam pelas mesmas coisas e têm os mesmos anseios”, disse.
O aluno afirma que em um país onde pessoas transexuais são mortas pelo preconceito, essa iniciativa é muito importante para a comunidade. “Eu me transicionei aos 16 anos, eu tenho 26, em 10 anos eu nunca vivi isso. É algo que é único. Eu não tenho muita expectativa em questão de conseguir um trabalho, pois já estou há muito tempo desempregado e porque parece que nada vai mudar para a população trans […], mas a esperança é a última que morre. Eu acho que essa foi uma porta aberta para milhões de portas que podem ser”, finalizou Hartwig.
A aluna Cristal Piegas, que é uma mulher trans, conta que esse é o segundo projeto que gera possibilidades voltadas para pessoas transexuais no Estado que ela tem conhecimento. Também ressalta que a sociedade costuma marginalizar a comunidade por conta do preconceito. “E a gente está mostrando para a sociedade que isso não é assim, que a gente pode mudar e virar a página. A gente não tem oportunidade de trabalho porque a sociedade não nos dá, e não porque a gente não procura! Eu tenho colegas, mulheres trans e homens trans que têm cursos graduados, mas uma oportunidade não existe. Então, é que o preconceito nunca vai acabar, isso é só uma fachada, as pessoas só te respeitam porque tem uma lei que te prende” relata. “Porque a gente também é gente, né? E a gente tem sonhos também”, completa.
Finalizando, Cristal deixou um conselho. “Para vocês pais, hoje em dia, que têm muitos sonhos antigos e, às vezes, não sabem como lidar quando tem dentro de casa um homossexual, uma mulher trans, um homem trans, ao invés de jogarem, acolham! Porque é melhor ter um filho viado (sic), bem no português, desculpe, do que ter um filho ladrão, assassino e estrupador (sic). Aí a escolha é sua”.



