Theatro Guarany: 104 anos de história e resistência cultural em Pelotas

Fundado em 1921, o Theatro Guarany enfrentou décadas de transformações até ser revitalizado por Andreia Fetter Zambrano, cuja trajetória agora é homenageada com a nomeação de um Largo no Centro da cidade. (Foto: Lylian Santos/JTR)

No dia 30 de abril de 1921, Pelotas ganhava um novo espaço cultural: o Theatro Guarany. Com a estreia da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes, apresentada pela Companhia Lírica Italiana Marranti, o prédio se consolidava como um símbolo da sofisticação e do desejo da elite local de inserir a cidade no circuito cultural sul-americano — ao lado de centros como Buenos Aires, na Argentina, e Montevidéu, no Uruguai.

Mais do que um teatro, o Guarany foi planejado para ser também um cinema. Com estrutura imponente e capacidade para mais de mil pessoas, oferecia ingressos acessíveis e rompeu barreiras sociais, abrigava desde a elite que ocupava camarotes até o público das “gerais”, incluindo trabalhadores e negros – o que não era muito comum à época.

Inaugurado em 1921 com uma ópera italiana, o Theatro Guarany marcou a entrada de Pelotas no circuito cultural sul-americano. (Foto: divulgação)

Durante décadas, o cinema foi a atividade principal. O Guarany inovou ao trazer o cinema sonoro, filmes em 3D e até o sistema de som Sensurround, que fazia o chão tremer durante cenas do filme “Terremoto”. Pelotas vibrava com sessões lotadas. Mas como em muitas cidades, o auge deu lugar ao esvaziamento, o cinema foi fechado em 1996, com uma sessão para uma sala praticamente vazia.

Além do cinema, o Guarany também sediou os famosos bailes de Carnaval entre décadas de 1960 a 1990. Para essas festas, o teatro era transformado em salão de baile — o que, ao longo dos anos, contribuiu para o desgaste do espaço. Com o tempo, as formaturas também passaram a compor a rotina do prédio.

A nova fase do Theatro Guarany
Nos anos 2000, o Theatro enfrentava o risco de deterioração completa. A virada veio em 2009, com a chegada de uma nova herdeira decidida a resgatar a vocação artística do espaço. A atriz Andreia Fetter Zambrano e sua prima Susana Zambrano assumem em parceria a direção do teatro, que na época passava por um período de estagnação. A partir da parceria formal estabelecida, vários projetos se iniciam e passam a dar vida ao Guarany novamente.

De lá para cá, os camarins do teatro foram revitalizados com apoio de artistas e empresários locais, as cortinas foram trocadas, banheiros reformados, o teatro então se torna um dos equipamentos culturais mais importantes da cidade, com grandes shows de música, dança, teatro e palestras, além de formaturas de instituições educacionais da cidade.

Após o falecimento de Susana Zambrano, em 2015, Andreia comprou a parte da prima na empresa e seguiu com os projetos em parceria com a filha Maria Antônia Fetter Zambrano. Nos últimos quatro anos, se criou então o Projeto Guarany das Artes, com o objetivo de oferecer um espaço pedagógico das artes cênicas no teatro, oferecendo aulas de teatro e dança, com turmas nas segundas e terças.

À frente do Theatro Guarany, Andreia Fetter Zambrano deixou um legado de valorização das artes, inclusão social e preservação da memória cultural. (Foto: reprodução)

Com a morte de Andreia, vítima de câncer, em setembro de 2024, Maria Antônia está à frente da administração do imponente teatro utilizando como referência todo o aprendizado adquirido com a mãe, que sem dúvida foi uma amante das artes e se tornou sinônimo em gestão cultural demonstrada na administração do Guarany.

Homenagens eternizam o legado de Andreia
Pelos relevantes serviços prestados por Andreia à cena cultural local, no dia 17 de março, o vereador Marcos Ferreira, o Marcola, (UB), propôs a Lei nº 7.377, atribuindo o nome de Largo Andreia Fetter Zambrano no trecho da rua Lobo da Costa, entre as ruas Félix da Cunha e Gonçalves Chaves. A cerimônia de denominação oficial ocorreu na manhã de quarta-feira (30), com a presença de autoridades locais, amigos e familiares da homenageada, além de apresentação da Banda de Música do 4º Batalhão de Polícia Militar (BPM).

Homenagem oficializada na quarta-feira (30) reconhece a contribuição de Andreia Fetter para a cultura pelotense. Decisão dividiu opiniões, mas reforçou seu impacto na história do Theatro Guarany. (Foto: Lylian Santos/JTR)

O secretário de Turismo, Danilo Rodrigues, destacou o envolvimento de Andréia não apenas como gestora do teatro. “Aqui fica evidenciado o exemplo de pessoas que se envolvem independente de onde estão. Andréia, para mim, é um exemplo disso, ela estava obviamente à frente do teatro, mas para além disso, como pessoa, como artista, como incentivadora da cultura e do turismo”, afirma Rodrigues.

Apesar da solenidade, a nomeação gerou divergência entre integrantes da família Zambrano. Representantes da Associação Amigos do Theatro Guarany manifestaram-se contrários à localização da homenagem, alegando disputas judiciais anteriores envolvendo a administração do local. Ainda assim, Marcola reafirmou o caráter legítimo da proposta e afirmou ter recebido manifestações de apoio e gratidão por parte de outros membros da família.

“A proposta da homenagem da Andreia veio por iniciativa da família, de modo especial, a Maria, sua filha, me procurou. Eu entendo que o legado dela tem que se manter vivo, tem que ser eternizado, pessoa que contribuiu muito para a arte, para a cultura, para que Pelotas crescesse nessas áreas e, de modo especial, também pelo Theatro Guarany, ela sempre foi uma pessoa próxima, que abriu o teatro para a cidade, não discriminou ninguém, tinha projetos sociais… Então, nada mais justo que nós eternizarmos ela, o nome dela, com esse largo importante”, explicou o vereador.

O diretor de Manifestações Populares, Daniel Amaro, também ressaltou a importância de Andreia para a valorização das danças populares e periféricas em Pelotas. “Eu tive um azar que eu conheci a Andréia somente em 2011, quando eu procurei o Theatro Guarany para fazer um espetáculo da Companhia de Dança Afro Daniel Amaro, enquanto o Teatro Sete de Abril estava fechado. A partir dali eu tive uma facilidade de botar uma companhia de danças populares, periféricas dentro do teatro, algo único”, disse Amaro. “Ela foi fundamental para a recuperação das artes cênicas e das artes em Pelotas, porque havia, então, somente um teatro, e um teatro privado. Então, além de fazer a gestão, ela possibilitou que a arte tivesse uma casa para se representar, que até então, no ponto de vista de uma cidade sem teatro é uma cidade sem alma, e uma cidade sem alma é uma cidade sem artista”, completa o diretor.

Hoje, aos 104 anos, o Guarany segue pulsando no Centro Histórico de Pelotas. É um dos raros espaços privados de grande porte no Estado que mantém as portas abertas à cultura. Ainda enfrenta desafios estruturais e financeiros, mas conta com o apoio da comunidade, que se reconhece nesse patrimônio vivo.