Pelotense que pinta quadros com a boca encontrou na arte uma forma de lutar contra a depressão

Com o auxílio da professora Rozi Silveira, artista desenvolve pinturas com a boca. (Foto: Stéfane Costa/JTR)

Com o tema “Rompendo barreiras, garantindo a acessibilidade e inclusão” mais uma edição da Semana Municipal da Pessoa com Deficiência está sendo realizada em Pelotas. As atividades tiveram início na segunda-feira (21), após evento de abertura no Largo do Mercado Central, e seguirão até a segunda (28).

E a escolha do tema não poderia ser melhor, pois quebrar barreiras está entre os principais desafios de quem precisa conviver com alguma deficiência. João Felipe da Silva Rodrigues, de 39 anos, possui paralisia cerebral e desde 2010 encontrou na pintura sua maior motivação e força na luta contra a depressão. Segurando o pincel com a boca, hoje ele pinta telas que são vendidas para todo o Brasil.

O artista conta que tudo começou quando assistiu à novela Caras e Bocas. Ao ver o personagem animal intitulado como macaco Chico realizando pinturas que na trama ganharam grande repercussão, um mundo até então distante para o pelotense se abriu. “Através daquele macaco eu me inspirei. Claro, eu vi ele atirando tinta num papel, aí eu pensei ‘se ele pode, eu também posso’, mas de que jeito?”, recorda. Foi então que a jornada de Rodrigues na arte teve início. “Eu comecei a pedir para a gurizada desenhar em uma cartolina de papel, eles desenharam um campo de futebol, com as traves, o campo, tudo direitinho. A mãe comprou umas têmperas (tinta) e eu fiz o teste na cartolina, aí eu decidi procurar um curso”, completa.

Mas se a decisão de procurar um curso para se especializar foi fácil, encontrar quem estivesse disposto a ensiná-lo não. Rodrigues se deparou com dificuldades pessoais e de acessibilidade. “Ninguém queria fazer. Não é só que não quisesse, de um lado não tinha acessibilidade, do outro eles ficavam com medo porque nunca tinham lidado com uma pessoa assim, nunca tinham visto”, relembra. Após ouvir muitos nãos, a família encontrou o sonhado curso em uma loja de artesanatos do Centro de Pelotas, onde o aspirante a pintor estudou por dois anos.

Com a frequência de aulas reduzindo cada vez mais, ele percebeu que precisaria procurar outro lugar para praticar, uma vez que no período sem aulas, caso não houvesse frequência, poderiam ocorrer perdas de coordenação motora. A próxima parada do artista foi no Sest Senat, onde passou mais de cinco anos aperfeiçoando suas habilidades na pintura.

Mas depois deste período, as atividades da instituição na área pararam, fazendo com que precisasse procurar um professor particular. Foi após algum tempo que seu destino se cruzou definitivamente com Rozi Silveira.

A professora também participou das aulas no Sest Senat e, desde que iniciou o trabalho com Rodrigues, duas vezes por semana, buscou especialização na área. Ela, que também estava em um quadro depressivo, viu uma nova perspectiva através da arte. “Eu me encontrei, sabe, a minha depressão foi embora e o que eu fui fazer? Voltei para a faculdade para fazer Artes Visuais e agora faço pós-graduação para a área de autistas pois assim como eu trabalho com o Felipe, quero trabalhar com autistas, e faço outro pós em desenvolvimento neurológico”, conta Rozi.

Ao longo dos anos em que trabalham juntos, a dupla passou a aperfeiçoar o arte executada por ele. Rozi é responsável pelo desenho do que será pintado pelo aluno e também adapta pincéis e telas para facilitar a prática. Ela está com a agenda aberta para novos alunos, sendo possível entrar em contato com a professora através do telefone (53) 98136-5697.

A prática surtiu efeito além do esperado e a melhora foi percebida tanto externamente como internamente. Além de desenvolver a prática motora, ele conta que a arte o ajuda a lutar contra a depressão, um auxílio além dos medicamentos. “Se não fosse esse curso assim, seguida me dá depressão, me bate uma tristeza, então quanto mais eventos aparecerem, mas eu não caio. Ninguém quer adoecer, mas o que levanta é os eventos, quando bate a tristeza eu olho para a tela e digo ‘não, não vou cair’, fico louco para que chegue segunda e quarta (dias de aula) para poder pintar. A tela além de me inspirar eu foco nela e não tem como pensar em outra coisa, a não ser as feiras e eventos”, diz.

Como gosta de ressaltar, seu trabalho não se atém à produção em casa. Marcando presença em eventos como a Feira Nacional do Doce (Fenadoce), ele costuma participar de feiras e mostras da região onde é aceito e há acessibilidade, o que tem sido bom para a sua arte. “Eu gosto muito de fazer esses trabalhos, claro que não obrigo ninguém a comprar, compra quem pode e tem condições. Se não puder comprar eu não fico triste, não fico aborrecido, mas é muito difícil eu ir para um evento e não vender”, destaca.

João Felipe da Silva Rodrigues, de 39 anos, já participou de diversos eventos na região, como a Fenadoce. (Foto: Rafael Takaki)

E a agenda não para. No dia 10 de setembro ele participará de uma feira de artesanato, no bairro Santa Terezinha. No dia 16 haverá feira na Praça Coronel Pedro Osório. Em ambas as participações ele irá expor seu trabalho e realizar demonstrações de pintura das 10h às 18h.

No entanto, manter essa atividade não é tarefa fácil. Irene Silva, mãe do artista, confessa que o valor arrecadado com as telas mal cobre os valores dos materiais utilizados. Ela relata que há muito tempo o filho não conta com apoio de patrocinadores, e que esse auxílio é fundamental tanto para manter o trabalho artístico como para garantir o bem estar dele. Interessados em auxiliar o trabalho ou comprar uma das telas podem entrar em contato através do número (53) 98437-4144 ou do Instagram @felipe_telas.

Atividades no município
Dentro da programação elaborada pelo Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência e Altas Habilidades com apoio de parceiros, atividades como palestras, visitas e exposições estão trazendo visibilidade e incentivo à inclusão. Fotos feitas por alunos do município estão expostas na sala Frederico Trebbi da Prefeitura de Pelotas, obras que capturaram a inclusão nas instituições que fazem parte. Para a professora e diretora do Centro de Atendimento ao Autista Débora Jacks, idealizadora do projeto, é essencial trabalhar estas questões em âmbito escolar. “A acessibilidade é fundamental quando buscamos a inclusão, na escola são muitas as barreiras a serem vencidas, ainda há muito a fazer. Divulgar e mostrar a inclusão faz com que as pessoas percebam que é possível, que atitudes simples do cotidiano fazem toda a diferença”, garante.

A arte aliada à inclusão também pode ser conferida através da exposição “A tela que me encanta”, também disponível na mesma sala do Paço Municipal. Na seleção, alunos da rede municipal de ensino com Síndrome de Down pintaram suas ideias em telas artísticas.

Confira a programação da 24ª Semana Municipal da Pessoa com Deficiência

Sexta-feira (25) – Virada Cultural
Virada Cultural ”Inclusão e participação das Políticas Públicas”
Local: Praça Coronel Pedro Osório
Horário: 14h às 17h
Organização: Centro Social do Círculo Operário Pelotense – CSCOP

Roda de Conversa Intervenção Precoce e as Práticas centradas na Família
Local: Centro de Atendimento ao Autista Dr. Danilo Rolim de Moura
rua General Argolo, 1801
Horário: 9h30

Palestra sobre Plano de Desenvolvimento Individual – PDI
Professora Tatiana Albuquerque
Horário: 9h
Local: APAE

Piquenique na Equoterapia com passeio a cavalo
Horário: 14h

Sábado (26) – Caminhada Inclusiva
9h30 – Concentração no Chafariz da rua Andrade Neves com Sete de Setembro,
10h – Saída
Término no Largo do Mercado Público

Domingo (28) Celebração de Missa – Semana Municipal da Pessoa com
Deficiência
Horário: 19h
Local: Paróquia Nossa Senhora da Luz
Rua Padre Anchieta, 3553a

Segunda-feira (28) – Fechamento da Semana
Organização: Conselho Municipal e mães (Adriane da Silva, Eliane Brustolin e
Roberta Gonçalves)
Baile de Encerramento das Instituições – 10º Baile Dos PCDs, com as mães
Música ao vivo com o cantor Hugo Miori e após música eletrônica
Local: Associação de Praças Policiais e Bombeiros Militares do Estado do Rio Grande do Sul (ASPRA-RS)
Rua Dom Pedro II, 1057 – centro
Horário: 14 às 17h

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