
Fundada em 1892 e famosa pela hera verde que a cobre, a Catedral do Redentor – comumente chamada de Igreja Cabeluda e pertencente à Diocese Anglicana de Pelotas – vive uma fase de transformação e renovação por meio de um projeto de restauro arquitetônico. Iniciada em outubro, mês de seu aniversário, a proposta integra um plano de educação patrimonial, garantindo a preservação do patrimônio tombado para as próximas gerações.
O projeto “Restauro da Catedral Anglicana do Redentor – Etapa inicial da Exedra” fortalece os laços culturais e amplia os aspectos sociais do patrimônio. Segundo Josiele Castro, produtora cultural da Santa Fé Produtora & Patrimônio, cada patrimônio é uma história vívida, que resgata memórias e prepara o futuro. “Nós passaremos, pessoas já passaram por ele, e nossas crianças que nem chegaram ainda passarão por ele, e ele ficará. Ele é a prova de nossa existência, é uma constância de nossa vida. Nos dá indícios de como se pensava e agia no ‘antes’, nos pondo a pensar nos ‘porquês’”, disse.
De acordo com Josiele, a demanda foi atendida a pedido da própria Diocese Anglicana, a qual ela possui um forte vínculo devido ao seu batizado quando criança ter ocorrido nesta mesma igreja. Alguns outros patrimônios já contemplados pela Santa Fé foram o Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Beneficência Portuguesa de Pelotas, Museu do Doce, Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, Asilo de Mendigos, entre outros.
Educação x restauração
Na etapa atual, a Exedra – salão da Catedral – será restaurada. Após esse processo, o telhado do templo, o forro e assoalho também serão refeitos. Durante o projeto, ao passo que a Catedral recebe cuidados e reparos, a educação será disseminada por meio de visitas de escolas e alunos universitários na igreja até março de 2026. No dia 8 de outubro, os alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) fizeram uma visitação e conheceram os procedimentos que estão sendo adotados pelas profissionais responsáveis e, na quinta-feira (30), a visita foi realizada pela Escola Estadual de Ensino Fundamental Dr. Francisco Simões.

projeto contempla a reforma da Exedra, salão da igreja. (Foto: Divulgação)
De acordo com Michele Bandeira, engenheira civil da Maximize Engenharia, empresa contratada pela Santa Fé, o maior desafio se encontra justamente na Exedra da igreja, devido às peças de madeira que precisam ser substituídas de forma manual. “Isso aconteceu porque não foi possível utilizar guindastes, devido à rede de alta tensão existente em frente a Exedra. Cada peça comprometida precisou ser cuidadosamente retirada e substituída por outra nova, em um processo delicado e minucioso”, destacou Michele.
Entre os principais problemas, segundo ela, infiltrações de água e infestação de insetos xilófagos agravaram a estrutura. Durante o restauro, a equipe também identificou a necessidade de reforçar as paredes da cozinha, algo que não estava previsto inicialmente. Assim, para resolver o problema e dar mais estabilidade ao conjunto, foi executada uma cinta de amarração, uma espécie de reforço estrutural que ajuda a manter as paredes firmes e integradas.
Um espaço de memórias vivas
Para a reverenda Meriglei Simim, bispa da Catedral, o restauro da Exedra e da igreja como um todo representam a possibilidade de resgatar a história do patrimônio. “Estar restaurando este patrimônio, é muito mais que cuidado, é resgate. Resgate de uma linda história que foi construída ao longo dos anos”, explicou Meriglei.

para reposição manual de pisos muito antigos. (Foto: Divulgação)
A Exedra, para a bispa, é um espaço de acolhimento repleto de histórias das tantas famílias que passaram por ali. “Este espaço representa para a comunidade Anglicana, mas também para a comunidade pelotense, grandes momentos vividos. É um lugar de acolhimento, trabalho e vivências. Ali acontecia, e certamente continuará depois do restauro, chás, eventos artísticos, encontro das abelhas (mulheres que se encontram para trocar experiências e produzir enxovais, que são doados para hospitais), oficinas de formação, ensaios musicais, enfim, é um lugar de encontros. Na enchente de 1941, abrigou mais de 100 pessoas que perderam suas casas”, explicou.
Michele afirmou ainda que a hera verde que cobre a Catedral e a torna tão conhecida será preservada de forma cuidadosa, mantendo sua identidade. “Os serviços serão executados por uma equipe especializada em restauro, seguindo rigorosamente as premissas de conservação do patrimônio histórico. Cada etapa será conduzida com extremo cuidado, garantindo a preservação dos elementos originais da edificação. Durante as intervenções, serão adotadas diversas medidas de proteção para evitar danos a pisos, ornamentos e demais detalhes arquitetônicos que compõem a identidade da Catedral”.

A emoção em ver a Catedral – um dos principais cartão-postais da cidade – sendo restaurada é imensa para a bispa Meriglei. Segundo ela, a reforma também é uma maneira de evangelizar e conectar histórias. “O que mais me emociona é que hoje posso ver um sonho ser realizado, a Catedral do Redentor não é só dos Anglicanos; é um patrimônio de todos nós. Hoje já sentimos uma alegria das pessoas que passam e percebem a movimentação do restauro. Cada um que chega conta uma história, uma lembrança, e a colcha de retalhos deste patrimônio vai tecendo mais vida.”, contou.
O projeto, que está sendo realizado com recursos do Pró-Cultura RS, por meio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do Estado, possui investimento Via LIC/RS. O prédio da Exedra, com aporte de R$ R$ 1.677.456,27, é realizado na presente edição com recursos FAC, já na Lei Rouanet, o prédio da Catedral tem um montante de R$ 4.274.722,00 via Programa Rouanet Emergencial RS, tendo a Petrobras como patrocinadora. Assim como busca-se recursos do Ministério Público Estadual, para intervenções como forros ou madeiramento. Sendo, desta maneira, dividido por etapas, devido ao limite de valores de cada projeto de lei.



