
Pelotas e região deixam de ser apenas cenário e tornam-se experiência na mostra “Através Ando”, do artista Alexandre Lettnin, com curadoria da designer Paula Weber. A exposição, aberta para visitação gratuita na última quinta-feira (26), no RoofTop Vaguarda, reúne cerca de 60 obras produzidas ao longo de três décadas e propõe ao público um exercício de atravessamento, de ver a cidade com outros olhos, a partir do corpo, do movimento e da vivência cotidiana.
Instalada no 12º andar do Edifício Vanguarda — espaço que se define como terraço cultural ao integrar gastronomia, livraria, eventos e arte —, a mostra apresenta xilogravuras e desenhos que percorrem fachadas antigas, cenas urbanas, o campo, a periferia e corpos em deslocamento, sem estabelecer hierarquias entre os territórios.
Segundo a curadora, a exposição nasceu do desejo de aproximar o público da arte de forma mais orgânica. “A gente não é uma galeria oficial. A gente é um pouco de tudo, um terraço cultural. Essa é a segunda mostra no RoofTop, a gente teve um apoio bem bacana dos artistas que vieram aqui antes e agora a gente vem com mais gás. Quando convidamos o Alexandre, eu já conhecia ele, já conhecia a produção dele”, afirma. Ela explica que a seleção das obras foi construída a partir de uma narrativa pensada em diálogo com o artista, valorizando a relação entre território e experiência.
Paula destaca que o conceito da mostra parte da ideia de atravessar como permanência em movimento. “Atravessar, neste contexto, não é chegar a um destino. É ver através do território e andar por dentro dele”, resume. O processo de curadoria levou cerca de dois meses, entre visitas ao ateliê e conversas para definir o conjunto exposto.
Para ela, o principal “atravessamento” da mostra é dar espaço à arte em um ambiente cotidiano. “Aproximar as pessoas que vêm aqui para jantar ou por conta da livraria. Se a gente conseguir fazer isso com uma pessoa, já é maravilhoso”, avalia. A exposição deve permanecer no local por, no mínimo, três meses.

Filosofia em movimento
O tema da mostra foi proposto pela curadora, mas dialoga diretamente com a trajetória e os estudos do artista. Lettnin explica que a ideia de “ver através do território” está ligada à necessidade de renovar o olhar sobre o lugar onde se vive. “Às vezes, tu vive num local e já olha tudo com um olhar automático. O artista tenta sempre olhar as coisas com um olhar novo, renovado”, afirma.
O pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche influencia esse processo criativo. Segundo Lettnin, Nietzsche defendia que o pensamento nasce do corpo e da experiência, e não de uma abstração distante da vida cotidiana. “Ele dizia: ‘eu só tenho ideias ao ar livre’. A filosofia dele era o aqui e agora, a partir do corpo que eu tenho”, explica o artista.
A relação entre caminhada e criação também atravessa sua produção. Para Lettnin, percorrer a cidade é parte essencial do fazer artístico. “Quando tu caminha pela cidade, exercita o corpo e a mente. Tudo que tu contempla, os cheiros, os barulhos, é com o teu corpo”, diz.

Três décadas de produção
As obras expostas não são recentes. Elas reúnem diferentes fases da trajetória do artista, formado em gravura no fim da década de 1990. Lettnin viveu por cerca de quatro anos em Paris, além de períodos de formação e trabalho em ateliês na Suíça, Espanha, Holanda e Inglaterra.
De volta ao Brasil, retomou a produção com novos referenciais técnicos e estéticos. “O que a Paula escolheu são trabalhos ao longo de 30 anos. Cada período traz um olhar diferente”, afirma.
A exposição apresenta principalmente xilogravuras e desenhos, embora o artista também trabalhe com outras técnicas, como litografia. Outro aspecto que chama atenção é a construção das molduras. Lettnin utiliza materiais reaproveitados, como madeiras e vidros de janelas, ressignificando objetos do cotidiano. Cada obra, segundo a curadora, torna-se única também pelo suporte que a envolve.




