
Com uma programação focada na valorização da identidade histórica do município, a VII Semana Cultural da Catedral de Pelotas ocorre entre 22 e 29 de novembro. A semana, que conta com oficinas, rodas de conversas, atividades de educação patrimonial, entrega de obras, lançamento de campanha e espetáculo musical, tem o objetivo de compreender o passado e, assim, promover a preservação do futuro.
Fundada em 1813, inicialmente no formato de uma pequena capela, a igreja foi elevada à condição de Catedral em 1910 pelo Papa Pio X. Em agosto de 2011, o templo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Rio Grande do Sul (IPHAN), por meio da portaria nº 36/2011, a fim de garantir a preservação do patrimônio histórico, artístico, religioso e cultural, bem como sua proteção contra destruição.
De acordo com o padre Wilson Fernandes, pároco da Catedral, até 2011, todo o Rio Grande do Sul era uma única arquidiocese, e, após esse ano, Pelotas, Santa Maria e Passo fundo foram separados e designados a arquidioceses individuais. Assim, a catedral – única no mundo dedicada a São Francisco de Paula – passou também por uma geminação espiritual com a Basílica São Francisco de Paula, localizada na Itália.
Reforçando a fé e a cultura
Para Simone Neutzling, arquiteta fundadora da Perene Patrimônio Cultural, a semana se consolida como um diferencial em relação a outras obras trabalhadas por ela e sua equipe. “A obra já é a essência e a base do projeto, mas o diferencial é essa programação, onde a gente consegue transmitir à comunidade as ações de capacitação e formação, as ações culturais. A gente destaca a catedral como sendo um patrimônio de todos, que vai além da arquitetura como uma obra de arte, um lugar de memória e de história, que tem um significado para toda a região”, enfatizou.
A secretária de Cultura Carmen Vera Roig ressalta que a Catedral é mais que obra física, e com a participação dos pelotenses obtém a valorização necessária para a preservação. “Estamos muito felizes por ter essa parceria com a sociedade, que vem através da Perene que realiza essa obra de restauro, e que tem toda uma preocupação de expandir o seu trabalho para além de uma obra física, com educação patrimonial e participação da comunidade. Só assim vamos conseguir essa valorização do patrimônio”, afirmou.
Educar é preservar
As atividades ocorrem para que o significado do patrimônio seja difundido e, assim, os pelotenses se aproximem e se sintam pertencentes de seu bem cultural. Os alunos do sétimo ano do Colégio São José, que já vinham executando atividades patrimoniais na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, quando ainda estavam no sexto ano, puderam conhecer mais do patrimônio por meio da continuidade no projeto.
Segundo a professora de artes da escola, Marta Garcia, a experiência para a turma, a qual desenvolveu os desenhos das cúpulas, foi repleta de descobertas e muito produtiva. “A experiência foi maravilhosa, eu acredito que todos tenham gostado, porque saimos da sala de aula, nós fomos para a sala de arte e construímos. Eu tenho certeza que eles têm gostado bastante, e acho muito importante a educação patrimonial. Como professora de arte isso é muito forte”, contou.

Aluna da instituição, Luzia dos Santos, de 12 anos, destacou a importância do trabalho realizado pela sua turma para que uma identidade cultural seja construída: “Eu achei uma atividade muito interessante e também que nos ajudou a reconhecer toda a importância dos patrimônios, auxilia a realmente construir uma identidade cultural da cidade. Algo importante de preservar para as próximas gerações”.
Para a arqueóloga Marta Bonow, da Alma Patrimônio, esse tipo de educação assessora no sentimento de fazer parte e, assim, uma identificação é moldada. “A educação patrimonial vem justamente mostrar que um patrimônio cultural, um bem, pode ser de todas as pessoas. E com isso a gente faz com que preservem e se reconheçam com esse bem. E não é uma coisa forçada, verticalizada de cima para baixo. Vamos criando, entendendo as demandas e vendo se elas se conectam com esse patrimônio”, explicou Marta.
A arqueóloga ainda explica que as atividades da semana contribuem para um maior entendimento acerca da possibilidade de aproximações com esse símbolo de memória e todos os outros da cidade. Segundo ela, por diversas vezes, a sociedade entende que um patrimônio cultural é um bem importante para a cidade, assim como bens imateriais – caso do doce de Pelotas, por exemplo – mas ao falar dos bens materiais e da catedral, existem pessoas que não se sentem pertencentes, por ser uma entidade católica.
Parte da coordenação da igreja, Cristina Osório reforça que esta edição da semana cultural está sendo um diferencial para a comunidade. “Essa semana, principalmente, está bem variada e apropriando a comunidade do que é nosso aqui da catedral. É uma interação importante, não só para a catedral como templo religioso, mas sim, como patrimônio histórico. Isso é de toda a cidade, independentemente de ser católica ou não”, confirmou.

Um sinal visível da fé
Integrando as atividades, as obras da Via Sacra – vindas da Itália há mais de 100 anos – restauradas pelos alunos do Laboratório Aberto de Conservação e Restauração de Pinturas (LACORPI) do curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais da Universidade Federal de Pelotas, foram entregues nessa terça-feira (25). Ao utilizar a técnica do pontilhismo para a integração pictórica e, após isso, um adesivo para fixação, as 14 pinturas foram trabalhadas ao longo de 2023 por diversas turmas do curso.
Segundo Andrea Bachettini, coordenadora do projeto da Via Sacra, os alunos se dividiam para que cada etapa do processo fosse executada da melhor forma possível. “Cada aluno fica responsável por um passo. Às vezes eram duplas, porque tinham a moldura também para ser restaurada. Todas apresentavam sujeira e bastante pó. Nós fizemos uma breve higienização, e toda a parte de documentação, que sempre realizamos para ter esse registro antes da intervenção”, explicou.
Andrea destacou que, ao examinar a obra, a equipe reconheceu alguns elementos importantes e pôde identificar qual a técnica utilizada pelo artista italiano Luigi Morgari no momento de sua criação. “O que chamava a atenção era justamente a pincelada do artista por cima dessa pintura muito lisa. Então, aí que a gente começou a desconfiar que era uma imagem impressa sobre tecido. É uma técnica peculiar, porque usava da tinta óleo para fazer essa estampagem, depois era retocada pelo artista para dar mais luminosidade. Elas tiveram um brilho diferente depois que a gente tirou essa camada de tinta espessa que cobria a folha de ouro original, que estava praticamente intacta, bem preservada”, relatou a professora.
O pároco Fernandes afirma que a recuperação da obra resgata também a memória e a história de Pelotas, já que a fé necessita de sinais visíveis para ser plenamente vivenciada. “Restaurar a Via Sacra da nossa Catedral é restaurar a memória, a história dessa cidade, mas ao mesmo tempo, também restaurar a nossa fé. Nós precisamos de sinais visíveis, a fé também necessita desses marcos e a Via Sacra é o ponto mais alto dela”, explicou. Além disso, o padre ressaltou que, durante a quaresma – período de 40 dias que antecede a Páscoa – os quadros auxiliarão a percorrer o mistério da salvação.
Parcerias que edificam
Em uma parceria com a Livraria Vanguarda, a catedral recebeu um significativo apoio para que suas melhorias perdurem. Mais de 900 exemplares do livro “Pinceladas no Tempo: Pinturas Murais de Aldo Locatelli na Catedral São Francisco de Paula”, da autora Maria Alice Castilho, foram doados pela livraria, sendo que 100% do valor será destinado à restauração dos bancos da igreja.
Fernandes destaca que o momento é de agradecimento e de convite à população a participar da campanha. “O livro é de uma beleza extraordinária, porque ele relata todo esse patrimônio artístico, cultural, histórico, religioso que é a nossa catedral. Estamos muito agradecidos a Deus, para nós é um motivo de muita alegria, porque toda a renda será revertida em prol do restauro dos bancos. Eles estão atacados pelo cupim, e não podemos deixar que esse cupim desça para o piso, que terminou de ser completamente restaurado. Então é um grande desafio e eu convido a toda a comunidade pelotense a unir-se conosco nesse projeto”, salientou.
Para a escritora da obra, a realização de ver seu livro – escrito em 2004 e inspirado em seu Trabalho de Conclusão de Curso – como forma de manter a memória da catedral viva, é de grande felicidade: “Hoje é um dia de glória, porque é um sonho realizado. Porque ainda tem muito que ser feito aqui na catedral. Na verdade, eu não escrevi um livro para contar uma história, eu fiz um trabalho científico que agora está sendo valorizado. A Simone aumentou a ressonância do meu grito e tá ecoando o meu sonho pela conservação”, contou Maria Alice.

O livro pode ser adquirido pelo número (53) 3027-9215, WhatsApp da Livraria Vanguarda. Cada exemplar custa R$50,00, com frete fixo de R$10,00 para todo o Brasil.
Futuro e conservação
A recuperação da fachada está sendo finalizada e deve ser entregue antes do Natal deste ano, segundo Simone. Ademais, de acordo com o pároco, o restauro da parte de fora da cúpula da igreja será realizado pela primeira vez em 2026.



