Fé, tradição e ocupação do espaço público marcam celebração de 2 de fevereiro em Pelotas

Há mais de 60 anos, a celebração ocupa espaços públicos na cidade e move milhares de devotos (Foto: Martha Cristina Melo)

Na última segunda-feira (2), mais de 5 mil fiéis se reuniram às margens da Lagoa dos Patos para um momento histórico no município de Pelotas: o encontro entre as imagens de Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes. Há mais de 60 anos, a celebração ocupa espaços públicos na cidade e move milhares de devotos durante uma programação que, tradicionalmente, promove o encontro simbólico no Balneário dos Prazeres.

Para a devota e integrante da Federação Sul-Riograndense de Umbanda, Rosiane Madruga, o evento é uma oportunidade de agradecer. “Essa data é demonstração de fé à grande mãe, que nos abençoa e ampara. Sempre que precisamos, nós pedimos. Mas não é só pedir, temos que agradecer”, afirmou. Ela, quem há mais de dez anos presencia o encontro entre imagens, entende que a celebração é importante para ambas as fés. “Não é só pela orixá. É muito importante essa unificação, porque Deus é um só, por vários caminhos”.

O momento também atravessa famílias: desde muito pequena, Lorrana Moura visita a Gruta de Iemanjá e assiste ao encontro com sua mãe, Izamara Moura. Em 2026, a bebê Pietra, filha de Lorrana, também teve a oportunidade de participar. “Vir até aqui significa tudo. Nós fazemos promessa e alcançamos, graças a Iemanjá e a Deus. Essa é a nossa fé. Ela [Iemanjá] nos protege”, afirmou Izamara.

Uma história de fé e tradição

A festividade de matriz africana acontece há 68 anos em Pelotas, e tem origem no diálogo histórico entre orixás e santas católicas. De acordo com o presidente do Conselho Municipal do Povo de Terreiro (CMPTERPEL), Rodrigo Domingues, a associação entre Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes é resultado do sincretismo religioso construído como forma de resistência pelo povo escravizado. “Foi uma maneira de preservar a fé, a ancestralidade e a identidade espiritual diante da repressão religiosa”, explicou.

No âmbito católico, a devoção a Nossa Senhora dos Navegantes em Pelotas é anterior. A festa teve início em 1932 e chega, em 2026, à sua 94ª edição. Conforme relata Rosana Damin, responsável pela organização da celebração, as primeiras comemorações estavam entre as maiores festas populares da cidade, especialmente na região portuária. Ela destaca que o evento reunia procissões fluviais e terrestres, missa campal e atividades culturais abertas à comunidade.

Atualmente, o formato da festividade é diferente, mas mantém a procissão pelas águas. A imagem de Nossa Senhora dos Navegantes parte da Igreja da Colônia Z3 e segue pela Lagoa e Canal São Gonçalo, com destino ao Quadrado. “Este ano celebramos Maria, que intercede por nosso bem-estar físico e espiritual, mantendo-nos perseverantes na fé, mesmo nas grandes tempestades da vida”, explicou Rosana.

Para o presidente da Federação Sul-Riograndense de Umbanda, Joabe Luis Bohns da Silva, que está à frente da entidade há 26 anos, a festividade exige organização contínua e articulação com diferentes setores. “O nosso papel é fazer com que a festa aconteça e que essa homenagem saia da melhor forma possível”, afirmou. Ele também apontou dificuldades relacionadas ao apoio do poder público, especialmente no que diz respeito a investimentos em cultura e infraestrutura.

A ocupação dos espaços públicos é destacada pelas lideranças religiosas como um dos principais significados do evento. Para Rodrigo Domingues, garantir a realização da festividade é assegurar o direito constitucional à liberdade religiosa. Ele ressalta que o poder público deve atuar com apoio logístico, segurança, organização do trânsito e limpeza dos locais, sem privilegiar crenças específicas. “Não é favorecer uma religião, mas assegurar que manifestações culturais e religiosas legítimas possam acontecer com dignidade, segurança e respeito ”, afirmou.

Fé que atravessa gerações

A presença de crianças e adolescentes é um dos elementos que garantem a continuidade da celebração. O coordenador geral do grupo Amigos da Umbanda da Princesa do Sul (GAUPS), Carlos Alberto Pereira, participa das procissões desde a infância e acompanha de perto o envolvimento das novas gerações nas atividades religiosas. “Os jovens são o futuro da nossa religião. Sem eles, com certeza não teríamos continuação”, reforçou Carlos.

Fundado em 2014, o GAUPS é composto por integrantes de diferentes casas de Umbanda, Nação e Quimbanda e atua tanto na organização quanto no resgate de eventos religiosos no município. De acordo com Carlos, o grupo também contribui na mobilização do povo de terreiro para participação nas celebrações e no acompanhamento da programação oficial.

Realizado anualmente em 2 de fevereiro, o encontro entre as imagens de Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes integra o calendário religioso e cultural de Pelotas. A participação de diferentes gerações e expressões de fé mantém viva uma tradição construída ao longo de décadas nas águas e nos espaços públicos da cidade.