GT da Salvaguarda da Tradição Doceira se reúne durante a III Festa do Doce Colonial de Morro Redondo

Festa do Doce Colonial ocorreu no último domingo (16) (Foto: Diones Forlan/JTR)

*Colaboração de Adriane Lobo

Durante a realização da III Festa do Doce Colonial em Morro Redondo, no último domingo (16), o Grupo de Trabalho (GT) da Salvaguarda da Tradição Doceira “Saboreie a Colônia” se reuniu para discutir assuntos relativos à etapa da salvaguarda, que procede o Registro do Patrimônio Imaterial do Saber Fazer Doceiro da região de Pelotas e Antiga Pelotas, concedido pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2018.

O GT é formado por pessoas das instituições que se envolveram no processo de salvaguarda, como a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que além da Antropologia, tem representantes da Faculdade de Museologia. Além disso, Embrapa Clima Temperado, Emater-RS/Ascar, Prefeitura, através da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Turismo, a Associação de Empreendedores do Turismo do Morro Redondo (AETMORE) e o Museu Histórico também compõem o GT. Além das instituições, doceiros tradicionais também dão sua fundamental contribuição ao grupo.

O processo de registro partiu da elaboração do “Inventário Nacional de Referências Culturais: produção de doces tradicionais pelotense”, fruto de uma pesquisa realizada entre 2006 e 2008 pela equipe da Prof. Dra. Flávia Maria Silva Riet, da Faculdade de Antropologia da UFPel. A pesquisa apontou que existem duas vertentes da tradição doceira na região: uma de doces finos ou de bandeja ou ainda, conventais, que são os doces que eram feitos das gemas de ovos (que sobravam do processo de engomagem de roupas e cobertas de mesas) para serem servidos em recepções e festas da sociedade; e os doces de frutas ou de tacho, também chamados coloniais, que eram feitos pelas famílias em propriedades rurais onde a produção de frutas era farta em uma determinada época, mas não era em outra, sendo assim uma forma de conservação.

Essa tradição praticada por toda família, pois, depois que começa a mexer o tacho não pode parar, começou em nossas colônias, o que conferiu toda a riqueza da tradição e acabou sendo definida como Pelotas e Antiga Pelotas, considerando também os municípios de Capão do Leão, Morro Redondo, Arroio do Padre e Turuçu. Esse inventário foi submetido ao Conselho do Iphan em 2018, o qual entendeu pertinente a concessão do Registro, no Livro dos Saberes, do Saber Fazer Doceiro Tradicional, à região referida.

A conquista desse registro aponta para a construção do Plano de Salvaguarda que recebe revisão de cinco em cinco anos, onde deve ser demonstrado que a comunidade está preservando a tradição através de ações concretas. A criação do GT “Saboreie a Colônia” tem o objetivo de agregar forças para a construção e execução do Plano de Salvaguarda. Por isso, a reunião se deu dentro da III Festa do Doce Colonial, o que por si só é uma ação de Salvaguarda da Tradição.

O doutorando em Antropologia da UFPel, Daniel Vaz Lima, esclareceu sobre o trabalho. Conforme ele, o GT é, de acordo com a metodologia do Iphan, um coletivo deliberativo responsável pelo planejamento e elaboração de ações articuladas em proposições a curto, médio e longo prazos conformando um plano. É uma articulação de instituições e detentores da tradição com o objetivo de ampliar e atualizar as leituras produzidas pelo inventário, registrando memórias e narrativas, bem como promovendo ações propositivas de proteção e salvaguarda. Também foi registrado pelos presentes a necessidade de articulação com os demais municípios da região que compõem a Antiga Pelotas, para que também desenvolvam ações de salvaguarda, visto que o Registro se refere à região da tradição doceira.

Outro debate que se desenvolveu foi no sentido de trabalhar para fortalecer todas as etnias que contribuíram ao longo do tempo com a tradição, como as várias origens europeias, os negros, os índios e os ciganos, que tiveram um importante papel histórico na constituição do saber fazer doceiro. É muito importante que resgatemos essa história respeitando todos os atores que a construíram, disse a extensionista rural Adriane Lobo, que participa do GT pelo escritório municipal da Emater/RS-Ascar de Morro Redondo.

O professor Diego Lemos Ribeiro, da Museologia, ressalta a importância da auscultação dos doceiros tradicionais, e também informa que a cultura é viva e dinâmica, estando sempre em transformação, questões para as quais o GT também deve estar atento.

Na reunião ficou definido um processo de desenvolvimento de uma marca para o GT, bem como para os doces que são fabricados dentro da tradição doceira, que possa informar ao consumidor o registro concedido pelo Iphan, o que tem apoio do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Produção em Antropologia da Imagem e do Som (Leppais) da UFPel.

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