Sistema reduziu carrapato-do-boi em 82% sem usar químicos

No Lone Tick, muda-se o boi de pasto, separando o animal do carrapato, e alternando consecutivamente o local de pastagem do rebanho. (Foto: Sérgio Bender)

Um estudo da Embrapa realizou o controle de carrapatos em bovinos sem o uso de produtos químicos, apenas estratégias de manejo, com os animais em pastejo em diferentes regiões. Chamado de Lone Tick, o sistema obteve resultados iniciais de 82% de redução da população de parasitas nos rebanhos. O trabalho está sendo desenvolvido nos biomas Pampa e Cerrado.

No Pampa, o trabalho foi iniciado no segundo semestre de 2021 e têm dado motivação para os produtores. Nos primeiros resultados foi registrada redução de mais da metade da população de carrapatos. “Ainda não podemos falar em percentual de redução da população porque estamos no início do projeto. Teremos mais certeza quando fizermos pelo menos uma avaliação sazonal. Mesmo assim, acredito que o trabalho está indo muito bem, pois os carrapatos adultos sobre os animais diminuíram”, relata o professor Rodrigo Cunha, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que realiza as coletas para avaliação do estado de saúde dos animais, por meio de análises realizadas no laboratório especializado da Faculdade.

A experiência no Sul do Brasil
O projeto está sendo desenvolvido na região de Pelotas, na Embrapa Clima Temperado. “Escolhemos o Rio Grande do Sul por dois fatores: a forte vocação para pecuária de corte e de leite e a possibilidade de avaliar o estudo em condições climáticas bem distintas da região do Cerrado”, justifica o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, no Cerrado, Renato Andreotti.

A Fazenda Martimar
A unidade de pesquisa experimental é a Fazenda Martimar, localizada em Canguçu, de propriedade de Márcia Duarte, com 710 hectares. “Ao se alcançar resultados positivos com este novo sistema de manejo de controle do carrapato, abrimos uma alternativa de migração para uma pecuária orgânica, o que será ampliado para toda a produção pecuária da fazenda, sendo viável a eliminação do controle químico no carrapato, ou ainda, diminuir a infestação pelo parasita”, conta a produtora.

O estudo do sistema Lone Tick na propriedade segue o mesmo formato da unidade de pesquisas na região dos Cerrados ao utilizar a mesma medida de área e estratégias de manejo dos animais. A diferença no Sul está na avaliação de 15 animais, vacas de cria, com uso de campo nativo com introdução de azevém nos piquetes rotacionados, sem adubação química. “Não tivemos nenhuma mudança de planos para instalação da tecnologia de manejo em nossa propriedade rural, conseguimos com êxito fazer todo o planejamento da área”, comentou.

Um dos relatos feito pela produtora rural foi a constatação de que animais ‘carrapateados’ têm perda significativa de peso. Assim, além do foco do projeto buscar a eliminação ou a redução ao máximo de parasitas sem produtos químicos, a nutrição dos bovinos precisa ser satisfatória.

Segundo o extensionista da Emater/RS-Ascar, James Pureza, foi feita uma coleta de campo nativo três meses antes de introduzir os animais na área rotacionada do Projeto. Um dos pontos a ser verificado pelo estudo é o ajuste da carga de animais sob a área de pastejo nos piquetes experimentais. “Iniciamos numa área de pastejo de campo nativo que produziria um volume para manter os animais durante toda a duração do Projeto, tendo alcançado cerca de 3,6 mil kg de matéria verde e 36% de matéria seca, supomos que o rebanho consumirá entre 8% e 10% do peso vivo/animal, mas teremos que ir ajustando ao longo do desenvolvimento do estudo”, disse.

Ele explica que o trabalho busca o controle do carrapato, mas a condição nutricional dos animais infestados dá a eles condições de enfrentarem melhor o seu estado geral de saúde. Assim, realizar o planejamento de pastagens com antecedência é um fator importante, pois o projeto utiliza o manejo rotacionado, que dá ao gado um melhor aproveitamento da área de pastejo, mantendo sempre com níveis de nutrição satisfatórios. Resultados promissores
Os resultados iniciais foram colhidos na primeira semana de setembro, com a estratégia de manejo mostrando-se promissora. “Encontramos pouquíssimos carrapatos, sem vermes e sem agentes de TPB”, informa o professor Rodrigo Cunha.

A técnica de laboratório Jaqueline Cavalcante Barros, da Embrapa Gado de Corte, responsável pela catalogação de dados do Projeto, disse que na contagem de carrapatos em agosto, a média foi de 93 parasitas por animal. Após a instalação do projeto, a primeira contagem apresentou 37 carrapatos por animal, uma boa indicação para redução inicial da aplicação da tecnologia.

O pesquisador Andreotti afirma que os resultados preliminares de instalação da tecnologia são promissores. “Ainda precisamos experimentar a tecnologia nos próximos meses de verão no Sul para conhecer a pressão da temperatura e umidade da estação para verificar os desafios ambientais para se fazer uma avaliação mais madura do sistema nesta região, analisando o estado de equilíbrio entre aspectos nutricionais dos animais nos piquetes e a carga parasitária”, anuncia.

Estratégias do sistema
A presença do carrapato nos animais faz com que seus agentes causem o aparecimento da doença conhecida como tristeza parasitária bovina (TPB) causada pelos agentes: Babesia bovis, Babesia bigemina e Anaplasma marginale, o que pode levar os animais à morte. Caso não seja adotado um controle pelo produtor, este sofrerá grandes prejuízos.

“Não se tem registros exatos de mortes de animais por TPB no País. É importante lembrar que no Sul essa doença possui uma gravidade maior por ser região de instabilidade enzoótica, que significa que os animais estão vulneráveis após o inverno, levando a um risco de morte maior”, esclarece Andreotti ressaltando a preocupação com a qualidade dos alimentos fornecidos pela bovinocultura.

Um agravante do problema vem do melhoramento genético. Os produtores de gado de corte utilizam cruzamentos com raças mais produtivas para aumentar a produtividade do seu sistema por meio da precocidade, qualidade da carne, entre outros fatores, mas essas raças são mais sensíveis ao carrapato. “O rebanho acaba ficando refém das infestações por carrapatos, porque foi produzida uma nova definição genética dessa população de bovinos cruzados em sistemas de produção. Estima-se que haja perda de um grama de carne por carrapato ao longo do ano, por isso se justifica economicamente a necessidade do controle”, explica Andreotti.

Com o gado de leite o problema se repete. Animais mais produtivos costumam também ser mais sensíveis ao carrapato, e isso provoca uma perda anual de leite de 95 quilos por animal, principalmente com a raça holandesa e em sistema de produção familiar, acarretando diminuição nos lucros.

O pesquisador explica que os animais de raças europeias e seus cruzamentos são totalmente dependentes de controle do carrapato para poder expressar seu potencial genético produtivo, caso contrário, corre o risco de não produzir e perder o investimento realizado no rebanho devido à mortalidade causada pela TPB.

Controle estratégico do carrapato
A cadeia produtiva de bovinos usa variadas formas para controle do carrapato, como o sistema tradicional, no qual o produtor define o produto acaricida que vai usar no balcão da loja de produtos veterinários, até sistemas sofisticados com o uso integrado de práticas de controle – chamado controle estratégico do carrapato – buscando impactos mínimos. O primeiro é o mais usual, mas, tem causado vários problemas para produção dos rebanhos. Segundo Andreotti, o uso intensivo de produtos químicos por dois anos consecutivos num rebanho pode gerar o desenvolvimento de resistência àquele parasita. “O carrapato precisa ser monitorado anualmente, e temos soluções tecnológicas mais eficientes”, aponta.

O controle Lone Tick
Lone tick, traduzido da língua inglesa por “carrapato solitário”, é um sistema de controle sanitário sem uso de acaricidas, ou seja, sem a realização de controle químico. “Nossa intenção é apresentar uma solução global, pois o carrapato é um problema mundial”, destaca. Ele cita a infestação de carrapatos na pecuária da Austrália, um grande mercado de produção de bovinos, passando pela África, América do Sul e América do Norte (México e Estados Unidos).

No Lone Tick, muda-se o boi de pasto, separando o animal do carrapato, e alternando consecutivamente o local de pastagem do rebanho. O pesquisador conta que o tempo de uma rodada de quatro pastagens até o retorno à área inicial é de 112 dias. Esse manejo promove um vazio forrageiro/sanitário de 84 dias, no local da pastagem inicial, período em que as larvas do carrapato ficam solitárias e morrem por falta de animais no local para se hospedar e se alimentar. “Ou seja, matamos o carrapato, sem utilizar produtos químicos”, resume.

O trabalho compreende cinco etapas: contagem de parasitas por animal, a coleta de carrapatos para verificação da sua resistência aos acaricidas, coleta de sangue dos animais para avaliação da presença dos agentes da TPB e para avaliação do estado de saúde geral do rebanho e a pesagem dos animais. Em seguida é realizada a rotação do lote de animais entre os piquetes de pastagens. A cada intervalo de troca de área é praticado o mesmo protocolo com os animais, repetindo as etapas.

O sistema foi estudado primeiro de forma experimental na cidade de Campo Grande (MS), região do Cerrado onde durante um ano, um grupo de 37 animais desmamados machos da raça Senepol, com infestação natural de carrapatos, foram divididos em dois grupos, de 21 e 16 animais respectivamente, sendo feita a rotação de pastagem com intervalo de 28 dias e sem a utilização de acaricidas. A área, de 32 hectares, foi dividida em quatro piquetes de oito hectares, com pastagem de Brachiaria brizanta, vr. Marandu.

O primeiro lote de animais foi introduzido na pastagem no início do experimento e os animais do segundo lote, após seis meses. Em cada intervalo foi contabilizada a quantidade de carrapatos nos animais. A média inicial de 26,2 carrapatos no primeiro mês caiu para 1,5 carrapato aos 56 dias. O resultado se repetiu e manteve um baixo número de carrapatos nos animais sem uso de acaricidas até o fim do experimento.

O cientista conta que a manutenção de uma baixa contagem de carrapatos nos animais é desejável para a manutenção da estabilidade enzoótica dos agentes infecciosos responsáveis pela TPB, ou seja, isto significa que os animais estão protegidos naturalmente contra a doença em função de estarem em contato permanente com baixas quantidades de carrapatos. “Com base nos resultados demonstrados, concluímos que a rotação com 84 dias de vedação dos piquetes foi efetiva no controle do carrapato sem a utilização de carrapaticidas, sendo possível, nas condições do bioma Cerrado, criar raças mais produtivas e com custo menor no controle do parasita agregando valor na cadeia produtiva”, salientou Andreotti.

Além disso, o rebanho experimental obteve um ganho de peso médio diário de 0,425 gramas durante a pesquisa. Na contagem de carrapatos, o primeiro lote de animais alcançou uma média de 6,2 carrapatos por animal e o segundo lote, 10,36 indivíduos, sem a utilização de acaricidas durante o experimento.

O sucesso do sistema Lone Tick, de acordo com o pesquisador, é porque o carrapato-do-boi completa o ciclo de vida no hospedeiro em 21 dias, com o ingurgitamento da fêmea e sua queda ao solo e consequente postura de três mil ovos, em média, iniciando a fase não parasitária.

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