O crescimento das mulheres na produção de tabaco em Canguçu

A agricultora Jamile Pieper planta fumo há cerca de três anos na localidade de Canguçu Velho, a 7 km da zona urbana. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Canguçu é considerado pelo governo Federal como a Capital Nacional da Agricultura Familiar e uma das potências econômicas do município é a fumicultura. De acordo com a Secretaria Municipal de Agricultura, Canguçu possui cerca de 4 mil produtores de tabaco, que produzem em média mais de 20 mil toneladas da planta por ano, o que colabora para que a produção seja um dos pilares da economia local.

Além disso, os produtores canguçuenses podem contar com programas de subsídio com o intuito de fortalecer a produção tabageira. A força dessa produção pode ser vista no volume alcançado nas últimas safras de 2020/2021 e 2022/2023, nas quais Canguçu foi o município que mais produziu tabaco em todo o Brasil. Só no ano passado, a produção tabagista no município ultrapassou as 21 toneladas.

Mulheres na fumicultura

Nos últimos anos, a crescente participação das mulheres na produção fumageira tem ganhado destaque no município, seja no auxílio aos produtores ou como protagonistas, desde o plantio à colheita.

O JTR conversou com uma dessas fumicultoras, Jamile Pieper, moradora da localidade de Canguçu Velho, a 7 km da zona urbana. A produtora planta fumo há cerca de três anos e conta que começou por influência dos pais, que já plantavam, até que resolveu dar início à própria produção.

Quando questionada sobre a participação da mulher no cultivo do fumo, Jamile demonstrou empolgação com o assunto. “As mulheres hoje em dia participam muito mais da lavoura. A lavoura ficou até mais facilitada, digamos assim, em certos trabalhos, por exemplo, a produção de soja é completamente de maquinário. Então, as mulheres, por ter facilitado, elas estão mais presentes também. Na lavoura de tabaco, eu vejo as mulheres, principalmente aqui, elas fazem de tudo”.

Para a agricultora, a evolução da produção por meio das máquinas colaborou para o aumento do número de mulheres em diversas atividades agrícolas. “Agora, com a estufa elétrica, tudo está mais fácil, então a mulher participa bem mais […] Vai evoluindo a propriedade, vai evoluindo as coisas, e por isso que a participação aumenta mais ainda”, ressalta.

No entanto, a produtora rural comenta que não conhece um programa ou ação de fomento específico às mulheres fumicultoras. “Em relação às mulheres, o incentivo, tipo um projeto, alguma coisa assim, não existe”. Além dos obstáculos em questão de gênero, existem ainda os percalços que surgem para todos produtores, que envolvem a comercialização do produto. “Às vezes, na comercialização, que nem foi esse ano, tu não sabe se tu vai vender ou se tu não vai vender, e que preço tu vai ganhar, porque em uma semana pode subir 2, 3 reais. Ás vezes tem aquele medo de que vá baixar o preço, porque já aconteceu isso.

Então, a venda é sempre uma parte complicada, tu nunca sabe o que vai acontecer […] Tu te organiza pra plantar, se organiza o ano inteiro, mas não sabe o que esperar. Mas, mesmo assim, o produtor precisa ser forte, tem que ter uma cabeça boa e tem que tá sempre motivado, pensando que vai colher bem, que tu vai vender bem, que tu vai ter uma safra boa”, sublinhou a agricultora.

No interior do município, é muito comum que as filhas de produtores rurais tenham contato com a lavoura desde muito pequenas – experiência que a Jamile teve desde sua infância. E é esse contato que, muitas vezes, estimula as mulheres a quererem continuar na área da agricultura. Para isso, Jamile frisa que o melhor é procurar suporte. “Eu acho que as formas de incentivar a mulher a continuar hoje em dia está mais facilitado. Por exemplo, em relação a maquinários, a produção está mais facilitada. Eu acho que procurar ajuda e se manter e, sabe, serviço na lavoura tem que encarar. Então, fácil não é e nada é fácil, né?”

A produtora rural destaca ainda as qualidades femininas para enfrentar os desafios que possam surgir no trabalho. “As mulheres, quando elas querem, elas fazem. Então, as mulheres são pessoas fortes […] Não importa se é serviço difícil ou o quê, elas aprendem fácil”.

Em relação à economia, a fumicultora comenta que se impressiona com o grande impacto da produção no desenvolvimento do município. Ela cita que se na colônia os produtores rurais tiverem um ano ruim, abaixo do esperado, a zona urbana em si sofrerá esse impacto uma vez que a porcentagem de agricultores que movimentam o comércio da cidade é, em sua grande maioria, do interior. “Se o fumo deu, a cidade vai em frente. Agora, se o fumo passou mal, se as compras foram ruins, então a gente deixa de movimentar mais a cidade. Porque tem aquele momento dos produtores quererem trocar imóveis, por exemplo, e se for um ano ruim, tu não troca. Ou seja, tu não compra, e o movimento no comércio da cidade vai ser menor”.

Sobre a última safra, a agricultora comenta que acredita ter sido um bom ano e que a produção foi valorizada. “Se conseguiu produzir e o tabaco foi valorizado. E sso aconteceu principalmente nas vendas, a gente viu que a procura foi maior e o preço foi bem pago. Então, quem conseguiu aguardar, pegou um preço bom”.

Assim como Jamile, outras tantas canguçuenses possuem suas próprias produções, contribuindo com o desenvolvimento econômico do município. A crescente participação das mulheres na fumicultura pode-se dizer que é um reflexo da adaptação e evolução do setor agrícola no geral.

Histórias como a de Jamile trazem à tona tanto os desafios quanto as conquistas das mulheres no campo e fortalecem a importância da luta por políticas públicas e programas de apoio direcionados às produtoras rurais.

A inclusão feminina, portanto, não só diversifica a mão de obra na produção tabagista como também fortalece o meio rural. À medida que mais mulheres assumem papéis ativos na agricultura, Canguçu se consolida não apenas como um líder na produção de tabaco, mas também como um município que demonstra evolução, crescimento e que busca equidade também no campo.

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