Estiagem causa prejuízo milionário e desabastecimento na região

Estiagem já promove prejuízo milionário em culturas na região. (Foto: Divulgação/Defesa Civil)

Com um início de verão sem grandes acumulados de chuvas, municípios da região já têm sentido os reflexos da estiagem na agricultura, pecuária e até mesmo na rotina do dia a dia.

Um dos exemplos onde a situação chegou ao limite é Herval. Isso porque o município decretou, no dia 20 de dezembro, situação de emergência diante das perdas nas culturas produzidas e famílias precisando do abastecimento de água.

Segundo a prefeitura do município, o prejuízo estimado por conta da estiagem gira em torno de R$ 80 milhões. As perdas se estendem nas lavouras de milho, soja, feijão e abóbora, e nas pastagens cultivadas e nativas, acarretando danos também na pecuária leiteira e de corte, principais atividades econômicas do município, que já apresentam diminuição dos índices reprodutivos. Apenas na soja, a perda calculada é de cerca de R$ 50 milhões. Além dos problemas enfrentados por aqueles que lutam para manter a produção, também há hervalenses que sequer conseguiram iniciar suas plantações e calculam um prejuízo de R$ 24 milhões.

Segundo a assessoria de comunicação da Prefeitura, a estimativa é que o acumulado médio dos últimos 60 dias tenha chegado a cerca de 35 milímetros no município, sendo que o normal, de acordo com a Defesa Civil, seria 80.

Mas a agropecuária não é o único setor que sofre com a falta de chuva em Herval. Cerca de 50 famílias já sinalizaram à prefeitura a falta de água potável. Mais de 100 famílias contam com aberturas de bebedouros para animais. Nos últimos três meses, foram realizados 18 projetos de açudagem com apoio do Consórcio Extremo Sul, que já foram entregues aos produtores. Para auxiliar na distribuição de água à população e ampliar o combate aos efeitos da estiagem, o Executivo municipal contratou um caminhão-pipa que chegou ao município na manhã de quarta-feira (4).

Estiagem também obriga moradores a receberem água em caminhões-pipa. (Foto: Divulgação/Defesa Civil)

Ainda que o pedido de reconhecimento da situação de emergência já tenha sido iniciado, Herval ainda tem executado medidas de atendimento à população e redução dos prejuízos com recursos próprios. O município e a Defesa Civil têm dialogado para acertar os detalhes do reconhecimento da situação.

Para Márcio Facin, coordenador regional da Defesa Civil, a estiagem já é um problema conhecido dos gaúchos e a situação vem sendo reiterada todos os anos. “O governo tem tomado inúmeras providências no sentido de desenvolver políticas públicas para amenizar os efeitos da escassez de água. Nós da Defesa Civil desenvolvemos a política de apoiar os municípios, tanto na resposta à estiagem como em todo o trâmite administrativo, entre o município e a União para fazer chegar todos os recursos que sejam necessários aos municípios para enfrentar esta anormalidade”, explica.

Outro município que decretou situação de emergência foi Arroio Grande, na quarta-feira (4), onde os prejuízos já superam os R$70 milhões nas culturas de soja, milho, bovinocultura de leite e de corte, segundo levantamento da Emater/RS-Ascar. O maior é na soja, com R$ 54,9 milhões. No mesmo dia, foi a vez de Pinheiro Machado, que já soma mais de R$ 52 milhões em prejuízos em milho, soja e pecuária, que se estendem também a outras culturas, além de problemas no abastecimento. Tanto a Emater quanto a Defesa Civil afirmam que o momento é de observação e acompanhamento da situação.

A expectativa é que caso não chova nos próximos dias, outros municípios também possam publicar decretos. Em todo o Rio Grande do Sul, 45 municípios estavam com processos em andamento para solicitar apoio em decorrência dos reflexos da estiagem na tarde de quinta-feira (5), segundo a Defesa Civil estadual.

Prejuízos para o agro
Edgar Nörenberg, supervisor regional da Emater, explica que a estiagem pode prejudicar, de forma permanente, algumas produções. A cultura com maior perda efetiva tem sido o feijão, porém a maior parte da produção se dá apenas para consumo próprio. A estimativa preliminar da quebra do grão fica entre 40 a 50%. Nörenberg explica que algumas plantações ainda têm chance de recuperação. “As culturas de milho e soja, assim como as pastagens, têm grande chance de recuperação se chover”, aponta.

Falta de chuvas já promove prejuízos em produções de municípios da região. (Foto: Divulgação/Defesa Civil)

O Informativo Conjuntural produzido pelo Escritório Regional da Emater/RS-Ascar de Pelotas aponta que alguns municípios da região têm relatado a ocorrência de perdas no plantio da soja, o que têm levado alguns produtores a recorrerem ao seguro agrícola e até mesmo realizarem o replantio de áreas. Mesmo nos locais onde o plantio pôde ser concluído, o desenvolvimento das lavouras está desacelerando ou paralisando em razão da falta de umidade nos solos.

Previsão para a região Sul
Conforme a meteorologista Estael Sias, da Metsul Meteorologia, este já é o terceiro ano sob influência do fenômeno La Niña, que ocorre a partir do resfriamento das águas do Oceano Pacífico e causa grande alternância na temperatura, com mais ventos do que o normal e chuva irregular. Nos próximos 10 dias deve chover muito pouco na região da Zona Sul. O cenário terá uma leve mudança no restante do mês, porém sem grandes alterações quanto à estiagem. “Na segunda metade de janeiro poderemos ter eventos de chuva forte, mas que não revertem o quadro”, aponta Estael.

Em Pelotas, nível da Barragem Santa Bárbara, atingiu 1,55 m abaixo do vertedouro. (Foto: Divulgação/Sanep)

Ainda conforme a meteorologista, o verão em geral será marcado por menos períodos de chuva. “Terá períodos de estiagem alternando com períodos menores de chuva. A segunda metade de janeiro tende a ser mais úmida que este começo do mês, com mais eventos de chuva. O começo de fevereiro também poderá ter alguns”, ressalta.

Reflexos em Pelotas
Na Princesa do Sul, a situação também está se agravando. De acordo com os índices divulgados no dia 5 de janeiro pelo Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep), o nível da Barragem Santa Bárbara, principal reservatório de abastecimento do município, está 1,55 metros abaixo do vertedouro. Um mês antes, em 5 de dezembro, o nível estava em 85 cm. “Outro reflexo negativo é o aumento da salinidade no ponto de captação de água bruta no Arroio Pelotas, que é tratada pela Estação de Tratamento de Água (ETA) Móvel e contribui para o abastecimento do Laranjal. Esse índice de salinidade, por vezes, torna a água salobra e inviabiliza o tratamento”, explica a autarquia.

Para garantir o fornecimento de água à população, o Sanep retomou o abastecimento integral do Areal e Laranjal por meio do reservatório R8. “Naturalmente, em momentos do dia que é preciso realizar essa operação, se reduz o volume de água distribuída para esses bairros para poder manter o abastecimento nos padrões de potabilidade. Diante do cenário de suspensão temporária da estação móvel e, assim, do aumento da demanda para o reservatório R8 do Areal, o Sanep também aumentou a sua frota de caminhões-pipa para reforçar o nível dos tanques na região litorânea, especialmente, na Colônia Z3 e no Balneário dos Prazeres”, detalha.

Somando à frota já utilizada, cinco caminhões extras com capacidade de 30 mil litros foram alocados para auxiliar no abastecimento. Regularmente, cerca de 420 famílias do interior recebem o abastecimento por caminhão-pipa. No entanto, o Sanep afirma que ainda é cedo para contabilizar os números específicos com relação à estiagem.

Além dos reservatórios utilizados na cidade, Pelotas também deve contar com o acréscimo hídrico decorrente da transposição das águas do Arroio Pelotas para a Barragem Santa Bárbara. A estrutura, que deve passar por testes nas próximas semanas, garantirá o aporte de mais 300 litros de água bruta por segundo no manancial.

Conforme a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, a prefeita aguarda os relatórios das perdas nas lavouras e impactos na zona rural elaborados pela Emater para tomar uma decisão a respeito de um possível decreto. Uma reunião com representantes da Emater, Sindicato Rural, Defesa Civil, Sanep e Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural estava prevista para ser realizada na quinta-feira para avaliação da situação e definição de ações. Não houve atualização até o fechamento desta edição.

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