Março Amarelo alerta para diagnóstico tardio da endometriose

A doença inflamatória ainda esbarra na velha condição de “ser apenas uma dorzinha”, mas o diagnóstico pode mostrar o contrário, atrasando o início do tratamento. (Foto: Daniela Alves/JTR)

Ocorrendo durante o chamado “Mês da Mulher”, a campanha Março Amarelo reforça o debate sobre as dificuldades da endometriose no Brasil, entre elas o diagnóstico tardio, a falta de conscientização e a naturalização da dor. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que a doença afete 10% (190 milhões) das mulheres – e pessoas com útero – em idade reprodutiva em todo o mundo. Entre as mulheres com infertilidade, de 25% a 50% têm endometriose. Atualmente, não existe cura para a inflamação e suas causas ainda não são completamente conhecidas, mas acredita- se que fatores genéticos, hormonais, imunológicos e ambientais possam estar envolvidos no seu desenvolvimento.

A doença ginecológica crônica ocorre quando um tecido semelhante ao que reveste o interior do útero passa a crescer fora dele. Esse tecido pode se implantar em órgãos da pelve, como ovários, trompas, intestino ou bexiga. A avaliação da patologia começa com uma consulta ginecológica detalhada. Exames de imagem, como ultrassonografia pélvica com preparo intestinal e ressonância magnética, podem ajudar a identificar lesões de endometriose.

A porta de entrada para o atendimento é a Atenção Primária à Saúde (APS) nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde profissionais identificam sintomas, iniciam o tratamento clínico e encaminham casos para a atenção especializada, quando necessário. Pelotas, um dos municípios referência em Saúde na Zona Sul, conta com auxílio do Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP)/Serviço Especializado de Referência à Saúde da Mulher RS (Ser Mulher RS) e do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas/Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (HE-UFPel/Ebserh) para consultas com especialistas e tratamentos.

Sintomas muitas vezes são naturalizados

A condição inflamatória ainda esbarra na velha condição de “ser apenas uma dorzinha”, mas o diagnóstico pode mostrar o contrário, atrasando o início do tratamento. A média entre o início dos sintomas e a confirmação da doença do Ministério da Saúde é de sete anos. A médica ginecologista e obstetra do HE-UFPel/Ebserh, Glaucia Carvalho, explica que a doença pode apresentar manifestações diferentes em cada paciente, o que dificulta o reconhecimento. “Cólicas leves a moderadas podem ser comuns durante a menstruação, mas dores muito intensas, que impedem atividades do dia a dia, como trabalhar ou estudar, devem ser investigadas. Esse tipo de dor pode ser um sinal de endometriose ou de outras condições ginecológicas. Em muitos casos, as mulheres convivem com a dor por anos antes de procurar ajuda especializada”, afirma.

Além de cólicas menstruais intensas, dor durante a relação sexual, dor ao evacuar ou urinar durante o período menstrual e dificuldade para engravidar, podem ocorrer fadiga, distensão abdominal e alterações intestinais. “A dor crônica, as limitações nas atividades diárias e as dificuldades relacionadas à fertilidade podem afetar o bem-estar emocional das pacientes. Por isso, o acompanhamento psicológico e o apoio familiar são importantes no tratamento”, comenta Glaucia.

De acordo com o Ministério da Saúde, a doença se manifesta de diferentes formas, dentre elas, três ocorrem com mais frequência: endometriose peritoneal superficial, com lesões menores e mais superficiais, endometriose ovariana (também chamada de endometrioma), com cistos de diferentes tamanhos, e endometriose infiltrativa profunda, com lesões muito profundas que atingem um conjunto de áreas – como a região atrás do colo uterino, a vagina, o intestino e as paredes da bexiga.

Os gargalos do diagnóstico
A coordenadora da Rede de Atenção Materno Infanto-Juvenil (Rede Alyne) em Pelotas, Regina Nogueira, aponta que investimentos humanos, técnicos e financeiros para a Saúde da Mulher precisam ser construídos, mas a criação da residência médica multiprofissional na área é um avanço. Entre os maiores desafios enfrentados pela gestão no atendimento das pacientes são o diagnóstico mais preciso com dados e o número de prestadores de serviço considerado insuficientes.

“Hoje nosso maior problema é o ultrassom transvaginal, porque temos uma fila grande e ainda não conseguimos resolver. Tomografia e outros exames de imagem conseguimos encaminhar. Nós não conseguimos monitorar o diagnóstico final porque os ambulatórios especializados não estão ligados ao sistema digital da Atenção Básica. É importante que as mulheres conheçam o próprio corpo e busquem atendimento quando perceberem que algo não está normal”, reforça Regina.

O processo de diagnóstico inclui avaliação clínica e, quando necessário, a solicitação de exames de imagem. (Foto: reprodução)

Tratamento depende de cada caso
O tratamento da endometriose pode ser iniciado mesmo sem a confirmação por exames de imagem ou cirurgia para aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida da mulher, pois o diagnóstico muitas vezes é baseado nos sintomas. A obstetra explica que o procedimento depende da idade da paciente, da intensidade dos sintomas e mais. Se não há desejo de engravidar no momento, o tratamento pode focar no controle da dor e da progressão da doença, geralmente com terapia hormonal (como anticoncepcionais combinados, progestágenos ou DIU hormonal) e/ou medicamentos para alívio dos sintomas.

Se a pessoa deseja ter filhos, a abordagem pode ser diferente. O uso de hormônios que inibem a ovulação pode não ser a melhor opção, e o tratamento pode envolver estratégias para preservar a fertilidade ou facilitar a concepção, como acompanhamento especializado, indução da ovulação ou, em alguns casos, cirurgia para remoção de focos da doença.

A dor vivida na prática
A socióloga e gestora pública, Luciana Alves, teve seu diagnóstico aos 25 anos, mas os primeiros sintomas vieram 10 anos antes. “Minha menstruação começou muito cedo, tenho 49 anos e na minha adolescência não tínhamos muita abertura para falar com nossos pais sobre as mudanças que estavam ocorrendo em nosso corpo. Meus primeiros sintomas mais evidentes começaram aos 15 anos. Mas se tornaram extremamente dolorosos, depois dos 17 e ao longo da minha vida reprodutiva”, relata.

Luciana conta que não conhecia a doença, mas foi atrás de acompanhamento profissional especialista para tratamento. “Por muitos anos minha dor foi desacreditada, seja pelas pessoas do meu ciclo social, como colegas de trabalho e até mesmo por parceiros ao longo de todo esse processo. Acho que quando começou minha vida sexual, o problema aumentou porque muitas vezes, ao invés do prazer, o que sentimos é uma dor física e emocional, o fato é que o parceiro não compreende. Hoje eu percebo que de certa forma, isso é uma violência. Onde você tem que lidar com a dor física durante todo o período menstrual e a dificuldade de ser compreendida”, narra.

Deixar de ir a aula ou fazer uma prova, sentir dor e desconforto até mesmo em ficar sentada, cancelar compromissos em função das dores, trabalhar ou faltar se sentindo muito mal, testes de medicamentos, julgamentos e ganho de peso são episódios que impactaram a vida da socióloga.

Acho que a mensagem é que as mulheres, principalmente as meninas jovens, não ignorem os sintomas. Ao sinal de dores fortes, cólicas muitos intensas, histórico familiar, procurem orientação médica e leiam a respeito, buscando informações fidedignas e apoio profissional é fundamental. Antes do meu diagnóstico, eu desconhecia o assunto. Mas estou sempre informada e procuro conversar e alertar outras mulheres a respeito”, conta Luciana.

Fatores genéticos podem influênciar
Com o conhecimento da doença, a gestora pública pôde ajudar suas sobrinhas, de 21 e 30 anos, que foram recentemente diagnosticadas com endometriose. “Quando soube das queixas delas, procurei incentivá-las a buscar informação”, contou. A mãe de Luciana alega que também tinha os mesmos sintomas. Mas por desconhecimento na época, não chegou a ser diagnosticada.

Pesquisas sobre a genética da patologia mostram que a doença pode apresentar um padrão familiar. Segundo estudos, parentes de primeiro grau – como mães e irmãs – de mulheres diagnosticadas têm entre cinco e sete vezes mais chances de desenvolver a condição. Pesquisas também apontam que, quando a endometriose ocorre em famílias, os casos podem ser mais severos e surgir mais cedo em comparação com casos esporádicos.