Interrupções e demora no restabelecimento de energia elétrica provocam transtornos e prejuízos

Moradores relatam que equipes demoram para restabelecer o fornecimento, que pode levar horas, o que promove prejuízos também para empresários e no campo. (Foto: Stéfane Costa/JTR)

Daniel Batista, Eunice Garcia, Juliana Lima e Larissa Schneid Bueno

A ocorrência de quedas no fornecimento de energia elétrica vem causando transtornos e prejuízos na região. Conforme moradores de municípios da Zona Sul do estado, os episódios acontecem mesmo quando não há vento ou chuva, em alguns casos, com intervalos de minutos. A demora no atendimento das demandas por parte da empresa responsável pela distribuição na região, a CEEE Grupo Equatorial, também é alvo de reclamações.

Em Pelotas, Renata Fonseca, moradora do Monte Bonito há 8 anos, afirma que as quedas se intensificaram em 2022. Segundo ela, antes as ocorrências eram registradas somente após chuvas fortes ou temporais. Agora, no entanto, não dependem das condições do tempo. “Em qualquer horário”, disse. Ela relata que, por vezes, há interrupções que duram de 1 a 5 minutos, o que a obrigou a adotar medidas para evitar perdas de equipamentos. “Eu protejo como posso, tirando da tomada”, indica.

Em Arroio do Padre, o produtor de tabaco Cleitir Schumacher, da localidade de Arroio do Padre 1 afirma que já passou mais de 18 horas sem energia elétrica. Segundo ele, a situação piorou há cerca de três semanas, afetando, inclusive, em sua produção. “O tabaco hoje em dia é curado em estufas de ar forçado que são tocados por ventiladores elétricos. Isso já ocorre em quase todas as propriedades […]. Nessas de ar forçado você tem que ter energia elétrica durante 24 horas por dia e quando não a tem, temos que usar o gerador”, explica.

Com a interrupção no fornecimento, é necessário comprar óleo diesel para manter o gerador em funcionamento. No episódio em que passou 18 horas sem o serviço, a estimativa é que tenha sido necessário desembolsar R$ 300. “Fora as inúmeras vezes que faltou por tempo mais curto”, lembra. Ele relata que o contato com a empresa é realizado, mas que há demora na solução.

Além da produção de tabaco, os reflexos em São Lourenço do Sul também atingem a produção leiteira de Fabrício Siefert Hörnke, morador da Harmonia, 4º Distrito. “Se caso for uma queda constante, queima os eletrônicos e os motores. Mas também causa prejuízos na leitaria, pois o leite estraga e no tabaco tem a perda a partir da amarelação até a secagem da folha”, pontua.

No 7º Distrito, Lisane Ludtke, agricultora e moradora de Pinheirinhos, conta que durante o verão a situação piora, pois se intercala com um dia de energia e o outro sem. “Meus pais são diabéticos e guardam insulina na geladeira. É sempre um transtorno para guardar a medicação por conta da falta de luz. Já perdemos fumos por três anos seguidos e ano passado o nosso gerador queimou por ficar ligado por muitas horas secando fumo na estufa”, lamenta.

Ainda no município, o presidente da Associação Comercial e Industrial e Câmara de Dirigentes Lojistas de São Lourenço do Sul (ACI/CDL), Mahmoud Amer, aponta outras situações. “Além das sucessivas quedas de energia, urge a necessidade de melhorias na comunicação do grupo com a comunidade e a logística das manutenções, que são realizadas em horários inadequados em relação ao pico das atividades econômicas”, afirma.

Em Jaguarão, os problemas com o fornecimento prejudicam também o setor de serviços. Douglas Echeverria, empresário há mais de 17 anos e proprietário de uma pizzaria contou que, no seu bairro, Kennedy, a falta de energia é constante. “Toda semana tem um ou dois dias que falta luz aqui e isso nos prejudica muito. Aqui na pizzaria, quando isso acontece, nos prejudica no uso do micro-ondas, na visualização das pizzas no forno e uso do telefone fixo para realizar os pedidos, ou seja, em dia que falta luz, não podemos trabalhar”, aponta. A ação já também já causou outros prejuízos, como a queima de dois aparelhos de televisão.

O empresário Ricardo Martins, de Pedras Altas, relata que oscilações na tensão e quedas bruscas têm sido frequentes, com perdas de eletrodomésticos e problemas em equipamentos de informática. “Não tem condições de trabalhar por que os equipamentos não suportam as oscilações e começam a dar erro. A Equatorial prometeu resolver, mas até agora o consumidor continua sofrendo as consequências de um serviço de péssima qualidade pelo qual pagamos um valor alto”.

A situação é semelhante em Pinheiro Machado. Cristian Wagner, proprietário da empresa Playgames Informática, aponta impactos no seu trabalho. “Infelizmente, quase toda a semana em horários aleatórios temos falta de luz o que me impede de trabalhar”. Ele conta que a empresa possui nobreaks que fornecem energia por um período de 30 minutos, tempo insuficiente. “Faço reparo em desktop e notebooks. Para isso utilizo fonte assimétrica ou estação de retrabalho. Quase sempre falta energia ou a luz não chega corretamente nos seus 220 volts contratados”, aponta.

O empresário também conta que o número de aparelhos que apresentam problemas devido às quedas bruscas e oscilações está aumentando. “Cada dia é maior o número de clientes trazendo máquinas para reparo devido às constantes falhas de energia que acarretam na queima de fontes e outros problemas. Já fiz várias reclamações, sem sucesso. A justificativa é sempre a mesma, estão fazendo reparos ou manutenção preventiva”, conta.

Em Morro Redondo, moradores da Colônia São Pedro criaram um grupo no WhatsApp para informar sobre as interrupções e restabelecimentos de energia nas residências. “Especialmente aqui em casa, no nosso transformador, acontece de faltar luz na região toda, retornar para os demais e nós ficarmos sem”, disse Silvia Signorini, que mora na região há 25 anos.

Em julho de 2021, o grupo Equatorial assumiu os serviços da Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica (CEEE-D), que teve o controle acionário vendido pelo governo do Estado. Atualmente a empresa atende 72 municípios das regiões Metropolitana, Sul, Centro-Sul, Campanha, Litoral Norte e Litoral Sul, com aproximadamente 1,8 milhão de clientes.

Providências
Ao longo dos últimos meses, diversos representantes das administrações municipais e vereadores promovem reuniões e audiências com membros da empresa a fim de obter uma resposta sobre os problemas enfrentados pelos moradores.

No final de fevereiro, os presidentes das Câmaras de Vereadores de 10 municípios da região realizaram uma reunião na sede do Legislativo de São Lourenço do Sul. Entre as pautas esteve a situação do fornecimento de energia elétrica pela empresa. Segundo o anfitrião do encontro, o presidente da Câmara do município, Renan Hartwig (PDT), o grupo encaminhou ofício convidando a distribuidora para a próxima agenda, que será em Piratini, em 31 de março. Segundo ele, a companhia ainda não confirmou presença.

Em âmbito local, também foi realizada uma sessão ordinária com a presença de quatro representantes da empresa. “A gente recebe muita reclamação. No interior, às vezes demora 4, 5, 6 dias para restabelecer o fornecimento”, afirma.

O prefeito do Chuí e presidente da Associação dos Municípios da Zona Sul (Azonasul), Marco Antonio Barbosa (União), afirma que há ocorrência de transtornos, principalmente devido a efeitos climáticos. Ele lembra que o assunto já foi pauta de reunião na gestão anterior e deverá ser retomado na próxima reunião com os chefes dos Executivos locais, que deverá ser realizada na primeira semana de abril.

O que diz a CEEE Grupo Equatorial
Em nota enviada pela assessoria de imprensa, a CEEE Grupo Equatorial destacou que o tempo de restabelecimento do serviço é maior em alguns casos, independentemente das condições do tempo no momento, devido à verificação inicial, deslocamento e acesso de equipes pesadas às localidades, dificultados pelas próprias ocorrências, como trânsito, ações em parceria com outros órgãos públicos isolamento da área afetada e reconstrução de postes quebrados e de toda a rede elétrica danificada.

Sobre as interrupções mesmo quando não há ventos ou chuvas, a empresa indicou que esses casos não são comuns e podem ocorrer por outros tipos de interferência na rede. ”Podemos citar, por exemplo, acidentes como colisões em postes, contato com fios por meio de terceiros (caminhão arrastando redes elétricas), obras públicas ou particulares (conflito de vergalhões em construção de casas etc.), entre outros casos”, citou.

Em relação aos horários das manutenções programadas, a nota informa que as ações “tem o objetivo de permitir ações de melhorias na rede elétrica e de assegurar mais qualidade e confiabilidade no fornecimento”, sendo avisadas com antecedência, tendo prazo mínimo de 72 horas, e realizadas fora do expediente comercial. Em alguns casos, no entanto, a empresa aponta ser necessária a execução durante o período de trabalho. “Nessas situações, a CEEE Grupo Equatorial prevê os serviços para os dias em que há menor fluxo de pessoas”.

A CEEE Grupo Equatorial também afirma que, desde 2021, já está promovendo investimentos na região. Em Pelotas, a empresa cita investimentos de R$ 5 milhões em obras finalizadas em dezembro de 2022, que beneficiam cerca de 200 mil clientes em seis linhas que distribuem energia para bairros da cidade e interior de Pelotas, além de Morro Redondo e Capão do Leão.

“Antes, entre julho de 2021 e fevereiro de 2022, cerca de R$ 3,3 milhões já haviam sido investidos em Pelotas com o objetivo de beneficiar grande parte da população do município. Entre as atividades, foram feitas 900 inspeções, localizações e correções de defeitos na rede, incluindo a utilização de equipamentos termográficos (detecção de defeitos por pontos de calor)”.

A empresa também afirma ter efetuado a manutenção de oito linhas de média tensão em Pelotas, Arroio do Padre e Capão do Leão, e em 13 circuitos de baixa tensão, em Pelotas e Capão do Leão.

A nota ainda aponta investimentos realizados em outros municípios da região, no segundo semestre de 2021, de R$ 700 mil em Jaguarão, com correção de fragilidades, reparos e substituições cabos, troca de postes de madeira por concreto e extensão de 2km de alimentadores, “beneficiando 22 mil habitantes nas regiões da rua Curupaity e da Estrada das Charqueadas”.

Em Piratini, a quantia citada é de R$ 660 mil na inspeção, localização e correção de aproximadamente 300 pontos na rede elétrica, beneficiando 10 mil moradores. A construção de uma nova linha de suprimentos, oriunda de Pinheiro Machado, deverá ter o investimento de R$ 4 milhões.

Em Morro Redondo, a empresa afirma que os investimentos foram de cerca de R$ 200 mil na inspeção, localização e correção de pontos na rede elétrica que supre a cidade, beneficiando todos os 3,5 mil clientes da cidade. Em Pedro Osório, Cerrito, Capão do Leão e Herval, o texto informa que foram instalados sistemas de loop automation, que permitem a recomposição automática de trechos sem energia.

“Em 2023, estão previstas as ampliações das seguintes subestações de energia, em toda a região Sul: Taim, Rio Grande 1, Pelotas 2 e Santa Vitória do Palmar, beneficiando cerca de 270 mil clientes”, diz a nota.

Sobre dificuldades no contato com a empresa, a CEEE Grupo Equatorial aponta que há registro de 95% de efetividade no atendimento nos contatos comercial e em serviços de campo. Além disso, cita que há canais de atendimento por WhatsApp no (51) 3382-5500, no Call Center 0800 721 2333; via SMS para 27307, que deve ser preenchido com a palavra LUZ e o número da Unidade Consumidora (UC), no site ceee.equatorialenergia.com.br e nas agências de atendimento.

Em relação aos procedimentos para ressarcimento por danos à aparelhos elétricos e eletrônicos, a nota informa que deve ser feito diretamente nas agências, no site ou por meio do Call Center. A distribuidora aponta que pode optar pela verificação no local do equipamento danificado, devendo informar ao consumidor a data e o horário da visita, com prazo máximo de 10 dias, a partir da solicitação do consumidor. Na sequência, o cliente deve apresentar um laudo e orçamento de empresa autorizada para conserto ou dois laudos e orçamentos, no caso de ser uma empresa especializada, referente ao conserto do aparelho.

“A distribuidora deve informar ao consumidor o resultado da solicitação de ressarcimento, em até 15 (quinze) dias contados a partir da data da apresentação dos laudos e orçamentos”, finaliza.

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