Estudo identifica e analisa quedas d’água de municípios da região buscando valorizar o turismo consciente

Estudo produziu um inventário que abrange 17 locais nos municípios de Arroio do Padre e Pelotas. (Foto: Victória Paganotto e Adriano Simon)

A região Sul se destaca pelas belas quedas d’água que permeiam diversos municípios como Pelotas, Arroio do Padre e outros. Mas esses locais não são destinados ao lazer e turismo irrefletido. Espaços como as cachoeiras Arco-Íris e Paraíso são geopatrimônios que integram a história humana e seus vários seguimentos – sejam eles culturais, econômicos, sociais etc – e precisam ser conservados corretamente. Mas, para isso, é necessário que a população obtenha conhecimento em relação à existência desses locais e sua essencialidade, a fim de que possam desfrutar deles corretamente, valorizando, regionalmente, o turismo consciente e o setor econômico.

Tendo isso em mente, Victória Paganotto, bacharel em geografia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) abordou, recentemente, em sua dissertação de mestrado, desenvolvida na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – intitulada “As quedas d’água enquanto geopatrimônio dos municípios de Pelotas e Arroio do Padre: contribuições ao geoturismo na Costa Doce do Rio Grande do Sul” – a respeito da identificação e análise de locais em que há ocorrência de quedas d’água, especificamente nos municípios de Pelotas e Arroio do Padre. Com base em procedimentos metodológicos, a autora pôde produzir um inventário que abrange 17 locais, um número significativo, visto que engloba mais opções do que normalmente a população tem conhecimento.

A partir disso, discorreu sobre a necessidade de gestões conscientes dos proprietários e práticas de conservação por parte dos órgãos públicos, além da compreensão dos próprios turistas a respeito da importância dos locais.

O inventário produzido também tem como base uma cartografia colaborativa, ou seja, informações disponibilizadas por membros da população que possuem conhecimentos sobre a localização das quedas d‘água e sua contextualização. Esse contato foi realizado por meio das redes sociais Facebook e Instagram visto que o período de produção da dissertação abrangia a pandemia do Covid-19. Além disso, uma página no Instagram (@cachoeirascostadoce) foi criada, objetivando transmitir e difundir conhecimento em relação aos locais e suas características.

De acordo com a autora, durante as visitas realizadas no início de 2022, alguns proprietários expuseram a necessidade de auxílios provenientes do poder público ou de outras organizações de seus respectivos municípios a fim de manterem o local, contribuindo para a geração de renda e movimentação do turismo. Por esse motivo, ela vê o trabalho desenvolvido como uma forma de integrar partes em prol de um bem maior.

“Eu acredito que, a partir do roteiro que nós fizemos e da integração da UFPel com a Prefeitura, a gente poderia dar um retorno para essas pessoas, um retorno econômico, e para a Prefeitura um retorno turístico”, afirma, além de destacar a grande riqueza que Pelotas hospeda quando se trata de quedas d’água. “Quando a gente pensa em Pelotas, a gente pensa muito na Lagoa dos Patos, só que a gente tem uma superfície de relevo movimentado que possui essas quedas d’água e que possuem uma beleza singular e que pode e deve ser valorizada”, aponta.

Na foto, da esquerda para a direita, a estudante de Engenharia Ambiental e Sanitária na UFPel, Tainara Goulart, que acompanhou alguns dos trabalhos em campo, o orientador Adriano Simon e a autora Victória Paganotto. (Foto: Adriano Simon)

Adriano Simon é doutor em Geografia, professor do Departamento de Geografia da UFPel e dos Programas de Pós-graduação em Geografia da UFPel e da UFSM, e orientador da dissertação de Victória. Ele diz que o intuito do trabalho é mostrar que Pelotas e Arroio do Padre têm uma diversidade maior de ocorrência de quedas d’água, fazer um inventário para identificar onde elas se encontram nos municípios especificados e, após, uma avaliação delas, visando um aproveitamento geoturístico – no “sentido que essas quedas têm não só para atividades de lazer e de turismo, mas também para educação ambiental, para a compreensão da importância de mantê-las preservadas para a continuidade do uso ao longo dos próximos anos […], além de, eu diria que mais importante, continuar sendo uma fonte de renda auxiliar para as propriedades agrícolas onde elas estão inseridas, porém uma fonte de renda pautada na compreensão de que é preciso preservar, não só usar”, aponta.

Quanto às próximas ações, a autora pretende ampliar a área de abrangência ao desenvolver sua tese de doutorado, agora, com base na Serra dos Tapes, devido ao número maior de municípios. Além disso, o intuito é desenvolver um trabalho levando em consideração não apenas as quedas d’água, mas sim todo o patrimônio geomorfológico, como relevo e rochas. Ainda, a atual página pode sofrer alterações, segundo a autora, devido ao território de abrangência da futura tese, com maior extensão. Victória ainda comenta sobre a possibilidade de criar um aplicativo e um site que sirvam para armazenar todas as informações referentes às quedas d’água, as rotas que foram organizadas no momento da dissertação e, posteriormente, os elementos geomorfológicos, visando criar um repositório gratuito acessível a toda à população.

Abordando a interação com o poder público, Simon salienta que é possível pensar em uma relação entre as Secretarias de Turismo e os proprietários dos locais a fim de gerar uma conscientização no que diz respeito ao tratamento que tais patrimônios ambientais merecem receber. “Para que assim eles possam dimensionar, por exemplo, qual é a quantidade de pessoas que podem ter acesso a essa queda d’água por dia, quais são os horários de funcionamento, estudos de suporte da quantidade de pessoas que podem estar na queda d’água ao mesmo tempo”, explica o orientador, que ainda ressalta os malefícios de certas ações que, muitas vezes, passam despercebidas pelos donos dos locais, como impactos de pisoteamento, abertura de trilhas, aberturas de áreas de camping que podem afetar diretamente o local.

Ainda, o professor visa à integração entre Universidade, Prefeituras e produtores rurais a fim de gerar instrumentos de interpretação dos patrimônios ambientais para que, por meio de painéis interpretativos, todo contexto por trás do espaço possa ser compreendido. “A gente não pode esperar que as pessoas que visitam tenham essa interpretação espontaneamente. Elas precisam ser estimuladas a interpretar o ambiente onde elas estão. E com essa interpretação ficar com aquela ideia na cabeça: ‘Poxa, então o lugar que eu estou não é uma simples queda d’água, ele é também um lugar que tem uma história geológica. Uma história geológica onde qualquer tipo de impacto causado por mim, na individualidade, ou pelo grupo, no coletivo, pode demorar um tempo para se recuperar e manter a integridade ambiental que eu estou ocupando agora para me banhar’”, diz.

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