Com os avanços da tecnologia e o fácil acesso à informação, o risco da disseminação de desinformação também aumentou. O papel do jornalista nunca foi tão essencial quanto no cenário atual. O Dia do Jornalista, celebrado na terça-feira (7), homenageia os profissionais que se dedicam a buscar a verdade, apurar fatos e transformar acontecimentos e histórias em notícias que informam, conscientizam e impactam a vida das pessoas. Esses profissionais podem estar no rádio do seu carro, na TV do seu domingo, no vídeo da sua rede social. Por mais versáteis que sejam, ainda lutam por espaço no mercado em meio à desvalorização da profissão. Por isso, o Jornal Tradição Regional buscou trazer jornalistas que marcaram e marcam a trajetória da profissão em Pelotas.
A Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que oferta ensino presencial, e a Universidade Católica de Pelotas (UCPel), atualmente apenas à distância – se destacam na profissionalização de jornalistas. O coordenador de Jornalismo da UFPel, Carlos André Dominguez, explica que mesmo o curso sendo relativamente novo – criado em 2010 – a graduação tem um grupo de professores atualizados e conta com um rodízio de qualificação em pós-doutorado. Entre os diferenciais, Dominguez aponta os projetos de extensão que possibilitam experiências práticas que credenciam os estudantes para atuarem posteriormente no mercado de trabalho.

A desinformação e ética jornalística estão presentes na grade curricular de mais de 220 alunos. “São problemas presentes hoje em quase todos os campos de trabalho. No Jornalismo, por lidar com a informação, a questão da responsabilidade social e cidadania é tratada com os estudantes desde o primeiro semestre”, conta o coordenador. “Buscamos formar um profissional cidadão, um jornalista que está atento às necessidades sociais do país, com conhecimentos gerais sobre o lugar onde vivem. Jornalistas que dominam as técnicas de produção de conteúdo jornalístico em qualquer suporte e tem capacidade intelectual de usar estas técnicas para promover o interesse público e trabalhar pela sociedade como um todo”, completa.
Criado em 1958, o Curso de Jornalismo – mais tarde Faculdade de Comunicação Social – formou muitos profissionais de Pelotas e região. A coordenadora dos cursos de Comunicação da UCPel, Cristina Porciúncula, destaca a oportunidade de formação técnica e ao mesmo tempo humanizada, pelos valores da própria instituição. “Temos uma provocação da prática e da conexão com o mercado, onde permite um olhar estratégico dentro do ambiente do jornalismo. O mais importante está no nosso corpo docente, professores com experiência de mercado. Estamos atentos às demandas dessa nova era, a partir de estudos sobre as principais disciplinas e conteúdo que possam fortalecer a dinâmica da atuação do profissional nas redes sociais”, diz.

“O Jornalismo enfrenta uma mudança forte com a quebra do paradigma das empresas de notícias tradicionais. O negócio jornalístico foi abalado pela mudança para o suporte digital. Junta-se a isso, no Brasil, a questão de queda da obrigatoriedade do diploma. Setores empresariais e políticos de ideologia conservadora travam uma batalha que desvaloriza a profissão, justamente para conseguir trânsito livre nas redes sociais, proliferando a desinformação. É um fenômeno global. Por outro lado, esta situação abriu um leque de novas possibilidades para a criação de iniciativas de imprensa digital. Os novos jornalistas têm o desafio de buscar formas criativas de atuação como o jornalismo cidadão e cumprir a função social do jornalismo”, evidencia Dominguez.
O clássico periódico
No jornalismo impresso de Pelotas, trajetórias como as de Maria da Graça Marques, Álvaro Guimarães e Michele Ferreira revelam a transformação da área ao longo do tempo. Com carreiras marcadas pelo trabalho em redações como o Diário Popular (DP), eles vivenciaram desde o fazer jornalístico mais artesanal, com máquinas de escrever e apuração majoritariamente presencial, até a adaptação ao digital.

Amante do jornalismo impresso, Graça construiu praticamente toda a sua carreira no DP, onde ingressou em 1986. Iniciou sua caminhada como revisora e, posteriormente, editora, com forte atuação na área de economia. Ao longo de quase quatro décadas, acompanhou de perto o desenvolvimento da região e ajudou a dar visibilidade a iniciativas locais.
Ao relembrar sua trajetória, ela enfatiza a importância da persistência na produção. Para ela, o jornalismo também é construção de vínculos, tanto com as fontes quanto com a comunidade, e exige uma forte bagagem cultural, adquirida principalmente pelo hábito da leitura e pela curiosidade. Atualmente, Graça é colunista no JTR.
Guimarães iniciou sua trajetória no jornalismo nos anos 90, período em que o trabalho nas redações era marcado pela presença nas ruas. Ao longo da carreira, atuou em diferentes veículos, como o DP, o Correio do Povo, a Rádio Guaíba e Zero Hora, além de ter sido correspondente regional cobrindo dezenas de municípios do sul do RS. Sua experiência também inclui passagens pela assessoria de imprensa e a criação de sua própria agência de comunicação.

Com uma carreira diversificada, Guimarães destaca que as transformações tecnológicas mudaram profundamente a forma de produzir e consumir notícias. Para ele, o jornalista precisa ser cada vez mais multifuncional, sem abrir mão da qualidade do texto e da apuração rigorosa. “Por parte do público percebo que havia maior reconhecimento e valorização do nosso trabalho, percebido pela população como um profissional responsável, confiável e que merecia o respeito da sociedade como um todo, muito diferente do que acontece atualmente quando a perseguição, a desvalorização e os ataques aos jornalistas são cada vez maior e mais constante, especialmente entre os grupos alinhados com o campo político da direita brasileira”, conta.
Michele também construiu sua carreira no jornalismo na década de 90, período de transição entre o modelo analógico e o digital nas redações. Atuou por 24 anos no DP, passando por diversas editorias e acumulando experiências que vão desde coberturas locais até reportagens internacionais. Ao longo de sua trajetória, teve a oportunidade de contar histórias de diferentes realidades, sempre com foco na humanização das pautas e na proximidade com a comunidade.

Para Michele, o jornalismo é uma ferramenta fundamental de transformação social e de fortalecimento da democracia. Entre os momentos mais marcantes de sua carreira, destaca coberturas que exigiram sensibilidade e coragem, além de trabalhos investigativos reconhecidos como “Encarcerados” (2005) e “Infância esquecida” (2014), produzidos em conjunto com Guimarães.
A voz do povo
O rádio segue como um dos meios mais dinâmicos do jornalismo, marcado pela agilidade na transmissão das informações e pela forte conexão com o público. No município, o formato mantém sua relevância ao unir tradição e adaptação às novas tecnologias, incorporando transmissões digitais, redes sociais e interatividade em tempo real.

Com uma trajetória consolidada no rádio e na televisão, Carlos Machado iniciou sua carreira nos anos 90, atuando na Rádio Federal FM, onde já exercia funções de locução e mediação de programas informativos e de debate. Ao longo dos anos, acumulou experiências em diferentes emissoras da região, mas foi no rádio que encontrou um espaço para condução de programas voltados à análise política e temas de interesse público.
Para Machado, independentemente das mudanças tecnológicas, a essência do jornalismo permanece a mesma, investigar, apurar e informar com responsabilidade. Ele destaca que, embora as ferramentas tenham evoluído, o compromisso com a verdade dos fatos segue sendo o principal norte da profissão. Entre os desafios atuais, aponta a necessidade de dominar recursos tecnológicos sem perder a capacidade crítica e o relacionamento com fontes confiáveis, considerados fundamentais para a credibilidade do trabalho jornalístico.

André Müller construiu sua trajetória no rádio durante a mesma época, iniciando de forma voluntária em programas esportivos e, ao longo do tempo, ampliando sua atuação como repórter, apresentador e coordenador. Consolidou sua carreira na Rádio Pelotense, onde desenvolveu trabalhos tanto no jornalismo esportivo quanto na cobertura geral, acompanhando de perto o cotidiano da cidade e do esporte local. Ao comparar diferentes momentos da profissão, Müller destaca que o rádio já foi mais próximo das fontes e do público, com uma relação mais direta e presencial.
Além dos cliques
Mais do que registrar fatos, o fotógrafo jornalístico tem o papel de captar momentos que traduzem emoções, contextos e histórias, muitas vezes complementando ou até substituindo o texto. Com 35 anos de trajetória dedicados ao DP, Carlos Queiroz construiu sua carreira acompanhando as transformações do fotojornalismo. A transição para a área veio de forma natural, a partir da necessidade da redação, e rapidamente se tornou sua principal atividade. Ao longo dos anos, registrou desde coberturas cotidianas até grandes acontecimentos, tendo suas imagens publicadas em veículos de alcance nacional.

Ao refletir sobre a profissão, Queiroz destaca o impacto das mudanças tecnológicas, que trouxeram mais agilidade ao processo, mas também alteraram profundamente a dinâmica das redações. Se antes era necessário um longo tempo para revelar e editar imagens, hoje a transmissão é instantânea, ampliando as possibilidades do trabalho. Para ele, o fotojornalismo vai além do registro de fatos, é uma ferramenta de transformação social, capaz de sensibilizar e mobilizar, especialmente quando contribui para mudar a realidade de pessoas em situações de vulnerabilidade.
O veículo que mora em todas as casas

A televisão segue como um dos meios mais influentes do jornalismo. Bruno Halpern construiu uma trajetória marcada pela versatilidade e pela adaptação às diferentes plataformas do jornalismo. Iniciou sua carreira ainda na faculdade, passando por rádio, jornal impresso e televisão até chegar ao Grupo RBS, onde atuou na Rádio Gaúcha e na RBS TV em Pelotas e Porto Alegre. Atualmente, integra a equipe de esportes da Globo, no Rio de Janeiro, ampliando sua atuação em coberturas de alcance nacional e sua experiência no jornalismo esportivo. Entre as habilidades essenciais para a profissão, ressalta a curiosidade, a escuta atenta e a capacidade de contar boas histórias, características que considera fundamentais para dar voz às pessoas e construir narrativas que conectem o público às diferentes realidades, especialmente por meio do esporte.




