
O Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira (1º), é, antes de comemorativa, uma data de luta. Isso se manifesta desde sua origem, em 1886, quando, durante uma greve em Chicago, nos Estados Unidos, trabalhadores foram agredidos e executados em meio a reivindicações por redução de jornadas de trabalho. Na zona sul, especialistas apontam que, apesar do setor de serviços empregar consideravelmente em cidades como Pelotas, Rio Grande e São Lourenço do Sul, seguido do comércio e da construção civil, a região ainda enfrenta desafios na construção de um mercado mais atrativo às novas gerações.
Segundo a Fundação Gaúcha do Trabalho, com base em dados referentes a fevereiro, Pelotas contabiliza mais de 66 mil trabalhadores com carteira assinada. Em relação a informalidade, conforme Sérgio Bi zarro, delegado regional do Trabalho e Luã Rodrigues, da Agência de Desenvolvimento Social (ADS) da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), os dados disponíveis são somente em nível estadual: no quarto trimestre de 2025, a taxa foi de 30,1%, a quarta menor do país. Destaca-se, ainda, que o Estado atingiu um recorde no número de empregos formais.
Não há dados exatos sobre o desemprego no município, de acordo com o delegado. Todavia, é possível observar que Pelotas acompanha o comportamento da região sul. No contexto atual, a taxa de desocupados – pessoas sem trabalho que buscam vaga – situa-se em torno de 4%.
Em Rio Grande, a situação é semelhante, conforme José Scorsatto, secretário de Trabalho e Desenvolvimento Profissional do Estado: a cidade não possui uma estimativa oficial consolidada e atualizada que permita informar o número de trabalhadores formais e informais. Em relação às carteiras de trabalho, porém, o município apresentou saldo negativo em fevereiro, resultado de 1.680 admissões e 1.727 demissões. A nível estadual, Scorsatto afirma que cerca de 5,9 milhões de pessoas estão ocupadas, sendo 1,7 milhão em informalidade.
Em São Lourenço do Sul, de acordo com Fabio Abbud, secretário Adjunto de Turismo, Indústria e Comércio, 5.269 pessoas trabalham em regime Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), sendo que 1.256 pessoas são servidoras municipais ativas e 3.076 são empresárias individuais. Dos trabalhadores no regime CLT, 2.127 são empregados no comércio, 1.899 no setor de serviços, 647 na indústria, 535 na agropecuária e 61 são empregados na construção civil. Não há dados sobre a taxa de desemprego na cidade.
Em relação ao perfil que predomina, segundo Bizarro, destacam-se números a partir dos 30 anos de idade. “O perfil predominante em questão etária é o grupo de 30 a 39 e o de 40 a 49 anos, sendo mais que a metade dos trabalhadores de Pelotas. Em questão de instrução, a grande maioria é de ensino médio completo — mais de 30 mil — seguido pelo ensino superior completo”, explica.
Scorsatto enfatiza que em Rio Grande a faixa etária predominante é a mesma, assim como em São Lourenço do Sul, conforme Abbud. Scorsatto pontua que, do ponto de vista analítico, “municípios com características econômicas semelhantes às de Rio Grande — especialmente aqueles com forte presença industrial e logística — tendem a apresentar taxas de desocupação próximas à média estadual, ainda que sujeitas a variações conjunturais associadas a ciclos produtivos específicos, como atividade portuária, indústria naval e investimentos em infraestrutura”.
Bizarro ressalta que Pelotas, apesar de ser um polo de qualificação, não possui oportunidades de emprego atrativas para que as pessoas permaneçam na cidade após sua formação. “Os salários não têm sido interessantes para os trabalhadores, o que contribui para o êxodo de pessoas que migram em busca de melhores oportunidades. Infelizmente o município aparece como uma cidade exportadora de cérebros, sem lugares adequados e com boas remunerações para essa mão de obra”.
Ele ainda destaca que, diante dos avanços tecnológicos e das novas formas de comunicação, observa-se que o mercado de trabalho passa por transformações constantes, que “exigem qualificação e atualização contínua dos conhecimentos. Esse cenário impacta tanto os jovens que ingressam no mercado quanto os trabalhadores já formalizados, além de influenciar diretamente as próprias empresas”.
O avanço dos aplicativos
Scorsatto ressalta que o avanço do trabalho mediado por plataformas digitais têm impacto direto na leitura dos indicadores oficiais do mercado de trabalho. “De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de trabalhadores por aplicativos no Brasil chegou a cerca de 1,7 milhão de pessoas em 2024, com crescimento de 25,4% entre 2022 e 2024. Do ponto de vista da classificação estatística, a grande maioria desses trabalhadores é registrada como: trabalhadores por conta própria ou inserida em categorias associadas à informalidade”, diz.
Mesmo assim, o secretário afirma que houve uma leve redução no indicador da informalidade no Estado, de acordo com dados do IBGE. “Em períodos anteriores, especialmente no pós-pandemia, esse percentual chegou a patamares superiores a 31%, refletindo um momento de maior fragilidade do mercado de trabalho”, detalha.

O motorista de aplicativo pelotense Paulo Valadão, de 54 anos, conta que já exerce a atividade há seis anos. “Eu tinha uma empresa há 30 anos e precisei fechar na pandemia da covid-19. Foi o que me restou no momento, hoje faço em média 10 horas diárias”, relata.
Valadão ainda afirma que os desafios da atividade são consideráveis, principalmente pela insegurança de trabalhar de maneira informal. “Os desafios são o trânsito, o estresse e lidar com públicos diferentes. Os custos são altos também, como a gasolina, seguro do carro e a manutenção. Os direitos trabalhistas geram mais segurança, como tirar folga, poder passear e saber que terá como pagar suas contas”, detalha.
Busca por estabilidade na CLT
A estabilidade pode ter significado ainda maior dependendo da área de atuação. É o caso de Eduarda Scherdien, de 28 anos. A bacharela em Direito de Pelotas, que trabalha em regime CLT, conta que a área jurídica pode ser incerta, e a carteira de trabalho trouxe uma segurança para sua carreira. Ela reforça, ainda, que o Direito costuma ser bastante competitivo. “Existe uma cobrança considerável. Muitas vezes há uma expectativa de crescimento rápido e resultados em pouco tempo, o que pode gerar ansiedade. Mas, na prática, o desenvolvimento na área jurídica costuma ser mais gradual”, diz.

Eduarda ressalta que as relações de trabalho variam muito em cada ambiente. No entanto, sua experiência tem sido positiva. “No meu caso, as relações são positivas e colaborativas, com bastante troca de conhecimento. Mas sei que ainda existem muitos lugares na área jurídica com relações mais rígidas e até desgas tantes”, relata. Ela ainda conta que durante um tempo de sua vida pensou em cursar Medicina Veterinária, mas hoje pretende seguir na área jurídica. “Me identifico com o que faço hoje e me sinto motivada, principalmente pelo ambiente de trabalho e pelas possibilidades de crescimento”.
Ademais, ela observa que, de modo geral, os direitos trabalhistas nem sempre são cumpridos na prática, outro fator que varia dependendo do local. “Existem empresas que cum prem as leis corretamente, mas ainda há muitos casos em que os direitos não são plenamente respeitados. Na prática, ainda há um certo distanciamento entre o que está na lei e o que realmente acontece”, pontua.
Segundo Eduarda, a formação acadêmica foi importante para a base teórica, mas a vida profissional exige mais do que o aprendizado adquirido na graduação. “Acredito que o mercado de trabalho exige muito mais prática do que a faculdade consegue oferecer. Muitas situações do dia a dia jurídico eu só fui aprender realmente atuando. Então, foi uma preparação inicial, mas de certa forma rasa, pois as situações que enfrentamos por vezes são peculiares requerendo mais do que a faculdade nos apresenta”.
Desvalorização e desgaste acompanham servidores
Em algumas histórias a busca por uma vida estável se dá de outras formas. O professor de Física e Matemática da rede pública desde 2000 em Pelotas, Joselito Rosa, de 58 anos, conta que se interessou pelo concurso público por já estar constituindo uma família na época. “Foi por buscar segurança. Naquele tempo ainda era muito bom tudo que ofereciam dentro da carreira”.

Contudo, Rosa relata que, atualmente, há uma grande desvalorização da sua profissão, o que pode impedir que a educação ganhe novos profissionais. “Quando eu comecei o magistério estadual, ele tinha uma certa valorização. Hoje isso foi por água abaixo. O maior desafio dos professores é chegar ao fim da sua carreira com a sua saúde mental preservada, muitos colegas meus estão adoecendo enquanto trabalham, por falta de valorização, de condições e por salários baixos. Muitas vezes não é possível propiciar condições mínimas para a sua família”, conta.
Ademais, a área da educação agora está mais exigente, conforme ele. Os professores precisam desempenhar funções que anteriormente não eram necessárias. “Antigamente a gente só se preocupava em dar o conteúdo para os alunos, tirar as dúvidas deles e, quando precisava, mediava algum conflito. Hoje o professor tem que ser pai, mãe e psicólogo”, observa. Ele ainda enfatiza que a pandemia evidenciou a diferença entre ensinar na rede privada e pública, já que somente a primeira categoria possuía plataformas e outras alternativas para trabalhar.
Desafios e debates
Atualmente, conforme Scorsatto, alguns outros obstáculos para a consolidação de um mercado mais resiliente são encontrados, como a inserção dos jovens no mercado de trabalho, que exige políticas específicas de qualificação e acesso à primeira oportunidade. Além disso, mesmo com o leve recuo, a informalidade ainda representa parte do Estado, indicando a necessidade de políticas voltadas à formalização e à melhoria nas condições de trabalho.
Em 1988, a Constituição brasileira reduziu a jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais. Hoje, as discussões seguem. O debate sobre o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho por um de descanso) avançou no Congresso em abril, com foco em Propostas de Emenda à Constituição (PECs) para reduzir a jornada semanal de 44 para 36 ou 40 horas e, assim, promover maior tempo de descanso, com escalas 4×3 ou 5×2.



