
A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) promoveu, nesta quarta-feira (26), no Largo do Mercado Central, a Aula Aberta – uma iniciativa que visa mostrar como os cortes e reduções de orçamento podem afetar o funcionamento da instituição. O evento contou com apresentações artísticas que ressaltaram o tema, além de Mostra de Cursos de Graduação, projetos de Ensino e Extensão. Na ocasião, também esteve presente o reitor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Roberlaine Ribeiro Jorge.
A iniciativa reuniu alunos, servidores e a comunidade em prol do esclarecimento sobre os cortes e reduções de orçamento no Ministério da Educação, especialmente o último, realizado no dia 30 de setembro. Servidores da UFPel , juntamente com o reitor da Unipampa, expuseram a situação atual das instituições de ensino aos presentes. Em suas falas, eles ressaltaram a importância da educação para o desenvolvimento do país e, vinculado a isso, o papel fundamental das universidades públicas nesse contexto.
Em sua fala, a vice-reitora da UFPel, Úrsula Silva, afirmou que o encontro visava uma reflexão sobre as circunstâncias atuais da educação superior pública nacional. “Nós somos 69 universidades públicas em todo o Brasil. O que, hoje, a gente vai falar é muito sobre a UFPel, mas é muito sobre o que a Andifes – que é justamente associação dos reitores das universidades – e dos IFs (institutos federais), do Conif, estão tratando também no país nesse momento”, disse.
Além disso, Úrsula também definiu o ato de ir para a rua como um compromisso social, uma preocupação com o funcionamento da instituição e sua influência nas atividades dos alunos. “Se a gente tem que falar em transparência, em prestação de contas, a gente está prestando as contas para justamente contar como está a situação da universidade, que é uma universidade superimportante para Pelotas e para região. E nós estamos preocupados com a manutenção dessa universidade, nós estamos preocupados também com o crescente número de perdas que a gente está tendo no número de estudantes, a evasão está muito grande porque a pessoas estão ou não voltando ou saindo da universidade para poder trabalhar”.
Segundo Ursula, estão sendo aplicadas estratégias para que a universidade possa se adaptar ao cenário atual, bem como tornar-se conhecida e próxima à população em geral, que também é uma alternativa em prol de sua permanência. Novos cursos noturnos estão sendo montados e outros estão sendo reajustados para turno único a fim de viabilizar a retenção dos alunos. Além disso, organizadores do Programa de Avaliação da Vida Escolar (PAVE) realizaram uma visitação a todas as escolas do município e do estado em Pelotas, o que resultou na participação de três mil estudantes da rede pública na Mostra de Cursos, realizada há três semanas, pela universidade.
Para além de estratégias, Úrsula diz que é necessário investimento. “A gente realmente está perdendo possibilidade de compra de equipamento, de manutenção de laboratório, que é o básico para a gente dar aula. Então, eu não estou falando nem em grandes investimentos, nem em grandes obras. A gente não tem dinheiro para comprar lâmpada, para pagar água, para pagar luz. A gente está perdendo já o básico do básico, ou seja, está chegando em um ponto que está muito precária a situação da universidade”, salientou, além de afirmar que o evento é uma oportunidade de incluir a universidade nas perspectivas de planejamento pessoal e de formação de cada um.

A perspectiva futura da instituição é que haja uma valorização na questão da recomposição do orçamento. “A gente recebeu o mesmo orçamento, este ano, de 2019, com todos os índices que se sobrepõem. Então, a gente não conseguiu fazer muito coisa porque, inclusive, a verba de capital que serve para a manutenção, para obras, para compra de equipamentos foi de R$ 10 milhões, em 2017, 1,8 milhão, este ano, e ainda com cortes”.
Durante o encontro, muitos servidores de outras instituições federais também estiverem presentes e reforçaram a importância do evento. Fabiane Simioni, professora do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Campus Santa Vitória do Palmar, disse que a presença de todos é fundamental porque resulta na ocupação do espaço público novamente. “É um pouco para dizer que esse lugar também é nosso, que essa universidade também é nossa, que a gente precisa estar aqui para defender esse patrimônio que é de todo mundo – não é só de quem está, naquele momento, matriculado ou está trabalhando – é de toda a sociedade, é dos pelotenses, mas é desse país. Então, é um pouco disso, de defesa de algo que é público, que é de todo mundo”.
A professora ainda declarou que as decorrências dos cortes são vistas de forma significativa pelos corredores da universidade. “A gente enxerga os corredores vazios porque os alunos não estão mais lá. Muitos alunos evadiram. Entre a sobrevivência/trabalho e a universidade, os alunos estão optando pela sobrevivência. Então, estão evadindo, estão trancando os cursos. Além disso, a gente tem coisas muito concretas – é o orçamento do restaurante universitário -, que não tem; é o orçamento das bolsas de monitoria para os estudantes, porque não é só passar e entrar no curso superior, é permanecer. Como é que a gente garante condições de permanência desses estudantes, que a maior parte são trabalhadores. E se tu não tem recursos mínimos, como alimentação, bolsa, auxílio permanência, enfim, diferentes estratégias de manutenção e permanência desses alunos, eles vão evadir”.
A aluna do 7º semestre do curso de Biologia da UFPel, Luiza Romano, também assinala a evasão dos alunos como uma consequência explícita dos cortes. Isso porque foi afetada diretamente, o que a fez pensar em trancar o curso. “A gente se sente desmotivado. Agora, com os cortes das bolsas também, a gente tem que procurar outro meio de se sustentar e isso faz muitos alunos saírem. Eu e minhas colegas a gente já estava até pesando em sair do curso porque não tem oportunidade. Então, eu acho que é uma perda de muitos profissionais no Brasil, poderiam ser profissionais ótimos. É uma perda gigantesca a longo prazo”, declarou a estudante.



