Na Fenadoce, Agricultura Familiar faz sucesso nas vendas

Expositores estão localizados em espaço destinado diretamente para eles. (Foto: Daniel Batista/JTR)

Os visitantes estavam com saudade da Fenadoce e dos produtos da agricultura familiar, pois já nos três primeiros dias de feira, de 3 a 5 de junho, as vendas no Pavilhão superaram os R$ 197 mil, o que surpreendeu e agradou organizadores e expositores. De acordo com o coordenador da feira, Renato Cougo, da Emater/RS-Ascar, as agroindústrias de embutidos, no total de seis, foram as que apresentaram a maior comercialização.

Nesta edição, o espaço conta com 45 empreendimentos a maioria são de alimentos (doces e conservas, embutidos, queijos e outros produtos lácteos, bebidas, panificados e minimamente processados). Entre eles, há duas cooperativas, a Cooperativa dos Produtos Agrícolas do Monte Bonito (Coopamb), de Pelotas, e a Cooperativa dos Produtores de Leite da Zona Sul (Sul Leite), de Santa Vitória do Palmar. Dez expositores se dedicam ao artesanato em bambu, lã, madeira e couro, entre eles, dois de tribos indígenas Kaingangs de Pelotas. Destaque ainda para as floriculturas, uma delas de orquídeas, que foram sucesso de vendas em 2019 devido ao Dia dos Namorados.

Quanto à procedência, nove agroindústrias são de Pelotas e 21 da Zona Sul (Morro Redondo, Canguçu, São Lourenço do Sul, Candiota, Turuçu, Rio Grande, Santa Vitória do Palmar, Capão do Leão, Hulha Negra e Cerrito) e o restante de outras regiões do estado (Joia, Tupanciretã, Sete de Setembro, Torres, Caibaté, Frederico Westphalen, Paraí, Barros Cassal, Não Me Toque, Barão, Canela, Caiçara, Augusto Pestana e Colorado), totalizando 25 municípios.

Cougo ressalta que os primeiros resultados e a movimentação no pavilhão deixam os produtores otimistas quanto às vendas nos 17 dias de Fenadoce. Em 2019, o volume comercializado chegou a R$ 750 mil, com a participação de 62 empreendimentos.

Em sua sexta edição, a Feira da Agricultura Familiar é uma ação do programa Sabor Gaúcho para divulgação da agricultura familiar e é organizada pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural, com o apoio de entidades como Emater, Embrapa Clima Temperado, Prefeitura de Pelotas, Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag) e Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul do Brasil (Fetraf).

No pavilhão, os visitantes encontram desde embutidos, produtos lácteos, erva mate, conservas vegetais, mel, sucos, vinhos, cachaça, artesanato, flores, panificados, artigos de quase todos os segmentos, o que demonstra a diversificação dos sistemas produtivos. A qualidade dos produtos já ficou comprovada pelos visitantes, que têm a oportunidade de convívio e contato direto com os produtores.

Desde a fabricação dos doces e conservas, até os sucos e bebidas e também os artesanatos, todos são pequenos produtores artesanais que tornaram em forma de sustento uma receita de família e, por isso, têm muito a ver com a tradição doceira, que tem na ancestralidade sua principal característica.

Confira alguns empreendimentos

Quinta Martins


Desde a primeira edição da agricultura familiar na Fenadoce, em 2015, a Agroindústria Quinta Martins está presente. “Desde que a feira era realizada no mezanino da praça de alimentação”, lembra o produtor Ubirajara Martins, que transformou um sítio de lazer da família numa unidade produtiva.

Localizada a 20 quilômetros de Pelotas, na Estrada 3 Figueiras, na Cascata, 5º Distrito, na propriedade são encontrados todos os tipos de frutas nativas e algumas exóticas, como o araçá amarelo e vermelho, a amora e a pitanga. “As frutas que inicialmente eram utilizadas em geleias e doces em calda, hoje são direcionadas exclusivamente para o suco”, conta Martins.

E o que ele não tem na propriedade, compra de outros produtores, como por exemplo, o abacaxi, que vem todo de fora. Ele fabrica desde os sucos tradicionais até os de frutas nativas, como o araçá amarelo, butiá e a amora. Em breve, deve ser lançado o suco verde, um blend (mistura) com laranja, maçã, couve, pepino japonês e gengibre e o que é melhor, sem açúcar.

Entre os sucos integrais, ele pretende incluir futuramente, os de bergamota, laranja, uva e butiá, ainda em fase de testes, diz. “É uma tendência de mercado, exigência dos consumidores, que o suco seja integral, sem açúcar, água ou químicos”, diz.
No sítio, onde também está localizada a fábrica, Martins possui ainda uma pequena pousada onde recebe visitantes, conta.

Agroindústria Costa Dias

Uma tradição de família que acabou se tornando um negócio é a jurupiga, bebida tradicional da Ilha dos Marinheiros, de Rio Grande, representada na Fenadoce, há mais de 20 anos, pela Agroindústria Costa Dias, do casal Hermes e Rosangela Costa Dias. A bebida Tradição da Ilha, apresentada em diversos tamanhos, de 50 a 750 mililitros tem história, dizem.

“A tradição foi trazida pelos meus bisavós que vieram de Portugal e a receita passa de pai para filho”, comenta Hermes. Segundo ele, esta tradição está na família há séculos e inicialmente era produzida apenas para consumo próprio, mas há 30 anos, a família resolveu comercializá-la. “É uma bebida servida como um licor, lembra um pouco o Vinho do Porto, trata-se de um vinho mais licoroso e com um teor alcoólico (17 graus) mais alto”, ressalta.

As uvas da variedade bordô, utilizadas na fabricação da jurupiga são cultivadas pelo casal, que tem ainda a ajuda dos dois filhos.

Pecan da Estância


O olhar empreendedor do produtor Emerson Lava transformou em negócio a generosidade de três plantas antigas de noz-pecã, existente na propriedade da família, a Estância Vista Alegre, no município gaúcho de Colorado, na região do Alto Jacuí, norte do Estado.

Segundo ele, a agroindústria que completa dois anos em agosto deste ano, nasceu como uma forma de agregar valor à pequena propriedade da família, de 22 hectares. Para ele, desde 2017 até a inauguração da agroindústria, a primeira do município e da região no processamento de nozes, houve intenso aprendizado.

A cultura foi sendo implantada aos poucos na propriedade, a partir de 2017 quando cultivou os primeiros 150 pés e chegou a 216 mudas em 2019, atingindo quatro hectares com o cultivo inteiramente irrigado, diz.

A aquisição da máquina para processamento da fruta ocorreu em 2019, em Flores da Cunha, com uma capacidade para descascar 1,5 mil quilos de nozes por ano. Com a oficialização da agroindústria em 2021, já participou de outras feiras, onde lançou a fruta saborizada, uma forma de agregar mais valor. A agroindústria recebe a assistência da Emater e está formalizada junto ao Instituto Brasileiro de Pecanicultura (IBPecan).

Neida Mattos Artesanato


Quem aprecia o artesanto em lã crua não pode deixar de visitar o estande da artesã Neida Mattos, que trouxe para a Fenadoce as peças confeccionadas em seu atelier, que fica na Estrada Santa Bernardina, na Cascata, 5º Distrito de Pelotas. São palas, ponches, blusões, casacos, boinas, meias, polainas, palmilhas e uma série de outros artigos confeccionados pelas mãos habilidosas de Neida, que tem a ajuda do marido Valmir, conta.

A artesã, que trabalha há mais de 20 anos com artesanato em lã, possui ainda, peças em madeira e porongo para venda. A matéria-prima é adquirida de produtores vizinhos, e no caso, da lã, em estado bruto, é tecida em tear pela artesã. Para agilizar a confecção das peças, feitas em crochê e tricô entre outras técnicas, Neida consegue adquirir o fio pronto.

Agroindústria Flaps


Tudo começou em 2003, com a produção e venda de rapaduras de amendoim pelo produtor Hilmar Bubols, que buscou na atividade uma forma de aumentar a renda da família. Representante comercial na época e com dois filhos pequenos, a renda não era suficiente para suprir os custos de manutenção da casa. Mais tarde, passou a produzir também os pães caseiros e integrais.

Assim nasceu a Agroindústria Flaps, localizada na Estrada da Divisa, 1º distrito de São Lourenço do Sul, do casal Miriam e Hilmar Bubols, que participam da Fenadoce, com seus panificados (pães e bolachas) e é claro, também com as famosas rapaduras de amendoim.

A simpatia do casal e a coragem de se aventurar em uma atividade relativamente nova para eles, refletem a escolha do nome da agroindústria, flaps, que segundo eles, em pomerano, a língua dos seus antepassados, significa “moleque, menino arteiro”.