
É com empatia, escuta atenta e solidariedade que se inicia o mês da primavera. Em setembro, são dedicados cuidados com a saúde mental e com transtornos psíquicos que podem levar à morte. Desde 2003, todo dia 10 deste mês é considerado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. A data foi criada pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para fomentar as instituições a pensar sobre o tema.
A OMS estima que a cada 40 segundos haja uma morte por suicídio no mundo, e no que tange as tentativas, uma pessoa atenta contra a própria vida a cada três segundos. No Brasil, calcula-se que 13 mil casos de suicídios são registrados por ano. O número pode ser ainda maior, em decorrência das subnotificações.
Em Pelotas, segundo a coordenadora da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), da Secretaria Municipal de Saúde, Márcia Santos, em 2020 o município recebeu no Pronto Socorro 313 notificações de tentativa de suicídio ou autolesão e até agosto deste ano foram mais de 180 casos notificados.
Para a psicóloga e especialista em saúde mental Thaíse Mendes, a campanha do Setembro Amarelo é importante para dar visibilidade sobre o tema, já que este ainda é um fato tido pela sociedade como um tabu. A profissional também aponta que a morte por suicídio provoca um estigma sobre a pessoa que morreu e aquelas que foram envolvidas. “É uma forma de morrer que estigmatiza a memória da pessoa. Traz estigmas para os familiares, para os profissionais da saúde. Para as pessoas próximas, de uma forma geral”, revela.
Nesse sentido, quando há a proposta de debate sobre saúde mental, se desmitifica um comportamento, de modo a levar as pessoas a refletirem sobre o seu sofrimento, assim como em relação aos casos que podem levar uma pessoa a morrer por suicídio. Além disso, há a reflexão sobre as formas de prevenção, aliadas a reflexão das administrações sobre políticas públicas que sejam preventivas. A coordenadora da RAPS revela que as pessoas ainda tem uma resistência de procurar ajuda por existir uma hostilidade nas comunidades em que vivem.
“O preconceito ainda é muito presente na sociedade e, muitas vezes, impede o sujeito ou a família de buscar tratamento, por medo ou vergonha, e levar informação à população. Os serviços especializados em saúde mental no município realizam, junto aos usuários e seus familiares, diversas ações, com o propósito de levar conhecimento, tanto em relação à doença, crise e riscos, quanto às possibilidades de cuidado”, explica Márcia.
O SUS aconselha que a pessoa com transtorno mental deve ser acolhida em todos os serviços tidos como porta de entrada, como as Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Pronto Socorro, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
“Quando qualquer um desses serviços identifica a necessidade de cuidado em saúde mental, o paciente é direcionado para o serviço especializado, conforme o grau de complexidade do caso. Transtornos leves são atendidos pelas UBSs, os casos moderados são encaminhados, pelas UBSs, para os Ambulatórios Especializados em Saúde Mental – infanto-juvenil e adulto -, e os casos graves para os Centros de Atenção Psicossocial”, detalha Santos.
A ajuda para quem sofre pode vir de muitos lugares, não somente por parte do poder público, mas com iniciativas como o Centro de Valorização da Vida (CVV), que desde 1962 vem trabalhando forte na prevenção ao suicídio e na valorização do atendimento de ligações de pessoas com transtornos ou com pensamentos suicidas. O CVV é uma associação humanitária que se mantém do voluntariado. São recebidas mais de três milhões de ligações por ano por mais de quatro mil voluntários, que dedicam cerca de quatro horas semanais para atender ao próximo.
A presidente da Mantenedora Núcleo de Apoio a Vida de Pelotas, Maria de Fátima, que mantém a CVV, relata que os atendimentos são todos feitos de forma anônima e dedicados para o apoio, de modo que todos se sintam acolhidos. “É sem criticar, sem julgamento, sem aconselhamento. É uma escuta ativa, amorosa, com empatia, compreensão e aceitação. Na conversa não entra crítica, somente o respeito por aquilo que a pessoa sente, aquilo que ela traz. Agora, existe o apoio através do chat do CVV, email e virtual”, disse.
Aumento de transtornos durante a pandemia
Durante a pandemia, a psicóloga Thaíne conta que existiu um aumento significativo dos transtornos de ansiedade e depressivos, que podem ter ocorrido pelos impasses do início da doença, intensificando os sentimentos de medo. Logo depois, o enfrentamento do isolamento social trouxe prejuízos de angústias e humor deprimido. “A gente analisa também a questão da economia. Muitos tiveram prejuízos significativos. Muitas empresas faliram, muitas pessoas perderam seus empregos e essa questão econômica é um fator que pode desencadear transtornos mentais, porque é um fator de risco pra saúde em geral”, afirma.
O laço amarelo é símbolo da luta contra o suicídio. Caso precise de ajuda, procure o sistema de saúde mais próximo ou ligue 188, no canal do CVV.
Quais fatores levam ao suicídio?
Os psicólogos consultados pela reportagem revelaram que o transtorno mental é uma doença psíquica e como qualquer outra, é de base multifatorial. Por isso, são vários os fatores que podem levar ao suicídio, mas podem ser considerados componentes genéticos, estruturais e de desenvolvimento.
Fatores
Eventos estressores: situação familiar, violência doméstica/urbana, condições socioeconômicas, de trabalho;
Fatores intensos: sofrimento acentuado, rigidez de pensamento (pensamentos que não se enxergam soluções) e impulsividade.



