
Filhas, netas e sobrinhas de trabalhadoras da Cooperativa de Trabalho em Coleta Seletiva de Resíduos Sólidos de Canguçu (Coopersol) encontraram na arte uma ferramenta de transformação social. Criado em 2024, o grupo de dança Afroritmo surgiu a partir de uma ação vinculada a um projeto desenvolvido na Cooperativa e, atualmente, realiza apresentações em diversos eventos e atividades no Rio Grande do Sul.
Formada majoritariamente por mulheres e com atuação voltada à inclusão social, a Coopersol trabalha desde 2002 com coleta e triagem de resíduos, além de participar de ações educativas e de mobilização social. Foi nesse contexto que nasceu o Afroritmo.
As integrantes, crianças e adolescentes a partir de 9 anos, passaram a fazer parte do grupo por meio de um projeto da Fundação Luterana de Diaconia (FLD) desenvolvido para a cooperativa.
“Na época, a cooperativa precisava de uma apresentação para um evento e pediu que as filhas das mulheres que trabalham lá fizessem uma dança. Elas se juntaram, ensaiaram e deu tão certo que resolveram continuar, e assim nasceu o Afroritmo”, relembra Emily de Moura, fundadora, coreógrafa e coordenadora do grupo.
Emily atua em diferentes frentes do projeto, entre elas a criação das coreografias, a pesquisa sobre a história representada pelo grupo, o ensino e a organização das apresentações. Segundo a jovem, de 18 anos, o principal objetivo do Afroritmo é manter viva e valorizar a cultura afro-brasileira.
“Queremos combater o racismo e a violência contra mulher, fazer com que as pessoas negras se sintam mais seguras e orgulhosas, e mostrar que a nossa história faz parte da história do Brasil. Em cada apresentação, levamos mensagens de força, igualdade, respeito e dignidade”, conta.

Arte e reflexão
Temas como racismo e violência contra a mulher fazem parte das apresentações, que reúnem músicas reflexivas, animadas e criativas. Ao final das performances, as integrantes exibem cartazes com frases sobre discriminação racial e nomes de mulheres vítimas de feminicídio em Canguçu.
“Decidimos fazer isso porque ouvimos histórias de discriminação e sofrimento da própria comunidade. Com a permissão de quem viveu essas situações, transformamos essas histórias em dança e teatro. O resultado é muito bom. As pessoas se emocionam, passam a ver o assunto de outra forma, e muitas jovens dizem que se sentem mais representadas e corajosas depois de nos assistir”, relembra.
Para Emily, o fato de as participantes serem descendentes de mulheres que trabalham na cooperativa também fortalece o significado do projeto.
“Mostra que a nossa história passa de geração em geração. O trabalho das mães e avós se junta à arte das jovens. Elas deixam de ficar escondidas e passam a ser as protagonistas da sua própria vida. Para a comunidade, isso fortalece os laços, cria mais união e mostra que a Coopersol é um lugar de trabalho e também de transformação.”
Entre os momentos mais marcantes da trajetória do grupo, a jovem destaca a primeira apresentação realizada na Escola Técnica Estadual de Canguçu (Etec), durante uma reunião da cooperativa.
“Ver as famílias orgulhosas e o público aplaudindo nos mostrou que estávamos fazendo a coisa certa.”
Os próximos passos do Afroritmo já estão definidos. Segundo a coordenação, o grupo pretende ampliar sua atuação na transformação social do município.
“Para o futuro, queremos ensinar dança e história para crianças, registrar as histórias da população negra de Canguçu, levar os nossos espetáculos para outras cidades e ter um espaço só nosso para realizar todas essas atividades”, finaliza.
Quem tiver interesse em convidar o grupo para apresentações pode entrar em contato pelo perfil @afroritmo_ no Instagram.



