
Uma iniciativa comunitária transformou a rotina dos moradores da rua Arthur de Souza Costa, no bairro Navegantes, em Pelotas. Motivados pelo período da Copa do Mundo, vizinhos e trabalhadores autônomos se mobilizaram para pintar o asfalto e decorar a via com as cores da seleção brasileira.
O projeto, que envolveu cerca de 40 pessoas, alterou a dinâmica social do bairro, historicamente marcado pela escassez de espaços formais de lazer. Em dias de jogos, o trecho é bloqueado para o trânsito de veículos e passa a funcionar como uma arena pública, com a instalação de telões e brinquedos infláveis para crianças.
Origem e Articulação
A proposta foi idealizada pelo pintor profissional Josimar Lucas Vargas, 34, que trabalha na construção civil. Morador do Navegantes, mas criado no bairro Fátima, Vargas afirma que o plano surgiu de um desejo antigo, reforçado após observar manifestações semelhantes em bairros do Rio de Janeiro. “Eu vinha caminhando do serviço para casa e pensando em pintar a rua. Era um sonho que eu carregava desde a infância”, diz.
Segundo ele, a recepção local foi imediata. “As pessoas passavam pelo local, viam o início dos trabalhos e pediam para ajudar na pintura.”
Para tirar o projeto do papel, Vargas buscou apoio técnico para a captação de insumos e organização da logística. O contato foi feito com Chauana Prestes, 30, especialista em tintas da loja de materiais de construção Quero-Quero.
Mesmo sem residir no bairro Navegantes, ela aderiu à proposta e assumiu a gestão do planejamento, que incluiu a busca por doações de tintas, diálogo com comerciantes locais e divisão das frentes de trabalho. “O projeto conseguiu envolver pessoas de diferentes idades, criando um sentimento coletivo e fortalecendo os laços entre os vizinhos. O mais marcante foi ver pessoas que quase não tinham contato no dia a dia trabalhando juntas por um objetivo comum”, afirma a especialista.

Mão de Obra
Diferente de intervenções amadoras tradicionais, a pintura da rua contou com mão de obra qualificada. Vargas articulou uma rede de apoio composta por 20 pintores e grafiteiros da região, todos voluntários.
A equipe técnica encarregou-se dos desenhos complexos, da demarcação geométrica do asfalto e da aplicação de tintas adequadas para resistir ao tráfego de veículos e às intempéries climáticas. Os moradores da via atuaram no preenchimento das cores e no suporte logístico aos profissionais.
De acordo com relatos de residentes mais antigos, o bairro Navegantes não registrava uma mobilização comunitária desse porte voltada à infraestrutura de lazer há pelo menos duas décadas.
Tradição Familiar
A ligação de Vargas com o futebol e com a Copa do Mundo antecede o projeto. O pintor conta que seu nome foi escolhido pelo pai em homenagem ao lateral-direito Josimar, que se destacou na Copa do Mundo de 1986, no México, ao marcar gols contra a Polônia e a Irlanda do Norte.

Vargas relata que suas principais memórias afetivas ligadas ao torneio são as conquistas de 1994 e de 2002. “O título mais marcante foi o tetra, com o Galvão Bueno gritando no rádio e na televisão. O penta também ficou para a história pelo gol ‘de bico’ do Ronaldo Fenômeno contra a Alemanha”, diz.
Para o torneio atual, ele projeta um impacto positivo da mobilização popular sobre o desempenho da equipe em campo. “O hexa tem que vir. Essa união do povo brasileiro gera uma energia que contagia os jogadores dentro do vestiário”, afirma Vargas.
Chauana adota uma postura mais comedida quanto ao resultado esportivo, embora ressalte o valor cultural do evento. “Como torcedora, mantenho a esperança. Sabemos que o futebol é imprevisível, mas o brasileiro não deixa de acreditar”, diz.
A estrutura montada na rua Arthur de Souza Costa deve permanecer ativa e com exibições públicas programadas até o encerramento da participação da seleção brasileira na competição



