O canto da sereia e a ilha da fantasia (A verdadeira face do poder)

Manoel Jesus, educador. (Foto: Divulgação)

Não se engane. A engrenagem política é mestre em criar ilusões. O candidato que você elegeu — depositando na urna a esperança de ver suas dores, necessidades e a realidade do seu bairro ou distrito representadas nas instâncias parlamentares e administrativas — frequentemente sofre de amnésia conveniente assim que assume o cargo. Recentemente, a “briga” de bastidores para manter ganhos acima do permitido (Judiciário), a farra das emendas no orçamento público (Legislativo) e a sangria da Previdência Social (Executivo) apontam para uma máquina descontrolada por ter perdido o senso de serviços prestados ao país.

Uma vez lá dentro, o conhecimento da realidade comum deixa de funcionar. O político eleito ouve o canto da sereia e passa a dançar conforme a música que embala os sonhos na ilha da fantasia. E, para deixar claro, não se está falando da famosa série de televisão dos anos 70, mas sim da representação federal encravada no planalto central: Brasília. Essa desconexão com a realidade do cidadão co­mum não acontece por acaso.

Ela é sustentada por uma máquina de comunicação e marketing azeitada. Por trás dos discursos inflamados e das postagens em redes sociais que simulam proximidade com o povo, operam as en­grenagens do lobby. O objetivo principal dessa estrutura raramente é o bem-estar coletivo. Na prática, o que vemos é uma articulação feroz e coordenada para favorecer a melhoria de vencimentos, privi­légios e benefícios dos Três Poderes em suas instâncias superiores.

Enquanto o topo da pirâmide garante seus reajustes, pendurica­lhos e blindagens, o país assiste ao espetáculo de mãos vazias. As demandas da cúpula do poder tramitam em regime de urgência e velocidade recorde; ao revés, o destino das reivindicações popula­res é o oposto. Saúde, educação, segurança e infraestrutura — o que realmente mudaria a vida do cidadão — são sistematicamente colo­cadas em banho-maria. Enrola-se o povo com promessas de longo prazo e debates ideológicos infinitos e polarizados, ao passo que as prioridades de quem está no poder são resolvidas a portas fechadas.

O maior erro do eleitor é acreditar que o voto é o fim do processo, quando na verdade é apenas o começo. Ao aceitar passivamente a coreografia dessa ilha da fantasia, continua-se financiando um es­petáculo que só traz retorno para os próprios atores. Resta quebrar o encanto do canto da sereia (nas eleições de outubro). A cobrança deve ser tão “profissional, azeitada e constante” quanto o marketing que usam para convencer. Afinal, o poder emana do povo — e já pas­sou da hora de Brasília lembrar que a classe política foi eleita exa­tamente para defender esta máxima, tão básica quanto necessária.

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