Em nota, Prefeitura de Cerrito descarta fechamento de escolas e defende debate sobre a rede de ensino

Segundo os participantes, os próximos passos deverão envolver diálogo com equipes diretivas, professores, pais, conselhos escolares e demais segmentos ligados à educação. (Foto: Celestino Garcia/JTR)

Nos últimos dias, moradores de Cerrito procuraram o Poder Público e manifestaram preocupação nas redes sociais diante de informações sobre um possível fechamento das Escolas Municipais Ulisses Guastucci e Reinaldo Karnopp. Em nota divulgada nesta sexta-feira (12), a Prefeitura esclareceu que não existe qualquer decisão tomada nesse sentido e afirmou que o município realiza apenas estudos técnicos voltados à organização da rede municipal de ensino.

O posicionamento ocorre em meio a um cenário que combina queda no número de matrículas, mudanças demográficas e pressão sobre o orçamento da educação. Conforme dados apresentados pela administração municipal, a rede passou de 664 alunos em 2025 para 626 em 2026, redução de 38 estudantes, equivalente a 5,7%.

A gestão municipal também informou que cerca de 97% dos recursos do Fundeb — Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação — estão comprometidos com despesas de pessoal. Além disso, a arrecadação projetada para o período era de aproximadamente R$ 3,15 milhões, enquanto o valor efetivamente recebido ficou em torno de R$ 2,715 milhões, diferença superior a R$ 435 mil.

Segundo a Prefeitura, a discussão não está relacionada apenas à questão financeira. O município aponta ainda uma mudança demográfica observada em todo o Rio Grande do Sul e na Região Sul do país.

Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a Região Sul possui 95,4 idosos para cada 100 jovens de até 14 anos. Em 2010, esse índice era de 54,9. No Rio Grande do Sul, o envelhecimento é ainda mais acentuado. O Estado registra o maior índice de envelhecimento do país, com 115 idosos para cada 100 crianças e adolescentes quando considerada a população com 60 anos ou mais.

Para a administração municipal, a redução das matrículas acompanha essa tendência regional de queda da natalidade e diminuição da população jovem. O fator também influencia diretamente os repasses do Fundeb, já que a distribuição dos recursos leva em consideração o número de estudantes informados ao Censo Escolar, além das modalidades e etapas de ensino ofertadas.

Outro indicador analisado pelo município é a relação entre alunos e professores. Em 2025, a rede municipal possuía 95 professores para 664 estudantes, média de 6,5 alunos por docente. Em 2026, são 82 professores para 626 alunos, média de 5,3 estudantes por professor.

As duas escolas que motivaram o debate apresentam algumas das menores relações entre número de alunos e professores da rede. A Escola Municipal Ulisses Guastucci atende 66 estudantes com 15 professores, média de 4,4 alunos por docente. Já a Escola Municipal Reinaldo Karnopp possui 86 alunos e 15 professores, média de 5,7.

Em comparação, a Escola Municipal Regina reúne 243 estudantes e 21 professores, média de 11,6 alunos por docente. A Escola Municipal Doutor Jacques registra 393 alunos e 38 professores, média de 10,3. Já a Escola Municipal São Miguel possui 150 alunos e 17 professores, média de 8,8.

Os relatórios financeiros analisados pela administração também apontam forte concentração das despesas da educação em gastos permanentes. Entre fevereiro e maio deste ano, aproximadamente R$ 1,29 milhão foram empenhados por meio de recursos do Fundeb, principalmente para pagamento de salários, gratificações, contratos temporários e encargos previdenciários.

Estudos internos avaliados pela equipe técnica simulam diferentes cenários de reorganização administrativa. Conforme os levantamentos apresentados, as projeções indicam potencial economia anual entre R$ 669 mil e R$ 1,09 milhão, dependendo das medidas eventualmente adotadas. A Prefeitura ressalta, entretanto, que os números integram estudos técnicos e não representam decisões já definidas.

Ainda nesta sexta-feira, o prefeito Flavinho Vieira (PP), o vice-prefeito Wagner Tessmer (PL), o presidente da Câmara de Vereadores, Marquinho Guidotti (PP), o secretário municipal de Educação, Rui Vilela, demais secretários, vereadores, diretores escolares e representantes da comunidade participaram de uma reunião para analisar os dados e discutir alternativas para o futuro da rede municipal.

Segundo os participantes, os próximos passos deverão envolver diálogo com equipes diretivas, professores, pais, conselhos escolares e demais segmentos ligados à educação.

Na nota divulgada à população, a Prefeitura reafirma que as escolas Ulisses Guastucci e Reinaldo Karnopp possuem relevância histórica e educacional para as comunidades onde estão inseridas e reforça que qualquer eventual medida dependerá de estudos técnicos, transparência e participação da comunidade escolar.

Mais do que uma discussão sobre duas unidades específicas, o debate aberto pela administração municipal reflete um desafio enfrentado por diversos municípios gaúchos que é adaptar estruturas educacionais construídas para uma realidade demográfica diferente diante da redução do número de estudantes, do envelhecimento da população e das limitações impostas pelo cenário financeiro atual.

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