Com nova nomenclatura, SOMP reforça papel da alimentação na saúde da mulher

Cristiane é mãe de Diva Maria, de 7 anos, e conta que não passou por dificuldades para engravidar; Carmella tem 24 anos e procura manter uma rotina saudável para tratar da SOMP. (Fotos: divulgação)

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), condição que afeta cerca de 10 a 13% das mulheres em idade reprodutiva, conforme dados da World Health Organization, passou a ter uma nova nomenclatura oficial. A partir de um consenso global, publicado no dia 12 de maio na revista médica The Lancet, a condição agora é chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança busca refletir de forma mais precisa a complexidade da síndrome, que vai além de alterações ovarianas e envolve impactos hormonais, metabólicos e reprodutivos. Diante desses fatores, a alimentação pode ser uma importante aliada para o equilíbrio hormonal e sintomático.

Segundo o relatório, a condição pode atingir uma em cada oito mulheres em idade reprodutiva, e o foco em sintomas ligados à reprodução, como irregularidade menstrual e cistos – folículos ovarianos não liberados – gerava dúvidas sobre um problema mais heterogêneo e complexo.

De acordo com a nutricionista Fabiola Rodrigues, as mulheres com SOMP possuem uma pré-disposição genética a ter resistência à insulina, evidenciando a importância de manter uma dieta equilibrada. “Também é uma condição que causa inflamação crônica. Esses dois fatores vão piorar todos os sintomas que a mulher sente. Então com a alimentação certa, conseguimos controlar a resistência à insulina e essa inflamação”, afirma. Ela ainda detalha que a nomenclatura compreende melhor tudo que a doença engloba. “Antes o foco era muito nos ovários, agora sabemos que está mais relacionado à parte metabólica”.

Conforme Fabiola, quando a mulher consome uma dieta inflamatória, com excesso de carboidratos, refinados e gorduras, sua capacidade de produzir insulina aumenta. “Esse excesso vai chegar nos ovários e eles vão acabar produzindo mais testosterona, que vai causar todos os sintomas que incomodam a mulher, como acne e uma grande quantidade de pelos. Por isso, se fizermos uma dieta anti-inflamatória, conseguimos controlar a resistência à insulina e, consequentemente, produzir menos hormônios masculinos”, pontua.

Efeitos diários
Outra doença que precisa ser observada é a obesidade. Conforme dados epidemiológicos da Boston Scientific, entre 38% e 88% das mulheres com SOMP têm excesso de peso ou são obesas. De acordo com a nutricionista, esse sobrepeso pode se tornar agravante. “Se essa mulher tiver sobrepeso ou obesidade, as próprias células de gordura, os adipócitos, vão acabar causando mais inflamação, deixando essa mulher resistente à insulina e, consequentemente, vai desenvolver mais sintomas. Assim, os dois principais objetivos nesse acompanhamento nutricional seriam o controle da resistência à insulina e do peso”, diz.

Ainda, Fabiola destaca que a dieta deve promover melhora da qualidade alimentar e ganho de massa magra, não apenas emagrecimento. “Se essa mulher tiver sobrepeso ou obesidade, com certeza emagrecer vai ser o nosso foco, mas existem muitas mulheres que são ‘falsas magras’, ou seja, têm uma alimentação que não é saudável, frequentemente com acúmulo de gordura abdominal. Nesse caso, precisamos focar em diminuir a circunferência abdominal e melhorar a qualidade alimentar”.

A estudante de Pedagogia de 24 anos, Carmella Fagundes, acredita que a síndrome altera seu metabolismo. “Temos mais dificuldade para emagrecer, além de os hormônios alterarem diretamente o nosso humor, fome e fertilidade”. Ela conta que recebeu o diagnóstico aos 15 anos, após perceber atraso menstrual, desenvolver obesidade e passar a ter marcas insulínicas no pescoço – escurecimento da pele associado à resistência à insulina.

Carmella ressalta que receber o diagnóstico na adolescência foi difícil, já que as meninas tendem a se cobrar mais nesse período. “Eu sempre fui muito segura em relação ao meu corpo, mas o que eu mais me incomodava era a questão das marcas insulínicas, pois pegou bem a parte da minha adolescência”.

Para Cristiane Monção, de 40 anos, mãe de Diva Maria, de sete anos, o diagnóstico também veio na juventude. “Descobri aos 15 anos quando percebi irregularidades no ciclo, ficava quatro meses sem menstruar e quando vinha a menstruação, passava de 15 dias menstruada. Procurei o médico quando passei um mês sangrando sem parar”, diz.
Assim como Carmella, Cristiane enfrentou dificuldades em relação a sua aparência. Ela relata que acne e pelos no corpo faziam parte de seu cotidiano, junto com as cólicas fortes. “Não conseguia nem sair de casa quando estava menstruada, o fluxo era bastante intenso e as cólicas não passavam com analgésico”.

Desafios reprodutivos e o sonho da maternidade
Conforme Carmella, foi complicado receber informações sobre fertilidade e saúde futura ainda jovem, pois a estudante sonha em viver a maternidade. “Foi bem difícil pois eu sonho em ser mãe, nunca engravidei, e acredito que com este diagnóstico haja ainda mais dificuldade. Também, o anticoncepcional, que afeta muito a questão emocional e hormonal, pode causar doenças futuras”, conta.

Ela conta que tem buscado aprimorar seus hábitos alimentares, marcados por dificuldades desde sua infância. “Minha relação com a alimentação já vem de quando eu era bem pequena, pois sou acima do peso desde os 9 anos. Hoje em dia, faço acompanhamento nutricional com um nutricionista esportivo. De um ano para cá eliminei 20kg, mas pretendo perder mais 20kg para ficar no meu peso ideal”, diz.

Já Cristiane não encontrou dificuldades no processo de ser mãe. Na adolescência ela não planejava engravidar e, depois, teve facilidade assim que parou com o contraceptivo. “Como eu era bastante nova eu não pensava ainda em ter filhos. Mas com o passar do tempo as ginecologistas disseram que eu poderia ter filhos normalmente, pois eu não estava em grupo de risco, não era obesa nem fumava. Depois, não tive dificuldades para engravidar. Quando suspendi o anticoncepcional engravidei logo no primeiro mês de suspensão, porém tive um aborto retido. Após seis meses engravidei novamente sem dificuldades”, declara.

Para ela, engravidar é possível, desde que seja feito acompanhamento nutricional, já que a síndrome pode acarretar diversos problemas, que vão de encontro a nova nomenclatura. “Acredito que a doença mexe com o metabolismo, pois hoje eu tenho resistência insulínica constatada por exames e trato pré-diabetes. Tenho facilidades de ganhar peso e dificuldades em perder, como também tenho bastante retenção de líquido”, detalha.

Atualmente, com dietas e planos alimentares, Cristiane tem se empenhado para manter um peso corporal dentro do adequado, além de utilizar o medicamento Glifage para reduzir o açúcar no sangue e praticar atividades físicas. Ela enfatiza que desejava ter iniciado a reeducação alimentar na juventude. “Eu gostaria de ter tido um acompanhamento nutricional antes, pois hoje eu sei que ajuda bastante nos sintomas e a controlar o ciclo, deixando-o mais regular”, afirma.

Hábitos novos constroem uma boa alimentação
Entre os principais alimentos que contribuem para a melhora da doença, a nutricionista pontua a necessidade de comer carboidratos bons, ao invés de utilizar os refinados. “Trocar um pão branco por um pão integral, entrar com carboidratos de digestão lenta, aveia, batata doce, vegetais… organizar a composição dessa dieta e obter uma porcentagem mais alta de proteína”, explica.

Além de não consumir industrializados, açúcar isolado e melhorar os hábitos alimentares, a nutricionista afirma que é necessário evitar cortes drásticos, que podem causar compulsão alimentar depois de um tempo. “Muitas mulheres acabam pulando, por exemplo, o café da manhã, o café da tarde, compensando em outras refeições e facilitando esse aumento de peso. Ademais, não precisamos cortar carboidratos, a gente nem pode, na verdade. Precisamos escolher carboidratos bons e fazer um controle, de uma forma que ele não fique em excesso na dieta, mas também não falte”, conclui.

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