
A Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis (Cooperforte), de São Lourenço do Sul, consolidou-se como uma das principais referências em sustentabilidade no município. Além de contribuir para a preservação ambiental, a entidade gera emprego e renda para dezenas de famílias e desempenha papel fundamental na destinação correta dos resíduos recicláveis produzidos pela comunidade.
A história da cooperativa teve início com a criação da Associação dos Recicladores de Materiais Recicláveis de São Lourenço do Sul (Asser), fundada em 2005. Com o passar dos anos, surgiu a necessidade de adequação às novas legislações e de ampliação das oportunidades de acesso a recursos, equipamentos e programas nacionais, como os desenvolvidos pela Associação Nacional dos Catadores (ANCAT). A partir desse processo nasceu a Cooperforte, que hoje concentra as atividades da categoria no município.
Em alusão ao Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, a cooperativa participou de diversas ações de conscientização. Na segunda-feira (1º), recebeu mais de 200 estudantes em seu galpão de reciclagem. No mesmo dia, os cooperados participaram da abertura oficial da Semana do Meio Ambiente, promovida em parceria com a Câmara de Vereadores. Já na quarta-feira (3), representantes da entidade estiveram na Praça Central Dedê Serpa realizando atividades educativas junto à comunidade.
Gestão coletiva e valorização dos cooperados
Pela primeira vez, a diretoria da Cooperforte é formada por duas mulheres. Andressa Pereira Medeiros e Renata Katherin Silva da Silva são responsáveis pela coordenação da entidade e pelas demandas administrativas. Apesar disso, Andressa destaca que todas as decisões são tomadas coletivamente. “Todas as decisões são discutidas em reuniões e votadas pelos cooperados, sempre buscando o melhor para todos”, explica.

reduzindo ainda mais o descarte irregular. (Foto: Divulgação)
Integrante da direção desde 2019, quando atuava como secretária, Andressa assumiu a coordenação neste ano. “Desde quando entrei na cooperativa, venho estudando e entendendo como funciona. Assumi a coordenação este ano para dar continuidade ao crescimento da Cooperativa”, relata.
Atualmente, a Cooperforte conta com 18 cooperados atuando diretamente no galpão e cerca de 40 catadores parceiros que trabalham de forma autônoma. “Eles preferem trabalhar assim, sem vínculo. Nós trabalhamos no sistema de compra e venda e respeitamos muito isso. Podemos dizer que esses catadores são grandes parceiros da cooperativa, porque 60% do material comprado deles compõe a nossa carga mensal e impacta diretamente a remuneração dos cooperados”, afirma.
A catadora Carolina Fredes, de 32 anos, trabalha na Cooperforte há oito anos e destaca a importância da atividade para sua vida. “Ser catadora me proporcionou independência financeira e uma forma de levar sustento para minha casa. Para mim, ser uma mãe catadora representa coragem, resistência e esperança. Enquanto ajudo a cuidar do meio ambiente, mostro para meu filho que o trabalho honesto tem valor e merece respeito. A reciclagem não é apenas um trabalho, é um serviço de utilidade pública essencial para o meio ambiente”, ressalta.
Atuação na cidade e no interior
A programação semanal da Cooperforte busca atender diferentes regiões do município. Na área urbana, a coleta é organizada por bairros, enquanto às quartas-feiras são destinadas ao recolhimento dos materiais acumulados pelos catadores parceiros.
Durante o inverno, a entidade alterou seu horário de funcionamento, passando a atuar de segunda a sexta-feira, das 7h às 11h30 e das 13h às 18h. “Nós fizemos uma reunião e optamos por alterar o horário. Antes trabalhávamos até o sábado de manhã, mas o volume de material diminui no inverno. Com isso, resolvemos reduzir a jornada para que os cooperados também tenham mais qualidade de vida e possam descansar ou resolver compromissos pessoais”, explica Andressa.
Recentemente, a Cooperforte firmou parceria com a Prefeitura para ampliar a coleta seletiva no interior do município. “Nós assinamos o contrato em parceria com a prefeitura e já fizemos o cronograma e o mapeamento dos pontos. O interior é muito maior que a cidade, então nossas equipes saem todos os dias para realizar esse trabalho. Tenho o sonho de abrir uma filial na zona rural, porque é uma área muito extensa e poderia gerar mais trabalho e renda. Também estamos trabalhando junto à prefeitura para organizar um Ecoponto, reduzindo ainda mais o descarte irregular”, relata.
Reciclagem e conscientização
A Cooperforte recicla e comercializa entre 50 e 60 toneladas de materiais por mês. Durante o verão, o volume aumenta em razão da presença de turistas no município.

Entre os materiais recebidos estão papel, papelão, vidro, plástico, metal e eletrônicos de pequeno porte. No entanto, a entidade também enfrenta dificuldades com o descarte inadequado de resíduos.
Segundo Andressa, cerca de 3,5 toneladas mensais são compostas por rejeitos, como resíduos orgânicos, que não podem ser reaproveitados. “Esse material acaba vindo para a Cooperativa e precisa ser separado, o que torna o trabalho mais demorado. Estamos enfrentando também problemas com o descarte de objetos perfurantes, como agulhas e estiletes. Há cerca de um mês, uma colaboradora precisou se afastar após sofrer um acidente com duas agulhas que ficaram presas em sua mão”, relata.
Desafios e perspectivas de crescimento
Entre os principais desafios enfrentados pela Cooperforte estão a carga tributária e a oscilação na renda dos cooperados, diretamente relacionada ao volume de materiais recebidos. “Hoje, cerca de 20% de tudo o que produzimos é destinado ao pagamento de impostos. Além disso, dependemos da conscientização da população para destinar corretamente os resíduos, transformando aquilo que seria lixo em renda para o município”, observa Andressa.
Ela também aponta a necessidade de maior reconhecimento social do trabalho realizado pelos catadores. “Embora utilizemos uniforme e prestemos um serviço ambiental fundamental, muitas vezes somos invisíveis para a sociedade. Mas seguimos fazendo nosso trabalho corretamente e acredito que ainda temos muito caminho para percorrer e transformar”, afirma.
Para a coordenadora, a missão da Cooperforte vai além da reciclagem. “Nós não paramos de consumir em nenhum momento. Precisamos ter consciência sobre o destino dos resíduos e entender que aquilo que não utilizamos mais pode se transformar na renda de outra pessoa. Acredito que estamos deixando um bom legado para o município”, finaliza.
Andressa também convida a comunidade a conhecer mais de perto o trabalho desenvolvido pela cooperativa, visitando o galpão de reciclagem e esclarecendo dúvidas sobre o processo de coleta e reaproveitamento dos materiais.



