
Dois anos depois da maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, cidades da Zona Sul como Pelotas, Rio Grande e São Lourenço do Sul avançaram em obras, monitoramento e planejamento. Ainda assim, moradores atingidos relatam que a reconstrução não chegou por completo e que o medo de novas enchentes continua presente no cotidiano. Embora governos e instituições apontem avanços na chamada resiliência climática, a realidade nas áreas mais vulneráveis revela um cenário de recuperação desigual, com comunidades que ainda enfrentam prejuízos econômicos, estruturais e emocionais.
Segundo o coordenador regional de Proteção e Defesa Civil, Márcio Facin, houve fortalecimento da atuação da instituição. “Todos os municípios passaram a contar com planos de contingência e estruturas organizadas para resposta a eventos extremos. O plano possibilita uma organização que vai da prevenção até a resposta”, afirma. Ele destaca também investimentos em monitoramento e a instalação de estações hidro meteorológicas, que ampliaram a capacidade de antecipação.
Obras avançam, mas desafios persistem
Apesar disso, a vulnerabilidade permanece. Áreas próximas à Lagoa dos Patos e ao Canal São Gonçalo seguem ocupadas por famílias que dependem da pesca e convivem com o risco constante de novas cheias. Em Pelotas, a Prefeitura reforçou ações emergenciais e aposta no monitoramento para reduzir impactos. O secretário de Defesa Civil, Milton Martins, declara que a cidade está mais preparada, mas reconhece limites. “Nenhuma cidade do mundo está 100% pronta para enfrentar eventos climáticos extremos”, diz. Segundo ele, obras estruturantes ainda dependem de recursos e não estarão concluídas a curto prazo, o que mantém a necessidade de medidas emergenciais, como reforço de diques e atuação preventiva.
“Temos trabalhado incansavelmente no sentido de ampliar a resiliência do município diante de eventos climáticos. Contamos com equipes das secretarias e do Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep) mobilizadas, amparadas por dados do corpo científico das universidades parceiras para preparar ações a curto, médio e longo prazo na drenagem urbana e contenção de cheias”, sinaliza o prefeito de Pelotas, Fernando Marroni (PT).

Um território em zona de risco
Em São Lourenço do Sul, a reconstrução também segue em andamento. O coordenador municipal de Defesa Civil, Gilmar Majada, afirma que o município ainda não atingiu a recuperação total. “Não podemos falar em reconstrução completa, mas em uma reconstrução estratégica e resiliente”, explica. Entre os principais desafios estão a drenagem insuficiente e a geografia da cidade, cercada por corpos hídricos.

O prefeito de São Lourenço do Sul, Zelmute Marten (PT), afirma que a gestão municipal passou a tratar a resiliência climática como prioridade após as enchentes, estruturando uma atuação integrada com universidades, órgãos de segurança e diferentes esferas de governo. Segundo ele, estudos atualizados indicam que cerca de 80% da área urbana está em zona de risco, o que levou à adoção de medidas como a ampliação do monitoramento meteorológico, investimentos em drenagem e a criação de uma rede regional de cooperação entre municípios.
Marten destaca que, apesar do apoio estadual e federal com ajuda humanitária e ações emergenciais, a recorrência de eventos extremos, incluindo cinco ocorrências apenas no último ano, evidencia que a cidade ainda enfrenta um processo contínuo de adaptação, combinando obras de prevenção com estratégias de mitigação para reduzir os impactos sobre uma população que, segundo ele, já convive historicamente com os efeitos das mudanças climáticas.

Já em Rio Grande, ações de limpeza e desobstrução de canais foram intensificadas. De acordo com o secretário de Infraestrutura, Luiz Francisco Spotorno, mais de 36 quilômetros de microdrenagem foram limpos e centenas de bocas de lobo passaram por manutenção. As medidas visam reduzir alagamentos, mas especialistas apontam que obras de grande porte ainda são necessárias para conter eventos como o de 2024.
A vida depois da água
Enquanto o poder público fala em planejamento e adaptação, nas comunidades atingidas a reconstrução é mais lenta e, muitas vezes, improvisada. Nos fundos do Laranjal, a estudante de Turismo, Lizandra Cordeiro transformou a própria casa após perder praticamente tudo na enchente. Móveis, eletrodomésticos e materiais de estudo foram destruídos pela água. Com ajuda de amigos e doações, ela reconstruiu o lar com a lógica de que tudo agora precisa ser resistente à água.

“Emocionalmente no momento da enchente fiquei meio paralisada, como se não estivesse acontecendo nada, parecia que a ficha não havia caído. Os dias foram gelados, frios, muita chuva. Mas tive muito acolhimento. Com apoio de duas casas para ficar com meu filho, meus cachorros ficaram num abrigo primeiramente e após se juntaram a nós. Ficamos pelo Laranjal mesmo, assim acompanhando tudo de perto. Quando a água baixou a realidade se fez presente”, conta.
Dois anos depois, a vida voltou ao eixo, mas não totalmente. “Está praticamente tudo no lugar, mas ainda faltam coisas a serem feitas. Ainda existe medo, insegurança, até mesmo pelas notícias que são passadas, pelos alarmes sensacionalistas. Isso realmente é um problema e gera muita ansiedade”, diz.
Na Colônia Z-3, onde a água chegou com força, o pescador Arlindo Pereira revive a enchente como um divisor de águas. Ele passou quase dois meses vivendo em um bote para proteger o que restava. “Foi bem complicado, terrível”, resume. Mesmo após o retorno para casa, a principal fonte de renda, a pesca, não se recuperou. Além das perdas materiais, há um impacto menos visível, o psicológico. Pereira admite que pensaria em deixar a região se tivesse condições.
“Minha guria, minha esposa, estavam no Barro Duro, elas pediram para tirar umas fotos, eu vinha todos os dias aqui para ver a situação da casa, mas eu nunca me animei a tirar foto, eu chegava em pânico, então eu não conseguia tirar nenhuma foto. Quando o Guaíba passou de três metros e meio, eu já sei que ia entrar água na minha casa e na maior parte da comunidade. Nos anos de aprendizagem a gente já tem essa noção”, explica Pereira.

A situação atinge toda a comunidade. Segundo o presidente da colônia, Nilmar Conceição, ainda há prejuízos significativos. “A comunidade não é mais a mesma. Foi muito estrago e a gente não teve produção de pesca aqui nesses dois anos, em função até mesmo da enchente, então fica difícil de reconstruir”, assegura. Ele critica a atuação do poder público, que considera insuficiente e paliativa.
Reconstrução segue
Mesmo diante das dificuldades, iniciativas institucionais tentam responder à nova realidade climática. A Corsan afirma ter avançado na capacidade de resposta a crises. Segundo o gerente regional, Rodolfo Fuchs, houve melhorias no monitoramento e na operação dos sistemas. “Hoje estamos mais preparados porque aprendemos com a crise”, diz. Entre as ações estão o reforço de estruturas, monitoramento em tempo real e redução de perdas de água.
No âmbito estadual, o governo afirma ter investido bilhões em reconstrução e prevenção, com foco em infraestrutura, monitoramento e fortalecimento da Defesa Civil. Ainda assim, especialistas e gestores reconhecem que a adaptação às mudanças climáticas é um processo contínuo e urgente.
Dois anos depois, o cenário na Zona Sul do Estado revela que há mais preparo institucional, mas também mais consciência de que eventos extremos tendem a se repetir. Entre obras inacabadas, planos em execução e vidas reconstruídas com esforço próprio, a enchente de 2024 ainda não terminou para quem vive nas áreas mais vulneráveis.

Relembre
Considerada a pior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, as fortes chuvas que atingiram o estado em maio de 2024 provocaram a morte de 185 pessoas, deixaram 23 desaparecidos, 806 feridos e mais de 470 municípios afetados. Cerca de 2,4 milhões de pessoas foram impactadas, com milhares de desabrigados e desalojados, além de danos severos à infra estrutura urbana e rural. Cidades inteiras ficaram submersas, rodovias foram destruídas, sistemas de abastecimento de água e energia entraram em colapso e serviços essenciais foram interrompidos por dias.



