
Uma pesquisa de cientistas brasileiros identificou que borboletas estão perdendo suas cores vibrantes em áreas desmatadas da Amazônia. Em locais degradados, os insetos passam a apresentar tons mais acinzentados e pardos, em comparação com áreas preservadas. Resultados semelhantes também foram obtidos em pesquisa mais recente sobre a modificação nas cores das borboletas a partir de ações humanas na Mata Atlântica e o plantio de pinus no lugar da floresta nativa.
O fenômeno foi identificado em dois estudos recentes. O primeiro, concluído em 2021, analisou 60 espécies em áreas da Floresta Amazônica submetidas a corte e queima recorrentes. Já o segundo, publicado em 2024, investigou mudanças na coloração de 47 espécies de borboletas na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, no bioma da Mata Atlântica.
A pesquisa na Amazônia foi realizada por meio do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, com quatro pesquisadores e um especialista, em parceria entre a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade de Exeter, do Reino Unido. O estudo mais recente reuniu cinco pesquisadores das duas instituições gaúchas.

Nos dois trabalhos, os cientistas analisaram fotografias padronizadas para medir características das cores das asas. “Somos capazes de extrair variáveis de coloração que acreditamos ser importantes para a história de vida das borboletas, ao mesmo tempo que são relevantes para compreendermos essa característica”, afirmam o professor Cristiano Iserhard, da UFPel, e o pesquisador André Nogueira Thomas, da UFRGS. Segundo eles, houve avanço entre os estudos. Enquanto a pesquisa na Amazônia focou áreas específicas, o
trabalho na Mata Atlântica analisou toda a superfície das asas, permitindo avaliar não apenas as cores, mas também os padrões formados.
As borboletas são consideradas bioindicadores da saúde ambiental e dos ecossistemas por responderem rapidamente a alterações no habitat. Elas dependem de condições específicas, como presença de plantas hospedeiras, equilíbrio de temperatura, umidade e luminosidade, além de ambientes preservados. “A maioria dos grupos tendem a desaparecer quando estes recursos diminuem pela perda de habitat, fragmentação, silvicultura, poluição e urbanização”, aponta Iserhard.
A perda da vegetação nativa torna as cores mais visíveis, aumentando a exposição a predadores. Com menos abrigo e alimento, as populações tendem a diminuir. “Apenas espécies com coloração mais próxima de tons de cinza e marrom, semelhantes ao ambiente queimado ou desmatado, conseguem se manter, descaracterizando as espécies que viviam aliantes da perturbação”, diz o pesquisador da UFPel.

Esse processo altera a composição das espécies e pode levar à extinção local de algumas delas. As cores das borboletas desempenham funções essenciais, como defesa, reprodução e termorregulação. “Acaba existindo uma pressão muito maior sobre as cores, principalmente aquelas relacionadas às estratégias de defesa como a camuflagem ou sinalização de perigo. Para a saúde dos ecossistemas, isso significa perda de biodiversidade, de interações e de resiliência ecológica, sensibilizando-os a distúrbios”, conta Thomas.
A Amazônia abriga a maior biodiversidade do mundo, contendo cerca de 10% de todas as espécies conhecidas no planeta, ocupando menos de 1% da superfície terrestre. Entre ela, estão a “blue morpho” (Morpho menelaus) — que corre perigo de extinção — a Prepona narcissus, a Cithaerias andromeda, a Historis acheronta, entre outras nativas da região, detalhadas no estudo.

Os pesquisadores destacam que a perda de biodiversidade vai além da perda de espécies. Há perda de características, de funções, de interações, de dinâmicas complexas que às vezes são difíceis de serem compreendidas. “Vejo como uma das maiores contribuições podermos enxergar, facilmente, como as ações humanas podem afetar negativamente esses aspectos apenas observando as cores das asas das borboletas. Nosso atual modo de vida pode impactar tantas facetas da biodiversidade e, portanto, nossas iniciativas de conservação e restauração devem atentar-se para elas também”, explana Iserhard.
Estudos sobre coloração, segundo ele, podem contribuir para a conservação de biomas ao facilitar a compreensão dos impactos ambientais por parte da sociedade. Entre outras medidas apontadas estão ações de educação ambiental, políticas públicas e iniciativas de restauração com espécies nativas. O trabalho mais recente também indica que plantações de pinus, embora utilizadas por alguns organismos, têm papel limitado na conservação da biodiversidade.

“Um cenário semelhante é encontrado com as mono culturas de eucalipto e acácia, que também desempenham um papel irrisório na conservação da biodiversidade. O manejo florestal com espécies nativas ajuda a manter os processos dos ecossistemas, reduzindo impactos e, ao mesmo tempo, contribuindo de forma sustentável para a economia”, expõe Iserhard.



