Brasil avança no enfrentamento ao HIV, mas estigma ainda é desafio central

Dezembro Vermelho marca conquistas no combate ao HIV, com mortalidade em queda. Porém, perfil epidemiológico preocupa: doença se concentra cada vez mais em jovens e populações vulneráveis. (Foto: Daniela Alves/JTR)

O Brasil celebra neste Dezembro Vermelho a trajetória de avanços no enfrentamento ao HIV e à Aids marcada pela redução de casos de infecções, queda na mortalidade e ampliação das estratégias de prevenção. Os números mais recentes do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde revelam um cenário de progresso: as mortes por Aids caíram 12,8% de 2023 para 2024, atingindo o menor índice da série histórica, enquanto os casos da doença reduziram 1,5% no mesmo período.

Ao mesmo tempo, o país sustenta uma alta capacidade de diagnóstico. Em 2024, foram 39.216 novas detecções de HIV – uma leve alta em relação ao ano anterior, reflexo da ampliação da testagem e do acesso ao cuidado. Entre 1980 e 2025, o Brasil registrou 1,67 milhão de pessoas vivendo com HIV ou Aids.

Apesar dos avanços, desigualdades regionais e sociais ainda persistem. A epidemia está cada vez mais concentrada em jovens e populações vulneráveis, e a população negra representa 59,7% das infecções recentes, o que expõe o impacto de fatores estruturais, como racismo, pobreza e menor acesso a serviços de saúde.

Testagem e prevenção: o cuidado como ferramenta de autonomia
A testagem regular é um dos pilares da campanha e continua sendo apontada como determinante para interromper a cadeia de transmissão. “A testagem permite detecção precoce e início imediato do tratamento, evitando danos maiores à saúde e cortando a cadeia de transmissão. O desafio é estimular mais pessoas a se testarem”, ressalta a enfermeira/analista em Saúde e referência técnica da Política de IST/HIV/Aids da 3ª Coordenadoria Regional de Saúde, Michele Rodrigues Matos. Todos os testes e remédios são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Testagem regular é um dos pilares da campanha e continua sendo apontada como determinante para interromper a cadeia de transmissão. (Foto: Rodrigo Chagas)

Dados nacionais mostram que jovens usam pouco preservativo. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS/IBGE), 60% dos jovens acima de 18 anos não utilizaram camisinha em nenhuma relação sexual. Essa realidade se reflete na incidência crescente entre adolescentes e adultos jovens de 15 a 29 anos, especialmente no sexo masculino, que concentra 66% das infecções nessa faixa etária. Na prática cotidiana, a testagem representa um gesto de autocuidado como conta o estudante Ricardo*, que realiza exames a cada três meses. “Me testar reforça que quem dita sobre minha saúde sexual sou eu. Não é medo, é autonomia. A testagem regular não é sinônimo de promiscuidade, é sinônimo de autocuidado”, contou.

PrEP e PEP: avanços que chegam aos serviços, mas ainda precisam vencer barreiras
As estratégias biomédicas da prevenção combinada como Profilaxia pré-exposição (PrEP) e Profilaxia pós-exposição (PEP) avançam no país. Em Pelotas, por exemplo, a PrEP está disponível no Centro de Testagem e Acolhimento (CTA) e pelo TelePrEP Pel. Segundo o infectologista Hilton Luís Alves Filho, a desinformação ainda limita a adesão. “Ainda surgem mitos que a PrEP causa efeitos graves, que é ‘para grupos de risco’. É preciso reforçar que é um método seguro, eficaz e parte do direito à prevenção”, explicou.

Mesmo com expansão nacional, o acesso ainda é desigual. Na região Sul, Michele destaca que a PrEP ainda está restrita a um perfil mais escolarizado e majoritariamente branco, evidenciando desafios para chegar às populações mais vulneráveis, como pessoas trans, profissionais do sexo, jovens de baixa renda e usuários de substâncias.

40 anos de resposta ao HIV: modernização do tratamento e vidas transformadas
A terapia antirretroviral (TARV) completou quatro décadas no Brasil em 2025, período marcado por enorme evolução. Atualmente, o tratamento de primeira linha envolve dois comprimidos por dia, com baixa toxicidade e forte capacidade de supressão viral. Em um mês, muitas pessoas já se tornam indetectáveis.

Esse foi o caso de Rodrigo Rosa, que recebeu o diagnóstico em 2018 e relata um início marcado por medo. “Saí do Centro de Testagem e Aconselhamento com a sensação de chão desaparecendo. Achava que era um fim. Ao chegar no trabalho, não consegui permanecer. Chegando em casa, fui direto ao banho em uma tentativa frustrada de tentar ‘me limpar’, pois a sensação que tinha era de estar sujo. Todas essas reações eu fui compreender posteriormente que eram fruto de anos de estigmas e preconceitos internalizados em mim mesmo e forjados em uma sociedade que ainda pensa assim. Mas em um mês já estava indetectável. O tratamento é eficaz, tranquilo, e a vida segue. O HIV é mais um vírus social do que biomédico”, relatou.

Estigma: a barreira que ainda impede diagnóstico, prevenção e cuidado
Apesar dos avanços, o maior obstáculo segue sendo social. Segundo Michele, o estigma ainda impacta diretamente a vida das pessoas vivendo com HIV, dificultando a busca pelo diagnóstico e interferindo na adesão ao tratamento. O infectologista reforça. “Quando há discriminação, as pessoas deixam de buscar testagem ou prevenção. O estigma perpetua a invisibilidade e aumenta riscos”, explicou.

Hilton Luís Alves Filho é médico infectologista em Pelotas e destaca que a desinformação ainda limita a adesão às estratégias biomédicas da prevenção combinada. (Foto: Arquivo pessoal)

Para Rodrigo, que tornou seu diagnóstico público, a “sorofobia” se manifesta em nuances. “Recebi comentários preconceituosos, mas os maiores preconceitos são velados. A sociedade ainda precisa entender que HIV não define ninguém”. Ricardo compartilha a percepção sobre o tabu em torno da testagem. “As pessoas acham que quem se testa é porque ‘tem algo a temer’. Isso afasta muita gente dos serviços de saúde”.

Ações locais: educação, testagem e saúde como acolhimento
Na Zona Sul, municípios ampliam ações durante o Dezembro Vermelho. A coordenadora de Vigilância Epidemiológica de Canguçu, Laura Bierhals, destaca que todas as unidades de saúde do município oferecem testagem de forma descentralizada, sem necessidade de agendamento. As atividades incluem orientação, testagem rápida e educação em saúde. Contudo, Laura afirma que as visitas às escolas e comunidades ainda são um passo difícil por conta dos pais. “O maior desafio é o entendimento da importância da testagem. A sífilis, por exemplo, tem aumentado. É preciso ampliar informação e acesso”, explicou.

Durante o mês todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) de Pelotas foram sensibilizadas a trabalhar em seus territórios com atividades voltadas à campanha de prevenção ao HIV/Aids. A coordenadora da rede de doenças crônicas transmissíveis da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Carolina Felix conta que instituições de ensino e saúde realizarão atividades voltadas a prevenção/orientação durante todo o mês. “Desde novembro, a rede começou a desenvolver atividade de matriciamento com a Atenção Primária da SMS, para realização de trabalho, voltado a pessoas que vivem com o HIV, visando à prevenção e linha de cuidado”.

Os testes rápidos estão disponíveis em todas as UBSs do município e também no CTA. Em abril, a Prefeitura iniciou com o Tele PrEP Pel, serviço voltado ao atendimento das profilaxias, o que fez com quem a procura pela PrEP aumentasse de forma considerável. O serviço funciona via telefone/WhatsApp, onde um profissional acolhe o paciente, passa orientações e encaminhamentos de atendimento presencial. O horário de atendimento é de segunda a sexta-feira, das 13h às 19h.

A coordenadora do Programa DST/Aids de Jaguarão, Sabrina Moreno Jorge, explica que o município não realizou ações específicas neste ano, mas reforça que a prevenção e o diagnóstico do HIV acontecem de forma contínua ao longo do ano. Todas as UBSs oferecem testagem rápida para a população, e os casos com resultado reagente são encaminhados para tratamento nos serviços de referência de Pelotas e Rio Grande, onde ocorre o acompanhamento especializado com infectologistas e acesso à medicação. Jaguarão disponibiliza PrEP na UBS Darci Ribeiro e PEP na Santa Casa, garantindo que os métodos de prevenção combinada estejam acessíveis para quem precisa.

Conforme a enfermeira, o município mantém ações educativas voltadas a jovens, adultos e crianças, com palestras realizadas tanto pelas equipes de saúde quanto pela rede de educação, além da distribuição contínua de preservativos em todos os postos. Sabrina destaca ainda uma preocupação crescente: o aumento de casos de sífilis, especialmente entre homens de 20 a 40 anos – o que reforça a necessidade de ampliar a busca ativa, fortalecer a educação em saúde e estimular a testagem regular para todas as ISTs.

Postos de saúde distribuem preservativos gratuitos para a comunidade se prevenir das ISTs. (Foto: Michel Corvello)

Transmissão vertical perto da eliminação
Um dos marcos celebrados este ano é o avanço no controle da transmissão vertical. O Brasil disputa a certificação internacional pela manutenção de taxa inferior a 2% em casos de mães vivendo com HIV que transmitem o vírus ao bebê resultado de pré-natal qualificado, diagnóstico precoce e início oportuno do tratamento.

“Para quem vive com HIV, a gestação é possível e segura quando acompanhada adequadamente. Com tratamento e acompanhamento médico, os riscos de transmissão vertical, da pessoa gestante para o bebê, são reduzidos a níveis mínimos. Isso reforça que o HIV não impede projetos de vida, como formar família. Lembrar que indetectável é igual intransmissível, uma pessoa vivendo com HIV que está em tratamento regular e apresenta carga viral indetectável tem zero chances de transmissão sexual do HIV”, reforçou o infectologista.

*A reportagem criou um nome fictício para o entrevistado, que preferiu não se identificar