
Criada em 2003, na Austrália, a campanha do Novembro Azul tem por objetivo não só fortalecer as recomendações de prevenção, diagnóstico precoce e rastreamento do câncer de próstata – o mais comum entre os homens depois do câncer de pele, conforme o Instituto Nacional do Câncer (Inca) –, mas também conscientizar sobre a saúde do homem como um todo. Com expectativa de vida sete anos menor do que a das mulheres, a saúde masculina precisa ser priorizada e debatida.
Necessidade da retomada da rotina de exames e a atenção aos fatores de risco
Para Saulo Recuero, médico urologista do Hospital Piltcher, a campanha tem como missão incentivar os homens a terem uma rotina de consultas e cuidado com a saúde, hábito este que é perdido depois da pré-adolescência de modo geral. “Antigamente, o menino ia no pediatra até seus 15 anos, depois ele tinha um gap de mais de 30 anos quase sem ter consultas com o médico. Diferente da menina, que vai até os seus 13 ou 14 anos no pediatra e, depois, ela começa a consultar no mês seguinte com o ginecologista. Por isso que a gente orienta hoje que, a partir dos 15 ou 16 anos de idade, aqueles que já não vão mais no pediatra, devem começar a consultar com o urologista pra ter orientações da saúde masculina”, ressaltou o médico.
Recuero afirma que a chance de cura do câncer de próstata com diagnóstico precoce é próxima de 98%. Dentre os exames, destacam-se o antígeno prostático específico (PSA), o toque retal e uma ressonância multiparamétrica de próstata. Caso ocorra uma alteração nesses exames, deve ser realizada uma biópsia da próstata. Ademais, conforme o médico, homens brancos devem iniciar o rastreio com 50 anos de idade, enquanto os negros devem iniciar a partir dos 45, bem como todos os que possuem histórico de câncer de próstata ou de mama na família.

no Hospital Piltcher, em Pelotas. (Foto: Divulgação)
Além do histórico familiar, fatores de risco para o desenvolvimento de doenças, tais como alimentação inadequada, consumo abusivo de álcool e carência de atividade física precisam também ser levados em conta, disse o médico. “Um homem magro tende a ter um câncer de próstata menos agressivo do que um paciente obeso. A obesidade aumenta o risco de um câncer de próstata mais agressivo. Não que haja maior probabilidade do indivíduo de ter câncer de próstata por ser obeso, mas se vier a manifestar um câncer de próstata, tende a ser mais agressivo”, explicou Recuero.
Ações ajudam a levar a informação à população
De acordo com a secretária de Saúde de Pelotas, Ângela Vitória, a campanha promove ações específicas na cidade. As principais envolvem a abordagem de fatores de risco para o desenvolvimento das doenças crônicas.
A secretária cita que a distribuição de materiais nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) desempenha um papel importante e estratégico nas ações. “No município, a promoção da saúde e prevenção do câncer de próstata e de outras doenças crônicas é realizada através de ações estratégicas na Atenção Primária que é composta por Unidades Básicas de Saúde. Periodicamente, são realizadas distribuições de materiais educativos nas Unidades de Saúde sobre as doenças mais comuns, hábitos de vida saudáveis, e saúde sexual e reprodutiva”, afirmou Ângela.
Em Pelotas, conforme dados da Secretaria de Saúde do município, uma média de 29 pacientes procuraram por ultrassonografias de próstata via abdominal e, em média, nove por ultrassonografia via transretal por mês até novembro deste ano, sendo que em março e em novembro foram os meses com maior procura. Os pacientes são atendidos de acordo com a disponibilidade de vagas para cada procedimento. Cabe ressaltar que, por via transretal, não há oferta de vagas até o momento.
Outras cidades da zona sul foram consultadas, contudo, as prefeituras não possuem dados concretos sobre exames e atendimentos desse tipo.
Histórias que inspiram
Para Antonio Perdomo, paciente de Recuero que passou por um câncer de próstata em 2022, os exames de diagnóstico precoce – que ele realizava desde os 45 anos – são fundamentais para alcançar a cura da forma mais rápida possível. “Eu realizava os exames de sangue PSA e toque retal. O quanto antes [o câncer] for descoberto, melhor serão os resultados que o médico irá ter e os benefícios do paciente”, contou.
Perdomo reforçou que o sucesso de seus procedimentos refletiu em um cuidado ainda maior com sua saúde. “O doutor, após o procedimento, disse que fui um dos casos dele que mais obteve resultados positivos, tanto em relação ao procedimento cirúrgico como recuperação. Devido a isso, minha vida voltou plenamente a normalidade, meu olhar mudou da importância de continuar a levar uma rotina regrada, com os devidos cuidados na prevenção de doenças e a importância de manter a frequência dos exames anuais”, disse.

A campanha do Novembro Azul para Mário Heidemann, membro da Associação de Apoio a Pessoas com Câncer (Aapecan) em Pelotas, tem um impacto significativo para que haja uma desmistificação do preconceito entre os homens. “O Novembro Azul faz muita diferença, pois existe muito preconceito entre os homens em procurar um urologista até mesmo para falar sobre o assunto, por desinformação, vergonha, medo. Por este motivo, as vezes, a doença se agrava”, comentou.
Com 69 anos de idade e na luta contra o câncer há dois, Heidemann contou ainda que seu diagnóstico foi inesperado. Após investigações devido ao PSA alterado, seu urologista decidiu solicitar uma biópsia para chegar em um resultado preciso. Atualmente, um acompanhamento com oncologista e urologista é realizado por parte dele.
Tecnologia aliada ao tratamento
Dentre os tratamentos empregados, a cirurgia ainda é o mais comum de acordo com Recuero. Nesse sentido, as operações robóticas vêm para agregar e proporcionar uma melhor recuperação aos pacientes. “A cirurgia robótica é mais precisa, com recuperação mais rápida e menor sangramento. Então, cirurgias que poderiam durar mais tempo, pacientes que ficariam mais tempo internados e sofreriam com efeitos colaterais que podem acontecer nesse tipo de tratamento, diminuíram muito. O tempo médio de uma operação dessas é de uma hora e meia, e o tempo de internação é, em média, de 24 horas”, destacou.

Segundo Recuero, entre as mais de 100 cirurgias robóticas realizadas pelo Hospital Piltcher até o momento, 85% foram cirurgias de câncer de próstata.
Em relação ao pós-operatório, o médico reitera que o ideal é que haja um acompanhamento a cada três meses no primeiro semestre, a cada seis meses no primeiro ano e, após isso, anualmente. Recuero explicou ainda que depois da cirurgia pode se fazer necessário um tratamento complementar, como a radioterapia de resgate, também com intuito curativo nestes pacientes.



