Gravações do longa “Vó África” começaram durante a semana na Zona do Porto de Pelotas

Parte das gravações acontecem na Zona do Porto, onde foi instalado um bonde cenográfico. (Foto: Rafael Dias)

A arquitetura histórica de Pelotas tem sido cenário das gravações do filme “Vó África: Em busca dos velhos trilhos”, que começou a ser rodado no dia 1º de agosto. A trama traz à tona uma narrativa marcada pela ancestralidade negra, apagamentos históricos e resistência. Com direção de Nando Ramoz e produção executiva de Gabriela Barenho, Vó África deve ter suas gravações concluídas até o final de agosto e a previsão é de estrear em 2026. A estimativa é que o projeto injete, aproximadamente, R$ 3 milhões na economia regional.

A história gira em torno de África, uma menina liberta da escravidão e que viveu no século XX, tornando-se uma figura materna dentro de sua comunidade. Após sua morte, uma jovem professora negra mergulha em arquivos e memórias da cidade, revelando que a servente da escola, antes invisibilizada, foi uma importante ponte entre o passado escravocrata e a luta contemporânea por justiça. O enredo se passa durante os anos da Ditadura Militar (1964-1985) e tem classificação indicativa de 12 anos.

A equipe envolvida reúne aproximadamente cem profissionais e colaboradores de diversas áreas, com destaque para 32 atores locais. “Chegar aqui e ver todo mundo envolvido, comprometido e comovido com o projeto renova nossa energia. A tecnologia oferece muitas oportunidades, mas é só pisando aqui que a magia acontece”, afirmou a Gabriela Barenho.

Entre as principais locações está a Casa Oca, na região do Porto, espaço cedido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) por meio do Núcleo de Gênero e Diversidade (NUGEN). As filmagens também incluem outros pontos emblemáticos da cidade, como o entorno do Theatro Guarany, o Mercado Público, a caixa d’água da Praça da Santa Casa, a Casa do Trabalhador, o auditório do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul) e a região da Cascata.

A presença do audiovisual na cidade é marcante e favorece a produção, segundo Gabriela, o intercâmbio entre a produção e a oferta de profissionais favorece uma troca de saberes que ajuda a enriquecer o processo. “Poder proporcionar experiências como essa aos estudantes da cidade também faz parte do nosso trabalho e está dentro dos nossos objetivos”, disse.

Diretor Nando Ramoz viveu em Pelotas e, agora, retorna para dirigir a produção que estreia em 2026. (Foto: Rafael Dias)

Para o diretor e roteirista Nando Ramoz, o retorno à Pelotas tem um significado especial. Ele já conhecia a cidade desde os anos 1980, quando estudou na UFPel. “Pelotas faz parte da minha história. Aqui tive meu primeiro contato com uma produção de cinema, também montei meu grupo de teatro, com o qual pude criar meus filhos. De alguma forma me sinto retribuindo”, afirmou.

Não são poucos os motivos pelo qual Pelotas foi escolhida para ser a cidade cenográfica do filme, tudo começa pela arquitetura preservada e a relevância da história da população Negra para a cidade. “Já produzimos uma minissérie com episódios aqui [Nação Preta do Sul], que deu origem ao nosso primeiro longa documentário. Ouvimos histórias incríveis que também nos inspiraram a voltar e a cada dia estamos mais certos de que fizemos a melhor escolha”, disse a produtora.

Além do valor simbólico e cultural, a produção também gera impacto econômico relevante na cidade. Figurinos, cenários e até um bonde cenográfico foram confeccionados artesanalmente por artistas locais.

César Mello e Roberta Rodrigues compõem o elenco de Vó África. (Foto: Rafael Dias)

A produção recebe apoio de diversas instituições, como a Prefeitura de Pelotas, a Secretaria Municipal de Cultura, a UFPel, a Portos RS, a Film Commission, e organizações como o Exército da Salvação e a Cáritas, entre outros. O projeto foi viabilizado através da Lei Paulo Gustavo, sendo contemplado em 1º lugar entre os editais de audiovisual da Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul (SEDAC/RS).