A geopolítica da decadência

Luciano Luz de Lima, advogado e mestre em Ciência Politica. (Foto: Divulgação)

A recente ofensiva tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil e outros países emergentes, evidencia uma reconfiguração conflituosa da ordem internacional. Não se trata de mero protecionismo episódico, mas de uma estratégia defensiva diante da perda de centralidade econômica e política do imperialismo norte-americano. Desde a crise estrutural do capitalismo nos anos 1970 — marcada pela estagnação, inflação e queda das taxas de lucro — o sistema capitalista global tem se reorganizado sob novas formas de acumulação por espoliação, como analisa David Harvey, que incluem o uso do poder de Estado para sustentar a financeirização e os monopólios globais.

Entretanto, essa reestruturação não impediu o aprofundamento da crise. O crescimento das economias periféricas, especialmente dos BRICS, constitui uma resposta geopolítica à estagnação do centro. Esses países buscaram alternativas de desenvolvimento com maior soberania tecnológica, financeira e produtiva, desafiando a hegemonia ocidental. O Brasil, ainda que em posição ambígua, passou a integrar articulações multilaterais que contestam o unipolarismo estadunidense, como a Nova Rota da Seda e o Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics.

É nesse contexto que a política tarifária dos EUA se revela: não como defesa legítima de seus interesses produtivos, mas como reação à perda de competitividade e influência diante de um mundo cada vez mais multipolar. O ataque comercial contra produtos brasileiros deve ser lido como tentativa de conter o avanço de uma nova correlação de forças globais que já não se organiza em torno de Washington. A decadência da potência imperial não implica, contudo, o fim do imperialismo — mas sua mutação em formas mais agressivas, seletivas e instáveis.

A geopolítica da decadência é, portanto, o cenário em que se desenha o conflito entre um centro em declínio e periferias em disputa por protagonismo. Cabe às sociedades do Sul Global entender que sua inserção soberana no sistema mundial exigirá rupturas com a dependência histórica e a construção de novos pactos de desenvolvimento que não reproduzam, sob outras bandeiras, as velhas formas de dominação.