Embrapa realiza importantes projetos de manejo e conservação do solo

O dia 15 de abril foi definido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento como o Dia Nacional da Conservação do Solo. (Foto: Divulgação)

O solo desempenha papel fundamental na produção de alimentos, filtragem da água, regulação do clima e manutenção da biodiversidade dos agroecossistemas. O dia 15 de abril foi definido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) como o Dia Nacional da Conservação do Solo, estabelecido pela Lei 7.876/1989, em homenagem ao nascimento do pesquisador norte-americano Hugh Hammond Bennett, que exerceu um papel importante na luta contra a erosão do solo. Mais do que uma data, é um chamado à reflexão sobre a relevância da conservação deste importante recurso natural.

O pesquisador da Embrapa Pelotas, Adilson Bamberg, atua em projetos da instituição de pesquisa que visam melhorar o estado de conservação dos solos do sul do Brasil, entre eles, o Projeto Solo Protegido, que visa melhorar os solos cultivados com tabaco nas propriedades da região.

Engenheiro agrícola com mestrado e doutorado em Agronomia na área de Concentração em Solos, Bamberg também integra a equipe multidisciplinar que desenvolve o projeto Recupera Rural RS, que visa recuperar solos afetados pelas enchentes de 2024. “Esse projeto compõe uma plataforma colaborativa criada no final de 2023 e início de 2024 e visa combater os efeitos adversos do clima na agropecuária brasileira”, explica.

O pesquisador afirma que dependendo do sistema de cultivo e da cultura, existe uma série de boas práticas recomendadas para que se obtenha uma boa produtividade. “Parte do sistema de cultivo, onde se deve evitar o revolvimento do solo todos os anos ou várias vezes para um mesmo cultivo”, diz. Segundo ele, é comum certos produtores promoverem a aração, revolver a terra, depois passar uma grade leve por uma ou duas vezes e isso pulveriza e promove a desagregação do solo. “Esse é um aspecto que, em relação ao sistema de plantio, promove a desagregação e pode facilitar os processos erosivos”, salienta.

Uma das recomendações é manter o solo coberto por boa parte do ano com a utilização de plantas de cobertura nos intervalos entre as culturas principais, como soja, milho ou mesmo o tabaco. “Utilizar plantas para cobertura do solo é também uma iniciativa fundamental para evitar o impacto da gota da chuva diretamente sobre o solo”, ressalta.

Mais uma prática a ser citada é o cultivo em nível ou que siga as mesmas quotas do terreno. “Nestas áreas com altas declividades, mesmo aquela com relevo suave ondulado, é necessária a utilização de práticas mecânicas de conservação, como o uso dos terraços, das curvas de nível, que evitam a erosão e reduzem este problema de enxurrada”, explica.

O engenheiro agrícola destaca que o cultivo em nível seguindo estes terraços é muito importante para evitar a erosão. Ele indica ainda a prática de rotação e sucessão de culturas, ou seja, rotacionar as culturas dentro da área da propriedade para evitar a proliferação de doenças e pragas, quebrar o ciclo das pragas e a sucessão de culturas de modo que o solo permaneça coberto o maior tempo possível. “Ao colher, já pensar na próxima safra ou já estar semeando a próxima safra para evitar o solo descoberto”, aponta.

Bamberg lembra também da questão da correção da fertilidade do solo. “Existe hoje um conjunto bem amplo de insumos que vai desde o calcário, fundamental para a correção do PH do solo em profundidade, até a correção das deficiências nutricionais para aumentar a fertilidade e garantir uma boa produtividade para todos os cultivos”, salienta.

O Projeto Solo Protegido pretende ampliar mais o uso destas boas práticas nas áreas onde se cultiva tabaco nas propriedades. “Nós temos atuado aqui também no aproveitamento de resíduos agroindustriais para melhorar a qualidade de solos agrícolas”, cita. Segundo Bamberg, são utilizadas estratégias de conversão de resíduos em insumos agrícolas, como os lodos de estações de tratamento de água e de esgoto, convertendo-os em insumos, como substratos para plantas ou condicionadores de solo, e verificando dessa forma quais as melhores maneiras de tornar estes materiais seguros e eficientes para a agricultura. O projeto é realizado em conjunto com o Sindicato das Indústrias de Tabaco (Sinditabaco).

“Temos também trabalhos que visam ampliar o estoque, a retenção e o armazenamento de água nos solos agrícolas”, lembra. Do ponto de vista físico, buscam maneiras de manejar os solos para estocar mais carbono e também para promover maior volume de poros, que possam reter e disponibilizar água para as plantas cultivadas. Conforme o engenheiro agrícola, estas são as principais linhas de trabalho que ele está envolvido na instituição de pesquisa.

Sobre o Recupera Rural RS, Bamberg afirma que o primeiro passo foi atuar no diagnóstico dos tipos de degradação e as áreas que foram afetadas pelo evento das enchentes de abril e maio de 2024, e posteriormente, implantar unidades de referência técnica. “São propriedades tidas como exemplo, modelos de recuperação dos seus solos após a degradação promovida pelas enchentes, pelos soterramentos e deslizamentos”, explica.

Segundo ele, a Embrapa investe forte neste trabalho realizado por equipe multidisciplinar com a participação de sete unidades do sul do Brasil e que visa promover a recuperação destas áreas e tornar esses solos mais resilientes, mais fortes e resistentes a esses impactos causados por eventos extremos. “Temos ainda outros projetos que atuam neste tema parcialmente, não tão diretamente, e cada um busca da sua forma tentar englobar estas questões”, diz.

O engenheiro agrícola observa que somente com a adoção das boas práticas agrícolas recomendadas, cobertura permanente do solo, plantas de cobertura, sistema de cultivo que evita o revolvimento intenso e continuado ao longo dos anos, uso de práticas mecânicas de conservação como os terraços, as curvas de nível em áreas mais declivosas, é possível evitar a degradação dos solos. “Temos estimulado também o uso de cordões vegetados, que são terraços onde a sua crista é cultivada com culturas perenes, como o capim elefante, cana-de-açúcar, que são plantas com sistemas radiculares muito agressivos e ao mesmo tempo muito resistentes e seguram os sedimentos”, ressalta.

Além disso, há necessidade de sempre considerar a rotação e sucessão de culturas, tanto visando a quebra dos ciclos das pragas e doenças quanto o uso de culturas de serviço, que promovem a adição de muita palha no solo, sistemas radiculares bem agressivos, que adicionam bastante carbono e estruturam o solo, aumentam o volume de poros, auxiliam na retenção e armazenamento de água e tornam as áreas mais resilientes aos efeitos das estiagens. “Este ano estamos passando por uma estiagem muito severa, que gera impacto econômico muito intenso e extenso no sul do Brasil, particularmente no Rio Grande do Sul, com efeitos adversos muito significativos na economia, principalmente do setor agrícola, e precisamos evitar que estes efeitos adversos do clima impactem a produtividade das culturas”, diz.

Segundo Bamberg, existe a concepção pelo produtor sobre a importância da conservação e adoção de práticas para conservação do solo, mas nem sempre elas são tão simples de executar. “É preciso conhecer como fazer da forma mais simples possível e que não interfira nos cultivos que os produtores precisam ter para o seu retorno econômico”, aponta. “Falta então ampliar esse leque de conhecimentos ao produtor e técnicos agrícolas sobre como aplicar estas práticas de conservação para que ele consiga conservar o seu solo”, completa.

Se reportando às chuvas ocorridas nos meses de abril e maio de 2024, o engenheiro agrícola destaca que são os eventos de elevada precipitação em curto espaço de tempo os causadores dos grandes impactos da degradação dos solos, principalmente quando se fala de erosão. “São nessas situações que se não houver práticas de conservação, a probabilidade de ocorrer uma enxurrada e levar embora a melhor camada do solo, que é superficial, é muito grande”, finaliza.