Na noite de quarta-feira (26), a Câmara de Vereadores de São Lourenço do Sul promoveu uma audiência pública para discutir a situação da Santa Casa Municipal. O evento ocorreu no plenário da Casa Legislativa e contou com a presença de um público expressivo.
A audiência foi convocada em atendimento à proposição nº 870/2025, apresentada pelos vereadores Renan Hartwig (PP), Cássio Lessa Boesche (PDT), Paulinho Pereira (PODEMOS) e Márcia Lucas (PT). O objetivo foi debater a crise financeira que afeta a Santa Casa de Misericórdia de São Lourenço do Sul e discutir as medidas necessárias para evitar a paralisação dos atendimentos médicos.
Compuseram a mesa oficial da audiência a vice-prefeita, Fernanda Bork (PT); a promotora de justiça, Cristiana Müller Chatkin; o secretário de Saúde, Diego Elias; o presidente da Santa Casa, Cristiano Altenburg; o representante dos médicos locais, Dr. Alcir Iuppen; a coordenadora da 3ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), Milena Hoffmann; e o presidente do Conselho Municipal de Saúde, Armildo Schneider. O prefeito, Zelmute Marten (PT) participou da audiência de maneira remota, devido a compromissos em Brasília.
Durante o encontro, os membros da mesa e os vereadores expressaram suas preocupações e buscaram soluções para a crise enfrentada pela instituição.
Panorama atual
A situação financeira da Santa Casa de Misericórdia de São Lourenço do Sul é alarmante. O problema não é recente e tem gerado uma dívida elevada. De acordo com o tesoureiro, Valnei Bröse, a dívida acumulada gira em torno de R$ 170 milhões. Além dos salários atrasados dos médicos, a Santa Casa enfrenta pendências financeiras com a CEEE, a Corsan, entre outras obrigações.
Atualmente, serviços como maternidade, traumatologia e cirurgias eletivas estão suspensos. No entanto, serviços essenciais, como pronto-socorro e internações, continuam funcionando. A diretoria da Santa Casa apresentou uma proposta para quitar os salários em atraso, mas essa proposta foi rejeitada pela maioria dos colaboradores, que optaram por uma demissão em massa.
Em resposta à crise, foi implantado um plano de contingência. Os hospitais de Jaguarão, Piratini e o Hospital da Reserva, no interior do município, aceitaram receber pacientes de São Lourenço do Sul, garantindo a continuidade do atendimento.
Propostas de Resolução
Após quase cinco horas de audiência, poucas resoluções concretas foram apresentadas. O evento contou com discussões intensas, onde os participantes buscaram esclarecer os problemas e apresentar possíveis soluções.
Marten sugeriu a realização de uma auditoria interna na Santa Casa, com o intuito de entender as origens da crise financeira. Ele também lamentou a falta de envolvimento da Prefeitura Municipal como colaboradora da instituição.
O representante dos médicos, dr. Alcir Luppen, criticou a falta de diálogo da direção da Santa Casa com os profissionais de saúde. Segundo ele, a proposta de parcelamento de salários foi apresentada sem abertura para negociação. O psiquiatra, dr. Flávio Resmini também destacou a falta de pediatras na ala psiquiátrica, o que tem dificultado o atendimento a crianças, além de expressar preocupação com o futuro do centro psiquiátrico da instituição, que é referência na formação de profissionais na área.

A promotora, Cristiana Chatkin, propôs a reintegração da Policlínica à Santa Casa, de modo a utilizar os recursos destinados ao setor para auxiliar na recuperação financeira da instituição.
O presidente da Santa Casa, por sua vez, afirmou que uma equipe interna está realizando um levantamento detalhado dos gastos de cada setor da instituição para entender as causas da defasagem financeira. Ele também anunciou a contratação de um instituto terceirizado, que será responsável pela gestão dos profissionais da saúde após as demissões em massa. Além disso, a Santa Casa planeja retomar gradualmente seus serviços, com a expectativa de que as emendas financeiras previstas para maio ajudem nesse processo.
Ação do Instituto Vida Plena
O Instituto Vida Plena, de Santa Catarina, assumirá a gestão dos médicos da Santa Casa e a responsabilidade pelos serviços de emergência, pronto-socorro e internações. A partir de 5 de junho de 2025, o instituto comprometeu-se a retomar as cirurgias de todas as especialidades e, em 5 de julho, reiniciar os atendimentos médicos e ambulatórios sem restrições. A prioridade é a recontratação dos médicos que se demitiram recentemente.
O contrato com o Instituto Vida Plena será no valor total de R$ 570 mil, com repasses para os médicos conforme a demanda de serviços. Esse valor é inferior ao que a Santa Casa gastava anteriormente, e o contrato poderá ser rescindido a qualquer momento, caso as metas estabelecidas não sejam cumpridas.
O Instituto também deixou claro que está aberto a propostas melhores e que, se surgir uma opção mais vantajosa, o contrato atual poderá ser cancelado. Aguardam-se os próximos passos das entidades envolvidas para o desfecho dessa crise.




