
No mês dedicado à Mulher, a perspectiva feminina sobre o Autismo é essencial, pois a narrativa foi dominada por um viés masculino durante décadas. Estudos apontam que, para cada quatro homens diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), apenas uma mulher recebe o mesmo laudo (CDC, 2023). Esses números escondem uma realidade dolorosa, pois milhares de meninas e mulheres permanecem à margem, não por não estarem no espectro, mas porque o mundo insiste em não as enxergar.
Enquanto meninos com Autismo costumam manifestar comportamentos mais evidentes – como crises de ansiedade ou hiperfoco em temas específicos –, as meninas aprendem, desde cedo, a camuflar suas diferenças. Elas podem passar horas imitando gestos de colegas, forçando sorrisos ou sufocando stims (movimentos repetitivos de autoregulação) para não chamar atenção. O resultado é que um terço das mulheres com TEA só recebe o diagnóstico após os 20 anos (Autism Research, 2024). Na escola, o preço dessa invisibilidade é alto. Bullying, isolamento e a constante sensação de não pertencimento marcam seus dias. Enquanto isso, professores e familiares atribuem seu sofrimento à timidez excessiva, perdendo a chance de intervir precocemente.
Na adolescência, o corpo vira um território desconhecido, e a puberdade chega como um terremoto. A menstruação, com seus odores, texturas e cólicas, pode ser uma tortura para quem tem hipersensibilidade sensorial. Muitas adolescentes com Autismo desenvolvem pânico de banheiros públicos ou ficam paralisadas diante da obrigação social de usar maquiagem e seguir rituais de beleza. E, enquanto suas colegas flertam e descobrem a sexualidade, elas se sentem perdidas. “Por que ninguém me avisou que beijar seria tão molhado?”, questionou uma jovem autista em um fórum online. A falta de materiais adaptados sobre saúde íntima e consentimento as deixa vulneráveis a abusos – um estudo brasileiro revelou que 68% das mulheres no espectro já sofreram violência em relacionamentos (Instituto Jô Clemente, 2023).
Já a adulta com Autismo sofre o peso da máscara; no trabalho, o cansaço é crônico. “Passo o dia decifrando códigos que parecem óbvios para os outros: quando devo rir? Como reagir a um elogio?”, desabafa uma designer autista de 29 anos. Não é à toa que 85% dos autistas brasileiros estão desempregados (IBGE, 2023), e as mulheres enfrentam dupla discriminação: por gênero e por neurodivergência. Nos relacionamentos, a solidão é frequente. Muitas se culpam por não sentirem amor da forma certa ou por não entenderem jogos sociais. Quando se tornam mães, a pressão triplica: 47% das cuidadoras de crianças autistas desenvolvem ansiedade generalizada (Fapesp, 2024).
A maturidade é a última fronteira da invisibilidade, pois as idosas com Autismo são fantasmas em um sistema que nunca as reconheceu. Muitas passam décadas sem diagnóstico, atribuindo suas dificuldades a personalidade difícil. Com o envelhecimento, comorbidades e problemas como demência e artrite se misturam às características do TEA, exigindo cuidados especializados que simplesmente não existem.
O Autismo no feminino não é uma variação menor do espectro – é um universo inteiro de vivências que a ciência e a sociedade ainda estão aprendendo a decifrar. Os números frios das estatísticas escondem histórias reais: meninas que crescem achando que são menores do que realmente são, adolescentes que sangram em silêncio sem entender seus próprios corpos, adultas exaustas de fingir ser quem não são. Por trás de cada estatística, há uma vida – e ela merece ser vivida com dignidade, sem dor. O caminho ainda é longo, mas cada passo importa. Porque, por trás de cada dado, há uma mulher esperando para ser vista – não pelo que falta nela, mas por tudo que ela é. Contudo, a mudança cultural começa com pequenos gestos, havendo escolas que ensinem sobre neurodiversidade, empresas que abandonem entrevistas cheias de subentendidos, médicos que escutem além dos estereótipos. E, quando a sociedade aprender isso, estaremos finalmente construindo um mundo inclusivo, no qual a divergência não significa estar sozinha.
Ângela Pereira Miguelis Caruso
Terapeuta e Mãe Atípica
Pós-Graduanda em Educação Inclusiva com ênfase em Transtornos Globais de Desenvolvimento (TGD) e Altas Habilidades
Instagram @prof_angelacar
E-mail: [email protected]
Eduardo Gil da Silva Carreira
Advogado – OAB/RS 66.391
Pós-Graduando em Transtorno
do Espectro Autista (TEA):
Inclusão Escolar e Social
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E-mail: [email protected]



