
Talvez, você até já presenciou alguma demonstração de fé igual ou maior que a citada acima. Mas se tal prosa com Papai do Céu parte de um menino que poderia desistir diante de tudo que um câncer agressivo causa em seu organismo e cujo tratamento necessita de medicamentos fortes que agridem seu corpo e causam, inclusive, feridas em sua boca, concedendo a ele o direito compreensível de sucumbir, é possível que você mude sua opinião.
Natural de Pinheiro Machado, Bernardo, ou Bê, como é chamado pelos pais, Eduarda Pereira Borges e Rodrigo Sigalles, completou quatro anos em janeiro, cantando e sempre falando com Deus da janela de seu quarto. Algo inacreditável para quem, em setembro de 2024, ficou sete horas em uma cirurgia da qual os pais tinham consciência, tanto que assinaram um documento, pois o filho poderia não sair com vida do bloco cirúrgico.
Para a mãe, Bernardo surpreende a cada dia, tanto quanto o homem detentor do poder da caneta que, incompreensivelmente, dizia não a sua chance de continuar vivendo. “Ele passou por sete ciclos de quimioterapia, um transplante de medula óssea, pela fase crítica do pós-operatório e tantos outros procedimentos que agrediram seu frágil corpinho, mas continua ‘ignorando’ o câncer, situado acima de um de seus rins e próximo das veias cava e aorta, que, em caso de rompimento, causam óbito”, resume Eduarda.
Ela conta que, além da quimio, o filho passou ainda por radioterapia, períodos de febre e diarreia, o que o mantém debilitado, mas firme, sorrindo, dando forças aos pais, os fortalecendo e com fé na medicina, mas imensamente mais em Deus. “Não temos opção: ou seguimos lutando e implorando a Deus, mas não somente a Ele para salvar nosso filho, ou desistimos e o perdemos. Após a cirurgia e a tanta agressividade não só pelo procedimento, mas por tudo que o antecede e a sucede, ele saiu caminhando do hospital. É muita vontade de viver de um ser iluminado e de força indescritível, que renasce a todo momento”, ressaltou a mãe.
A pinheirense disse que o processo é muito dolorido, afinal, o filho já passou por todo o protocolo brasileiro à busca da cura. Inclusive, pelo transplante para receber as células-tronco, porém, nada disso adiantou. O casal, que abandonou os empregos em Pelotas para cuidar do filho em Porto Alegre, se sustenta com o básico por meio da venda de rifas, solidárias. Recentemente, conseguiram com que Bernardo fosse aceito em um tratamento experimental nos Estados Unidos e precisarão ir, no mínimo, a cada dois meses o mais rápido possível.
“Se ele participar do estudo e receber gratuitamente o D.F.M.O., medicamento desenvolvido inicialmente como um agente antitumoral, a chance de o câncer retornar novamente é imensamente menor. Quem teve acesso a este remédio, que ainda não é comercializado, em apenas 3% o Neuroblastoma voltou. Precisamos levantar algo em torno de R$ 450 mil”.
O montante é apenas para pagar as 12 viagens necessárias, bem como a hospedagem, alimentação, exames e consultas, já que o medicamento não tem custo. Eduarda e Rodrigo já conseguiram o valor para uma das viagens, que custará não menos que R$ 35 mil.
Em janeiro, viralizou um vídeo gravado por Eduarda em frente ao Hospital de Clínicas, em Poro Alegre. No registro, ela aparece emocionada apanhando outro remédio que, ao mesmo tempo que renova suas esperanças, foi motivo de imensa frustração por depender da decisão da Justiça Federal.
“O Bernardo ganhou do Instituto Anaju, organização sem fins lucrativos situada em Brasília, dedicada a assistir e amparar crianças com câncer e doenças raras, cinco ampolas do Qarziba, que, no mercado, não custam menos de R$ 305 mil. Mas com este imunoterápico, que fará com que seu próprio organismo combata as células cancerígenas, permitindo que, a seguir, ele passe a ingerir o D.F.M.O. Há a necessidade de que cinco ciclos, a princípio, sejam completados. São R$ 2 milhões. Cada ampola custa R$ 63 mil. Pergunto: quantos pais, no Brasil, sendo a maioria pobres, têm esse valor para salvar seu filho? Por meses, a Justiça disse não para que o governo federal pague pelo medicamento, sob a alegação de que o Bê não se enquadra nos casos que não podem esperar”, questiona Eduarda.
A mãe chora e a exaustão perante a tantas decepções vem à tona. “Como uma criança que já passou por tudo que o Bê foi submetido, com um câncer agressivo, não é um paciente de alto risco? De onde ele tira isso? Até então, o juiz exigia cada vez mais laudos e exames que nem mesmo ele, às vezes, tem a capacidade para analisá-los e, enquanto isso, os dias passavam e nada acontecia. Para o representante da lei, meu filho era, e tomara que isso mude, somente um número. Mas para mim é a minha vida, pois a vida dele é a minha. Era desumano”, desabafa Eduarda.
Agora aliviada, a mãe informa que recentemente obtiveram uma vitória no tratamento de Bê. “Conseguimos há poucos dias, graças a Deus, um laudo favorável do Natjus. Nos resta aguardar o prazo de 20 dias para que o governo faça a compra da medicação. Acreditamos que, em um mês, o Bernardo volte ao hospital para recebê-la”, celebra.
Eduarda refere-se ao Núcleo de Apoio Técnico do Poder Judiciário, órgão que fornece informações técnicas sobre saúde para o Poder Judiciário, auxiliando os magistrados na análise de casos que envolvem medicamentos e procedimentos médicos.
Reticente, mas esperançosa, ela acrescenta: “ainda não temos a assinatura do juiz, assim, não dá pra comemorar antes do tempo. Mas com tal laudo, há 99% de chance que a Justiça dê um parecer favorável”, torce a mãe.
“Estamos imensamente agradecidos a Deus por ter nos concedido a chance de estar junto ao nosso filho nos quatro aninhos dele, mesmo que tenhamos consciência ser possível que, no ano que vem, isso poderá, infelizmente, não acontecer”, finaliza Eduarda.



