Reportagem do JTR desvenda mistério de mais de 40 anos envolvendo sumiço de Maria Sueli

Por fotos que o viúvo guarda consigo, os filhos de Maria puderam, após 43 anos, saber como era o rosto da mãe. (Foto: Gabriela Ávila)

O trabalho investigativo da correspondência do JTR em Piratini, iniciado em 22 de novembro, desvendou todo o mistério envolvendo Maria Sueli Domingues Silva. Em 1981, a mulher se viu obrigada a ir embora do interior de Herval, deixando para trás seus dois filhos, fato motivado pelas agressões sofridas pelo então marido, inclusive, toda vez que tentava defender o casal de crianças de também apanharem.

Atendendo ao pedido de Antônio Valci Farias, o Brisa, de 56 anos, o JTR foi à busca de sua mãe, e, além de obtermos até mesmo as certidões de nascimento originais de Brisa e de sua irmã, Sílvia, também realizamos um dos sonhos dos filhos: revelamos, através de fotos, como era o rosto de Maria em duas fases de sua vida – uma delas, em 1988, sete anos depois de seu sumiço.

Infelizmente, o abraço tão sonhado pelos filhos não será possível. Após a publicação da primeira reportagem, a aposentada Eva Celoá Dummer, de 58 anos, fez contato com o JTR informando que a tia Maria havia falecido em 2021, vítima de um AVC, horas antes de completar mais um ano de vida, na véspera de Natal.

“Não era apenas minha comadre e madrinha da Rafaela que, junto com o seu Zé, batizou minha filha, hoje com 32 anos. Eu era ainda sua confidente. Lamento ser tarde demais. Eu tentei, mas não pude ajudá-la realizar seu sonho: reencontrar os filhos que, por anos, ninguém sabia que tinha, até que, um dia, ela olhou para o meu marido, a quem chamava de filho e, a seguir, revelou mais uma parte de sua triste e sofrida história”, recordou Eva, referindo-se ao companheiro, Cristiano.

“Ela me confidenciou quanto aos maus-tratos por parte do ex-marido e tantas outras situações que passou na vida, entre estas, o fato de ter dormido nas ruas, em Pelotas, onde acabou conhecendo o meu compadre”, completou Eva.

A mulher concluiu fazendo uma afirmativa baseada em tudo que ouviu em mais de 30 anos de amizade. “Era uma benzedeira muito querida por todos, inclusive, no Padre Reinaldo, onde residia. Me contou tudo e eu confirmo: ela foi muito judiada, uma escrava em uma época que, por exemplo, os patrões faziam o que queriam com as empregadas, principalmente, quando estas eram negras. A paz veio somente quando encontrou o Zé, a pessoa que lhe deu amparo”.

Conversamos com José Milton Alves Teixeira, de 64 anos, que tem dúvidas sobre a idade que a esposa tinha quando morreu. “Os documentos dizem que ela nasceu em 1947. Mas não posso confirmar a idade que realmente tinha, pois, me parece, que a documentação dela foi refeita. Então, não sei”, afirma o aposentado.

Teixeira relembra que, sensibilizado com a saudade que a companheira sentia dos filhos, foi a Pedro Osório e, ainda, a Herval, lugares onde sabia que eles haviam morado, na esperança de encontrá-los, mas foi em vão. “Tentei porque, mesmo que eu soubesse do seu passado triste e que Maria evitava falar, eu tinha noção do tanto que ela sonhava em revê-los. Quanto a isso nada consegui”, lamenta o viúvo, que finaliza resumindo como conheceu a companheira.

“Eu alugava umas peças quando trabalhei em Pelotas. Precisei de alguém para lavar minhas roupas e me indicaram ela. Nos conhecemos em outubro de 1988, ficando juntos por 33 anos, até sua morte, seis dias antes do meu aniversário, em 30 de dezembro. Me faz imensa falta”.

A tristeza do filho

“Não me recordava de seu rosto, já que, de nossa mãe, conosco não ficou sequer uma foto”, disse Brisa, emocionado, ao ver fotos da genitora, 43 anos depois. A entrevista foi feita por chamada de vídeo, já que o homem mora atualmente em Santa Vitória do Palmar.

No rosto, ao visualizar as fotos, expressões que demonstraram frustração e tristeza pelo calvário da mãe, mas também de alívio ao ter, agora certeza, de que ela nunca os esqueceu. Brisa também se mostrou contente em saber que a mãe teve alguém ao seu lado até o fim da vida, a quem ele não abre mão de conhecer pessoalmente.

“Minha esperança de que ela estivesse viva era pouca, mas…Vou a Piratini assim que possível para conhecer e saber do seu Zé, histórias sobre nossa mãe. Isso acontecerá em breve”, afirma Brisa.