
“Que tudo de ruim seja removido: olho gordo, inveja, ciúme, mau olhado. Que seja tudo cortado do corpo desse irmão. Eu te benzo e Deus que te cure, em nome dele e
da Virgem Maria”.
Por mais de 50 anos, com essas palavras, a benzedeira Alaídes Severo Damasceno foi procurada não só por aqueles que eram residentes na Ponte do Império, distrito rural às margens da BR-293, em Piratini, mas, inclusive, por pessoas das demais localidades e também de cidades vizinhas.
O tempo passou, os crentes em seu dom partiram, mas como o conhecimento ancestral foi repassado para a filha, outras tantas gerações continuaram e ainda continuam à busca dessas rezas e súplicas que acreditam ajudar a restabelecer o equilíbrio físico, espiritual e material nisso que é visto como o intermediário entre o sagrado e o humano com o objetivo de curar e promover o bem-estar.
“Herdei da minha mãe. Benzo há 50 anos, desde os 20, e não faz mais tempo porque, ao a ver fazer enquanto eu ainda era uma criança, começava a rir”, recorda a quilombola Vera Maria Damasceno Couto, 70 anos, residente no Quilombo da Faxina, localidade da zona rural situada à beira da ERS-702. “Ela, que partiu aos 96 anos, ficava brava e me chamava a atenção: ‘Maria, para, não presta rir! Tens é que aprender para continuar a fazer o bem para as pessoas’”, completa.
A benzedeira garante que suas rezas, entre estas, a que usa um galho de arruda, abrem portas, ou seja, colaboram para que a jornada dos benzidos seja abençoada pelo Criador.
“Das formas que mais uso, faz parte um copo, brasas e uma tesoura. Se as brasas ficam na borda do copo, é porque está tudo bem na vida da pessoa. Mas quando elas descem para o fundo, é porque as coisas não andam boas. Há olho gordo, mau olhado e até espíritos que, muitas vezes, não querem fazer nada contra, mas deixam as pessoas perturbadas”, afirma Maria, que finaliza lamentando que as benzedeiras estão próximas da extinção: “Sim, já estamos próximas do fim. Um exemplo é que, dos meus quatro filhos, nenhum se interessou em aprender. Sendo assim, não tenho como repassar o dom que recebi de minha mãe”.



