Pelotas: “A música para mim é a arte de praticar os sentimentos através do som”, diz idoso recém-formado na UFPel

Após ter colado grau, João Cláudio Campelo pensa em dar aulas particulares de música. (Foto: Divulgação/Deka Chagas)

Entre os percalços e desafios que fazem parte de uma graduação, muitas histórias são guardadas pelos corredores de uma universidade: desabafos, alegrias, tristezas e, também, superação. No dia-a-dia, algumas dessas narrativas podem passar despercebidas, afinal, as coisas, por vezes, são corridas demais para que se pergunte o passado de cada colega, aluno ou professor. No entanto, existem histórias com a força necessária para inspirar a perseverança de outras e, por isso, devem ser levadas adiante.

João Cláudio Campelo, de 78 anos, é um destes contos que ambientam esperança e cultivam o senso de que pode não ser fácil alcançar um sonho, mas nunca é impossível, contanto que se acredite nele. Campelo se formou em licenciatura em Música pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) no último dia 11 e mantém uma longa trajetória ligada ao som – uma vida tocada por ele.

“Naquela época, davam música no colégio e eu já gostava muito de música, daí estudei. Depois, me tornei músico por vontade própria. Meus parentes compravam os instrumentos, iam trabalhar e eu ficava em casa estudando, aí eu fui desenvolvendo. Quando cheguei na adolescência, entre 16/17 anos, eu estava sempre envolvido com música e bandas de música”, conta Campelo, que desde 1967 carrega com orgulho a carteira profissional de músico.

Tendo ingressado na faculdade em 2011, aos 65 anos, a iniciativa foi tomada após a aposentadoria da Brigada Militar (BM), onde o idoso ficou pelo período de 20 anos, tendo atuado tanto na área de Enfermagem, quanto na música, carreira da qual aposentou-se no cargo de mestre da banda do Comando Regional de Policiamento Ostensivo (CRPO) Sul.

Multitalentos, Campelo, ao longo de sua trajetória, desenvolveu gosto por inúmeros instrumentos, tocando violão, cavaquinho, guitarra, contrabaixo, clarinete, saxofone, alto e sax barítono. Mas a preferência é pelo teclado. “Toquei em conjuntos vocais, toquei em conjuntos de baile, toquei em conjuntos grandes e viajava também, viajava tocando e fazendo shows. Saíamos daqui e levávamos 15 dias, tocando de cidade em cidade”, recorda.

Antes de entrar para a BM, Campelo já havia tocado ao lado de bons músicos na noite, em cinco e em trios de piano, baixo e bateria. Foi aos 28 anos que a carreira ao lado dos brigadianos começou, mas, mesmo então trabalhando na Enfermagem, o sonho da música não ficou de lado, uma vez que se via sempre sendo empurrado para ele, como aconteceu quando se mudou para Porto Alegre para realização de cursos. “Eu passei pela época de ditadura, eu já tocava. A gente, para tocar os bailes, tinha que fazer o repertório e levar a Rio Grande, na Polícia Federal, para assinatura”, relembra o idoso, que passou ainda pelo período de pandemia durante a faculdade, tendo recebido auxílio dos familiares para utilizar as ferramentas de informática e melhorar o desempenho nas tarefas propostas pelos professores.

Após a aposentadoria, o músico, que nunca foi alguém conhecido por ficar parado, decidiu que iria continuar seus estudos. A formação, porém, não foi fácil, uma vez que em 2012, um ano após o ingresso na instituição de ensino, Campelo sofreu um acidente de moto, sendo obrigado a realizar o trancamento da matrícula para que pudesse cuidar da própria saúde e focar em sua recuperação. Em 2014, após ter melhorado e, enfim, retomado o curso, o músico sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), o que obrigou Campelo a realizar um novo trancamento.

Em 2020, o idoso precisou ir em frente à banca de professores para defender sua permanência na faculdade, uma vez que já haviam passado 10 anos desde o início do curso – o chamado júbilo, desligamento compulsório que acontece quando o aluno ultrapassa o prazo máximo previsto para sua formação. “Já tinham passado dez anos e eles queriam me desligar, eu fui defender, expliquei o que aconteceu e consegui continuar”, declara.

Com planos de seguir a carreira na área do ensino da música às gerações mais novas, o músico reflete sobre quais serão seus próximos passos, vendo como positiva a ideia de dar aulas particulares àqueles interessados na arte que tanto entoa em sua vida. “Eu fiz o que eu gosto e eu continuo fazendo o que eu gosto. Tenho uma pequena pastelaria, mas para tocar, de terça a sábado, fico tocando meu instrumento e eu sempre achei que idade não é dificuldade para estudar. Esse é meu pensamento”, conclui.